Descrição de chapéu The Washington Post

Como a imagem de Assange foi de herói da liberdade de expressão a pária

Australiano falava em unir maiorias contra a elite, mas acabou por soar mais como partidário de Trump

Avi Selk

Em abril de 2010, uma organização pouco conhecida chamada WikiLeaks divulgou imagens em vídeo gravadas por um helicóptero de ataque americano ao sobrevoar um subúrbio de Bagdá três anos antes, em um momento de combates intensos na guerra do Iraque. No final do vídeo, depois de o espectador ver disparos de canhão contra uma multidão nas ruas e ouvir os soldados americanos calmamente dirigindo o fogo da aeronave para eliminar os sobreviventes, entre os quais dois empregados da agência de notícias Reuters, rolavam os letreiros.

O primeiro nome a aparecer na tela era o de Julian Assange, "produtor e diretor de criação" —para não mencionar hacker autodidata e responsável pela criação do WikiLeaks, com o objetivo de obter segredos dos poderoso e revelá-los ao público. Foi assim que Assange foi apresentado ao mundo, ainda que talvez seja difícil recordar o momento depois de sua detenção em Londres na quinta-feira (11) —como um homem maltrapilho, de quase 50 anos e barba branca, cuja reputação popular como defensor da liberdade de expressão se atrofiou ao ponto de quase desaparecer, de 2010 para cá.

O vídeo mostrando o ataque do helicóptero foi visto milhões de vezes no YouTube, e o WikiLeaks em seguida divulgou uma quantidade enorme de documentos sigilosos americanos —cabogramas diplomáticos embaraçosos e revelações perturbadoras sobre as guerras do Iraque e Afeganistão. Pelo final de 2010, o líder republicano no Senado, Mitch McConnell, definiu Assange como "terrorista de alta tecnologia". A secretária de Estado Hillary Clinton o acusou de lançar "um ataque" contra o mundo, e o futuro presidente Donald Trump afirmou que os envolvidos nos vazamentos deveriam ser executados.

Mas o que tantos políticos condenaram, boa parte do público celebrou.

Assange recebeu elogios imediatos de defensores da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa. Os leitores da revista Time e do jornal Le Monde votaram por grande maior a seu favor nos concursos das duas publicações para escolher a celebridade do ano. Ele fez uma palestra na TED. Jornais internacionais colaboravam com ele nos bastidores para publicar dezenas de milhares de documentos vazados. E mesmo depois que Assange decidiu se esconder do número cada vez maior de governos que o investigavam por crimes que variavam de agressão sexual a espionagem, repórteres e apresentadores de TV conseguiam localizá-lo para entrevistas em muitos casos bajuladoras.

O WikiLeaks "tenta tornar o mundo mais civil e agir contra organizações abusivas que pressionam na direção oposta", disse Assange à revista Time via Skype, de um local secreto, para uma reportagem de capa publicada em dezembro de 2010. A ilustração do artigo mostrava o australiano, já grisalho ainda que não tivesse chegado aos 40 anos, amordaçado com uma bandeira dos Estados Unidos.

Se a ilustração fosse encomendada hoje, poderia mostrá-lo algemado com a bandeira dos Estados Unidos, agora que a polícia londrina o capturou e arrastou por Londres, à espera de uma possível extradição ao território americano por acusações de "hacking". Mas alguém ainda o escolheria como tema de uma reportagem de capa?

"Ele era uma figura instável que infelizmente se tornou símbolo da liberdade de imprensa", disse Alex Gibney, que escreveu e dirigiu "We Steal Secrets: the Story of WikiLeaks", um documentário de 2013. "Creio que, instintivamente, ele sempre foi um renegado e um narcisista, preocupado acima de tudo consigo mesmo, e mendaz".

Até sua prisão, na manhã de quinta-feira, a última ocasião em que Assange havia sido visto nas ruas foi ao se refugiar na embaixada do Equador em Londres, em 2012. Àquela altura, ele já era um pária, considerado como fugitivo ou suspeito pela maioria dos governos da Europa e dos Estados Unidos.

"Uma corajosa nação latino-americana decidiu se posicionar pela justiça", disse Assange a uma multidão de simpatizantes, da sacada da embaixada, em agosto daquele ano. "E para as pessoas dos Estados Unidos, Reino Unido, Suécia e Austrália que me apoiaram com toda força, mesmo que seus governos fizessem o oposto, e para as cabeças mais sábias nos governos, que continuam a lutar pela justiça: seu dia chegará".

Assange passou os sete anos seguintes dentro da embaixada. A polícia londrina mantinha vigilância quase constante do lado de fora, com ordens de prendê-lo assim que pisasse em território britânico, e por isso ele não o fez. Assange continuou a fazer discursos ocasionais na sacada, a divulgar alguns vídeos e a receber celebridades como Noam Chomsky e Lady Gaga, no começo da década de 2010. Adotou um gatinho e criou uma conta de Twitter para o animal, que atraiu atenção modesta.

Mas à medida que as guerras dos Estados Unidos foram perdendo espaço no debate público e as lembranças sobre o vídeo do helicóptero desapareciam, a celebridade de Assange também definhou.
Ele poderia terminar esquecido por seus fãs, e talvez até por seus inimigos, se o WikiLeaks não tivesse conseguido mais um grande furo, no meio de uma eleição presidencial nos Estados Unidos.

Na metade de 2016, quando Assange administrava o WikiLeaks de seu quartinho na embaixada equatoriana, a organização divulgou dezenas de emails recentemente pirateados do Comitê Nacional do Partido Democrata —causando tumulto na convenção nacional do partido.

Isso nada fez para tornar Assange mais querido de Hillary Clinton, selecionada na convenção como candidata presidencial democrata; tampouco lhe valeu amigos nos serviços de inteligência, que mais tarde concluíram que hackers a serviço do governo russo haviam entregue os emails ao WikiLeaks em uma tentativa de manipular a eleição americana.

Mas o WikiLeaks terminou conquistando a admiração de Trump, que àquela altura estava tomando o controle do Partido Republicano. Como apontou Aaron Blake, do The Washington Post, "Trump mencionou o WikiLeaks mais de 100 vezes só no último mês da campanha presidencial de 2016, de acordo com o site Factba.se. Em muitas dessas menções, ele expressou admiração pelo trabalho da organização. 'O material do WikiLeaks é incrível', ele disse certa vez. 'Rapaz, adoro ler o WikiLeaks', ele disse em outra ocasião. E, mais adiante, ele afirmou que 'nós amamos o WikiLeaks. Eles vazam mesmo! Revelaram muita coisa'".

Assange, que no passado falava em unir as maiorias do mundo contra a elite, terminou por soar e agir mais e mais como partidário de Trump. Ele deu uma entrevista a Sean Hannity no canal de notícias a cabo Fox News, aliado a Trump, na qual jurou aos eleitores que não estava trabalhando com o governo russo. Assange parecia estar dando a entender que um funcionário do Comitê Nacional Democrata que mais tarde seria assassinado em um assalto frustrado, Seth Rich, havia sido a fonte dos vazamentos que ele divulgou em 2016, o que alimentou teorias de conspiração da extrema direita, de que os democratas teriam ordenado o assassinato de Rich como represália.

Assange continuou a fascinar a mídia, mas os perfis sobre ele passaram a ser temperados pelas dúvidas quanto a suas motivações e por questões sobre seus supostos elos com o governo russo. "O WikiLeaks, uma organização supostamente dedicada à transparência, no mínimo aceita ajudar o líder mais agressivamente autoritário do planeta", afirmou o site Vox em 2017.

"Com o tempo, as pessoas perceberam que o comportamento e as motivações de Julian eram cada vez menos regidos por quaisquer princípios", disse o documentarista Gibney. "Quando Donald Trump invocou o seu nome na campanha —'amo o WikiLeaks'—, ficou claro para mim que a motivação dele [Assange] era birra e antipatia pessoal para com Hillary Clinton".

Assange nega isso. Sempre negou qualquer estratégia que não o desejo de expor aquilo que as pessoas mais poderosas do planeta menos desejam ver exposto. Mas boa parte do público que no passado acreditava nisso encarou sem muita contestação a captura de Assange em Londres na quinta-feira.

"Isso vai tirar o sorriso da cara dele", provocava uma manchete do jornal Daily Mail, que em 2012 enviou um repórter à embaixada para fazer um perfil do cotidiano de Assange.

E nos Estados Unidos, onde Assange conquistou celebridade inicialmente e para onde ele pode ser enviado em breve para um julgamento federal...

"Nada sei sobre o WikiLeaks", disse Trump a jornalistas., "Sei que tem algo a ver com Julian Assange... mas na verdade nada sei sobre ele". Ainda assim, a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês) e outras organizações de defesa dos direitos humanos defenderam o WikiLeaks desde o começo, e condenaram a detenção de Assange como ataque à liberdade de imprensa, disfarçado em justiça. "Como você pôde, Equador? Como você pode, Reino Unido?", tuitou retoricamente a atriz Pamela Anderson, que fez amizade com Assange durante a longa estadia dele na embaixada.

Ou seja, Julian Assange foi um herói amado em todo o mundo e um vilão caçado em todo o mundo, e agora será conhecido como prisioneiro, ao menos no futuro imediato. Gibney, que o estudou em todas essas versões, não se surpreenderia caso Assange encontre uma maneira de se transformar uma vez mais.

"Ele certamente está se posicionando como mártir da liberdade de imprensa", disse Gibney. "Teremos de ver se faz jus a essa descrição".

Tradução de Paulo Migliacci

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