Conheça as histórias de venezuelanos que migraram para o Brasil

Operação Acolhida levou mais de 5 mil pessoas para 67 cidades brasileiras

São Paulo , Manaus , Igarassu (PE) e Porto Alegre

A Operação Acolhida, criada pelo governo federal para lidar com o grande fluxo de imigrantes vindos da Venezuela que chegam a Roraima, levou mais de 5 mil venezuelanos para 67 cidades brasileiras no último ano (leia reportagem com um balanço de um ano do programa neste link).

Conheça as histórias de alguns deles.

Cadeirante que foi para SP na primeira leva continua sem trabalho

Flávia Mantovani

Até seus conterrâneos que estão no Brasil se surpreendem quando Victor Jesús Gonzales, 30, conta sua jornada até a fronteira. 

Foram três dias de ônibus para percorrer os 1.500 km que separam a cidade de Puerto Cabello, no norte da Venezuela, de Pacaraima, em Roraima. 

Com um desafio a mais: Victor não tem o movimento das pernas desde os 17 anos, quando sofreu uma lesão na coluna.

Ele veio para São Paulo na primeira viagem do programa de interiorização, em abril de 2018. Trocou as muletas que usava por cadeira de rodas.

Inicialmente, hospedou-se no CTA São Mateus, abrigo na periferia que recebeu a maior parte dos que chegaram pelo programa à capital paulista.

Diz que nunca foi encaminhado para uma entrevista de emprego pelo projeto de inserção laboral que existe lá.

Com a filha na Venezuela “dizendo que estava com fome”, conseguiu um trabalho de um mês em uma oficina de costura. A jornada ia das 7h às 22h, e ele dormia lá mesmo.

Quando acabou o período, não foi mais aceito no abrigo. Ele, que já havia dormido na rua em Roraima, viveu novamente a experiência em SP. 

Em nota, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social informou que ele foi encaminhado para outro abrigo, “tendo em vista a persistência na busca pela autonomia do convivente”.

De fato, ele está hoje em outro centro de acolhida da rede.

Na Venezuela, Victor era marinheiro e atendente em uma loja. Em Pacaraima, vendia suco na rua. Em SP, não consegue vagas para deficientes porque não tem um laudo médico que ateste sua condição. 

Por isso, também não tem direito a transporte público gratuito. “Preciso falar com o motorista e pedir. Sinto vergonha.”

Ele afirma que sua condição é tratável e espera fazer fisioterapia e voltar a caminhar. 

Apesar das dificuldades que tem enfrentado, o venezuelano adora o Brasil. “Gosto muito da cultura, das pessoas daqui. Espero trabalhar e realizar o sonho de andar de novo.”


Política, e não miséria, levou oposicionista a Manaus

 

Fabiano Maisonnave

Dirigente oposicionista, a advogada Yuretzi Idrogo, 36, é um dos poucos venezuelanos no Brasil por questões políticas —a ampla maioria cruzou a fronteira fugindo da miséria extrema.

“Fui obrigada a sair do país por assédio do governo Maduro”, diz Idrogo, que tem um mandato de suplente de deputada e cruzou a fronteira em 10 de outubro de 2018.

Ela não quer detalhar o que ocorreu em Puerto Ordaz, cidade a cerca de 600 km de Pacaraima (RR).

Depois de alguns dias em Boa Vista, ela decidiu se arriscar em Manaus, a 1.008 km da fronteira, onde mora em uma pensão simples com um primo.

Ao contrário de Roraima, os venezuelanos que chegam espontaneamente a Manaus não têm direito a participar da Operação Acolhida.

“Se existe, a Operação Acolhida está muito lenta”, diz Idrogo.

“A maioria dos venezuelanos que tenho encontrado chega por conta própria. Um ou outro é enviado a Santa Catarina ou a outros lugares.”

Na chegada a Manaus, ela trabalhou na administração de uma oficina mecânica. Em dezembro, foi contratada como vendedora em uma loja de roupas, na qual permaneceu até meados do mês passado.

“As pessoas na loja percebiam que eu falava inglês, espanhol, árabe e um pouco de português. Viam que era uma mulher educada, me abraçavam e me felicitavam”, lembra.

“Mas havia os que não queriam que eu atendesse porque sou venezuelana. Sofri xenofobia aqui também.”

Nas últimas semanas, passou a vender comida venezuelana. Por enquanto, cozinha dentro do quarto de pensão.

Como muitos venezuelanos no Norte do Brasil, a expectativa de Idrogo é ir para casa assim que possível.

 “90% falam que querem voltar para a Venezuela. Agradecemos ao Brasil por ter aberto as portas para nós, mas não queremos tomar o lugar de ninguém. Que os brasileiros vejam uma oportunidade para aprender espanhol, conhecer a comida venezuelana e crescermos juntos”.


Em PE, vendedor reclama de convivência com outros refugiados e arrisca ‘oxe’

 

João Valadares

Divis Maudis, 33, trabalhou por mais de 10 anos como motorista no departamento de Saneamento Ambiental da Venezuela.

No início de 2018, desistiu do país. O dinheiro que ganhava no trabalho não dava para alimentar a família. 

Junto da mulher e de cinco filhos, deixou a cidade de Bolívar, a 587 km de Caracas, em direção a Pacaraima. “Faltava tudo”, resume.

Há oito meses, mora ao lado de 35 famílias venezuelanas num condomínio de casas, em Igarassu, cidade com 110 mil habitantes na região metropolitana do Recife. 

O local é mantido por uma ONG e faz parte da rede de acolhimento do projeto de interiorização dos venezuelanos tocado pelo governo federal.

Divis ainda não arrumou emprego. Acorda às 2h para preparar os pães que vende a partir das 6h nas ruas de Igarassu.

Tentou um trabalho de cobrador de ônibus e outro numa empresa de limpeza e serviços gerais. Não conseguiu. “É muito difícil. Não completei a minha formação no colégio.”

Os cinco filhos estudam perto de casa em escolas públicas da região. A mulher recebe o benefício do programa social Bolsa-Família. 

Divis arrisca um “oxe” entre as frases. “Os meninos falam bem melhor”, brinca.

Reclama da convivência com as famílias venezuelanas. “É muito complicada. Cada uma tem uma visão política.”

O lazer das crianças é uma festa de rua que a prefeitura organiza uma vez por mês.

Com o filho mais velho, saiu andando um dia de Igarassu para conhecer a praia de Boa Viagem, na zona sul do Recife. 

São 40 km de distância. Andaram por mais de cinco horas, descansaram em frente ao mar e voltaram. “Não tínhamos dinheiro nem para o refrigerante.”

Voltar algum dia para a Venezuela? “Só para visitar”, diz.

A mãe e o padrasto de Divis devem chegar a Igarassu em maio. “Eles estão em São Paulo agora. A vida vai ficar melhor com ela aqui.”


No Sul, casal retoma vida em nova profissão depois de não revalidar diploma

 

Paula Sperb

Depois de sete horas de voo em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), mais de cem venezuelanos saídos de Boa Vista chegaram a Porto Alegre em 18 de dezembro de 2018. 

Entre eles, o casal Marieth Campos, 36, e Juan Francisco Nolasco Lanza, 52, e seus dois filhos.

“Trouxemos tudo que tínhamos: as roupas do corpo”, relembra Marieth. 

Três meses depois, a família atendida no programa de interiorização já deixou o abrigo onde foi acolhida, na instituição filantrópica Aldeias Infantil SOS, conveniada do governo federal. 

Agora, moram em uma casa cujo aluguel é pago por Lanza, com o salário do seu novo trabalho em uma metalúrgica.

A conquista da independência é o objetivo do programa, que auxilia as famílias a se integrarem à comunidade. 

Perto da nova residência, fica a escola pública onde o filho mais novo estuda.

“Ele foi muito bem recebido. Adora as aulas e a professora”, comemora a mãe.

O pai, mesmo contente com o trabalho que tem, de carteira assinada, lamenta não conseguir revalidar seus diplomas. 

Ex-policial que chegou a comandar um batalhão de 400 homens em Puerto La Cruz, ele é advogado com pós-graduação em direito penal. 

Ela, formada em gestão de recursos humanos, também não consegue a revalidação.

As repartições públicas venezuelanas não têm papel para os documentos e, quando têm, não querem colaborar com a saída de pessoas do país. 

“Temos casa própria, tínhamos trabalho. Mas não havia comida. Um frango custava o salário de um mês”, conta Marieth. “Queremos voltar, mas só quando a ditadura acabar”, diz Lanza.


Após dormir na rua, caraquenho vive redenção com trabalho no Centro-Oeste

 

Fabiano Maisonnave

Para o caraquenho Johan Sánchez, 32, Dourados (MS) significou a redenção.

Foram quatro meses dormindo em uma praça e outros quatro meses em um abrigo na saturada Boa Vista (RR) antes de embarcar para a cidade do Centro-Oeste, onde trabalha em um frigorífico de suínos.

Ex-carpinteiro de uma fábrica de móveis na Venezuela, Sánchez guarda más recordações do período em que viveu na capital roraimense, principal porta de entrada dos imigrantes venezuelanos no Brasil.

“Em Boa Vista, não havia trabalho e era muita gente. Foi forte, não nos tratavam bem nos últimos tempos, porque alguns venezuelanos andavam fazendo coisas erradas”, diz.

No dia 2 de fevereiro, Sánchez e outros 99 venezuelanos desembarcaram em Dourados (228 km ao sul de Campo Grande), cidade de 220 mil habitantes e com forte vocação agroindustrial.

A turma chegou em um voo fretado pela Operação Acolhida. Todos trabalham para a JBS, que já trouxe um novo grupo de 130 venezuelanos para Manaus, no final de março.

Trata-se do maior contingente a deixar Roraima rumo a outro estado com emprego já garantido.

A rotina de Sánchez é dura. O turno começa às 5h e termina às 14h30. A cada 1h esquartejando pernis, tem direito a um descanso de 10 min. Há o intervalo do almoço, de 1h. Trabalha ao lado de outros venezuelanos, de brasileiros e haitianos.

O ex-carpinteiro, no entanto, é só elogios. “

Gostei muito como nos receberam, a ajuda que nos deram, 100% melhor do que em Boa Vista. Nosso interesse é trabalhar e avançar, entende?”, afirma.

Sánchez mora em uma casa com outros sete venezuelanos.

No sábado (30), quando a reportagem conversou com ele, um cabeleireiro brasileiro da vizinhança estava cortando o cabelo de todos, gratuitamente. 

No curto prazo, a meta é economizar para trazer a sua mulher e duas filhas, de 1 e 3 anos, que continuam morando na Venezuela. “Até agora, tudo tem sido bom. A operação nos ajudou muito.” 

Flávia Mantovani, João Valadares , Paula Sperb e Fabiano Maisonnave

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