Dissidentes de guerrilhas da Colômbia fortalecem Maduro

Presença de ex-membros das Farc e do ELN na Venezuela servem de escudo a ditador

Nicolás Maduro (centro) durante comemoração do 17º aniversário do fracasso do golpe que tentou tirar Hugo Chávez do poder
Nicolás Maduro (centro) durante comemoração do 17º aniversário do fracasso do golpe que tentou tirar Hugo Chávez do poder acompanhado de sua mulher, Cilia Flores, e de militares venezuelanos - Yuri Cortez - 13.abr.2019/AFP
Sylvia Colombo
Buenos Aires

A presença cada vez mais numerosa de dissidentes da ex-guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e de combatentes do ELN (Exército de Libertação Nacional) em território venezuelano ameaça complicar ainda mais a relação turbulenta entre Colômbia e Venezuela, ao mesmo tempo em que serve de escudo para o ditador Nicolás Maduro.

Esse aumento vem sendo registrado por ONGs como a InSight Crime e a FundaRedes, e pelos serviços de inteligência colombianos. Estes estimam que já há 1.400 ex-guerrilheiros das Farc que não entraram no acordo de paz aprovado no final de 2016 e seguem na atividade criminosa —cerca de 800 deles estariam do lado venezuelano da fronteira. 

O ELN, cujo número de guerrilheiros vêm crescendo desde que o presidente colombiano, Iván Duque, cancelou as negociações de paz que estavam em andamento com o grupo, conta agora com cerca de 2.000 combatentes —metade estaria do lado venezuelano. 

Os números, porém, variam, uma vez que, na Venezuela, há acampamentos e campos de treinamento para organizar operações que, depois, são efetuadas na Colômbia.

 

Segundo o Ideam, um instituto ligado ao Sistema Nacional Ambiental colombiano, novas “trochas” têm sido criadas. Esses caminhos clandestinos atravessam a fronteira em locais inóspitos ou de florestas, longe dos centros de controle fronteiriço. A passagem clandestina de guerrilheiros de um país a outro se dá por essas vias.

“Colhemos informação das comunidades da região. Elas nos contam que são os guerrilheiros que estão abrindo mais ‘trochas’ e ampliando as que já existem”, afirma Ederson Cabrera, do Ideam.

Já outra ONG, Paz & Reconciliación, vem fazendo um levantamento de recrutamentos organizados pelos insurgentes na fronteira. Segundo a ONG, os que mais recrutam são os do ELN, prometendo aos que cruzam a fronteira falsos trabalhos ou locais para se hospedar e conseguir comida. 

De acordo com a FundaRedes, em 2018, 1.068 venezuelanos desapareceram tentando cruzar a divisa até a Colômbia. A ONG diz crer que muitos deles podem ter sido recrutados pelo ELN. 

Nos últimos meses, os alertas se intensificaram, porque os líderes Gentil Duarte (ex-Farc) e Gustavo Aníbal Giraldo, conhecido como ‘Pablito’ (ELN), foram localizados pelas Forças Armadas colombianas nos estados venezuelanos de Amazonas e de Apure. Ambos estariam controlando as ações de seus grupos a partir daí, onde estão escondidos e protegidos pelas autoridades venezuelanas.

Com o rompimento de relações que Maduro decretou com a Colômbia, não é possível mais pedir permissão ao governo venezuelano para buscar esses criminosos do outro lado da fronteira, muito menos pedir colaboração, como já ocorreu no passado.

“A presença de ambas as guerrilhas colombianas na Venezuela é antiga, remonta aos anos 1970, mas ganhou força durante a gestão de Hugo Chávez (1999-2013), que via nesses grupos afinidades ideológicas”, diz à Folha o cientista político Juan Gabriel Tokatlian. 

“Com Maduro, houve dois momentos. Um em que, na tentativa de ter a Colômbia como amiga diplomática, Maduro ajudou Juan Manuel Santos nas negociações do acordo de paz com as Farc. Agora que se vê acuado, Maduro considera essas forças acampadas em território venezuelano um escudo contra uma possível ameaça internacional.” 

A Farc (Força Alternativa Revolucionária do Comum), hoje um partido político com dez cadeiras no Congresso, renega seus dissidentes. Um de seus líderes, Iván Márquez, afirmou que eles estariam proibidos de usar o nome Farc, pois a ex-guerrilha agora usa a sigla para identificar o partido político.

Os homens a mando de Gentil Duarte estão mais focados em manter as antigas rotas de narcotráfico do qual a guerrilha se alimentou por muitos anos. 

Conhecido por ter muitos contatos, Duarte tem dialogado com o cartel mexicano de Sinaloa, que leva a droga da Colômbia até os EUA, e com grupos de crime organizado brasileiros, equatorianos e peruanos. 

Já o ELN, com presença em 12 dos 24 Estados da Venezuela, realiza ações de apoio mais direto à ditadura de Maduro, ajudando, por exemplo, na distribuição de cestas básicas e de outros benefícios do governo à populaçao. 

“O poder deles é enorme. Estão na mineração ilegal, recrutam venezuelanos que tentam fugir do país, controlam os moradores pelo uso da força”, afirma a líder opositora venezuelana María Corina Machado.
Tanto nos acampamentos do ELN quanto nos da ex-Farc na Venezuela foram reportadas a presença de oficiais da Guarda Nacional Bolivariana e do Sebin (serviço de inteligência venezuelano), que vai a esses lugares para receber treinamento das duas guerrilhas mais experientes da América Latina.

“Aprendem as técnicas, depois usam contra o povo venezuelano. Nós registramos agentes da Força de Ações Especiais da Venezuela nos campos da guerrilha”, afirma Javier Tarazona, da FundaRedes.

Para Tokatlian, “a presença da insurgência dá a Maduro uma segurança de que a Colômbia não avançaria tão facilmente sobre seu território”. 

“[O presidente colombiano] Iván Duque cometeu muitos erros para não merecer mais a confiança dos ex-guerrilheiros das Farc e do ELN ao querer limitar a Justiça Especial aos primeiros, e ao interromper o diálogo com o segundo. A situação ficou mais grave devido às suas decisões políticas equivocadas”, diz Tokatlian.

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