Descrição de chapéu Brexit

Entenda os vaivéns e conheça os personagens do brexit

Saída do Reino Unido da União Europeia se arrasta com série de impasses

Theresa May deixa entrevista em reunião com líderes da União Europeia em Bruxelas, em março 
Theresa May deixa entrevista em reunião com líderes da União Europeia em Bruxelas, em março  - Yves Herman - 22.mar.19/Reuters
 
Paris, São Paulo e Londres

Repetidos impasses entre o governo da primeira-ministra Theresa May e o Parlamento têm levado a saída do Reino Unido da União Europeia a uma indefinição que parece eterna

Nesta quarta-feira (3), a primeira reunião convocada por May com o líder da oposição, Jeremy Corbyn, para debater os próximos passos do brexit terminou de maneira inconclusiva. Mas os dois lados confirmaram que as conversas vão continuar.

Horas mais tarde, o Parlamento aprovou por uma margem de apenas um voto (313 a 312) medida que impede o Reino Unido de deixar o bloco sem um acordo —o “no deal”— e determina que a primeira-ministra peça à UE um novo adiamento da saída. 

No entanto, os próprios parlamentares rejeitaram na segunda (1º), pela segunda vez em cinco dias, todas as alternativas ao acordo de separação de May —ele mesmo já rechaçado três vezes.

Ao sair da reunião em que deveriam elaborar uma proposta conjunta que consiga maioria de votos, Corbyn afirmou que os dois lados ainda estão distantes de um acordo. “Foi útil, mas não houve tantos avanços.”

Um porta-voz de May classificou o encontro de construtivo. Os líderes voltam a se encontrar nesta quinta (4).

O limite para o acordo é 12 de abril, mas Londres tenta revê-lo. Para a saída da UE, o Dia D é 22 de maio. May não definiu um prazo para concluir as negociações. 


​Protagonistas do brexit

David Cameron, o fujão
O primeiro-ministro que bancou a realização de um plebiscito sobre a saída britânica da Europa renunciou no dia seguinte à consulta, estupefato com a vitória do “leave”.

Boris Johnson, o reticente
O ex-prefeito de Londres foi um dos pontas de lança da campanha pelo adeus à UE, mas, contrariando expectativas, declinou da disputa pela liderança do Partido Conservador após a saída de Cameron. Dois anos depois, renunciou ao posto de chanceler por discordar da condução do brexit por May. Agora, é dos mais ávidos por sucedê-la.

Theresa May, ou “Maybe”
Ex-ministra do Interior, a chefe de governo é criticada pela incapacidade de decidir e por ter cedido demais à agenda da ala mais radical de seu partido, que deseja uma ruptura nítida com a Europa. Sua cota está tão baixa que, mesmo tendo anunciado que deixaria o cargo tão logo o acordo de “divórcio” fosse aprovado, não conseguiu convencer os deputados a ratificá-lo.

Jeremy Corbyn, o indeciso
O líder da oposição é pressionado há meses por correligionários a declarar apoio a um novo plebiscito, como definido na convenção de seu Partido Trabalhista. Porém, sustenta que uma reedição da votação de 2016 seria uma traição à vontade popular expressa três anos atrás

Jean-Claude Juncker e Donald Tusk, os exasperados
São, respectivamente, os presidentes da Comissão Europeia (braço executivo da UE) e do Conselho Europeu (colegiado de chefes de Estado e de governo do bloco). Estão na linha de frente das conversas com Londres. O primeiro disse dias atrás que a paciência da UE está se esgotando. Já Tusk causou celeuma ao afirmar, em fevereiro, que havia um “lugar especial no inferno” para os entusiastas do brexit que não tinham nem ideia de como concretizar a retirada britânica

 

Relembre os episódios-chave do brexit

Jan.2013
O então primeiro-ministro David Cameron anuncia a intenção de convocar uma consulta popular sobre a filiação do Reino Unido à União Europeia, ocorrida em janeiro de 1973. É um aceno à ala do Partido Conservador que deseja a separação —o líder está convicto de que o apoio à ideia é minoritário
 
Jun.2016
No plebiscito, o “leave” (sair) surpreende e consegue 52% dos votos, contra 48% do “remain” (permanecer). Cameron, que fizera campanha pela segunda opção, renuncia no dia seguinte à votação
 
Jul.2016
Até então ministra do Interior, a “remainer” moderada Theresa May ascende à liderança conservadora e, por extensão, ao cargo de primeira-ministra
 
Mar.2017
May aciona o artigo 50 do Tratado de Lisboa, que rege o desligamento de países-membros da UE. Inicia-se a contagem regressiva de dois anos para o Dia D do brexit
 
Jun.2017
Depois de convocar eleições antecipadas com o intuito de ampliar sua maioria no Parlamento e se fortalecer na negociação do brexit, a premiê leva uma rasteira: sua base diminui, e ela passa a depender do Partido Unionista Democrático, pequena legenda norte-irlandesa, mas ruidosamente anti-UE
 
Jul.2018
O primeiro plano de May para a saída do bloco é considerado dócil demais por vários de seus ministros, que abandonam o governo
 
Nov.2018
A líder conservadora anuncia ter chegado a um acordo com os europeus. No fim do mês, presidentes e primeiros-ministros do continente aprovam o pacto de saída
 
Dez.2018
Diante de uma derrota iminente no Parlamento, o Executivo retira abruptamente o acordo da pauta. Dois dias depois, May sobrevive a uma moção de desconfiança em seu próprio partido
 
Jan.2019
No maior revés para um governo britânico na era moderna, os deputados rejeitam o projeto por uma diferença de 230 votos. O Partido Trabalhista, principal força de oposição, vê uma oportunidade para derrubar May e, quiçá, forçar uma eleição geral, mas os conservadores brecam o movimento
 
Mar.2019
Sem conseguir arrancar da UE mudanças significativas no acordo, a premiê o submete novamente à Câmara dos Comuns. 
A derrota desta vez é por 149 votos. Em 29 de março, o Dia D, uma terceira consulta termina em novo revés, agora por uma diferença de 59 votos

Abr.2019
Depois de falhar em cumprir a condição fixada pelo bloco para um adiamento da saída até 22 de maio —aprovar o acordo no Parlamento até 29 de março—, May se vê diante do risco de um rompimento a seco, sem acordo e sem transição, em 12 de abril. Ela anuncia que pedirá à UE nova extensão

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