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The New York Times

Futuro da Cisjordânia está em jogo em pleito israelense

O atual premiê, Binyamin Netanyahu, prometeu anexar partes da região caso vença

Homem passa por pôster de campanha do atual primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, em Jerusalém
Homem passa por pôster de campanha do atual primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, em Jerusalém - Muammar Awad/Xinhua
David M. Halbfinger
Jerusalém | The New York Times

Quando forem às urnas nesta terça (8), os israelenses serão confrontados por uma escolha fatídica que reapareceu após a promessa inesperada do premiê Binyamin Netanyahu de estender a soberania sobre a Cisjordânia se for reeleito.

Os eleitores querem tornar permanente o controle do país sobre a Cisjordânia e seus 2,6 milhões de habitantes palestinos? Ou querem manter viva a possibilidade de que um Estado palestino possa um dia ser forjado?

Essas questões se tornaram urgentes por Netanyahu, que vê sua carreira política ameaçada por um partido centrista liderado por ex-chefes militares.

Seu anúncio parece ser um esforço de última hora para obter os votos da base direitista e se manter no poder. 

Para os pró-anexação, não é apenas a votação desta semana que está em mente, mas as eleições americanas de 2020: eles chamam o apoio do presidente Donald Trump a Israel de “oportunidade histórica” para seguir adiante com a anexação de parte ou até mesmo de toda a Cisjordânia. 

Para apoiadores dos dois Estados, um impulso por soberania quase certamente levaria a um pesadelo de um tipo ou de outro para Israel, como um aumento de violência e condenação internacional. 

O aumento dos assentamentos judaicos em terra palestina é frequentemente chamado de “anexação silenciosa”. Até agora ocorreu de maneira devagar e fragmentada o bastante para assegurar os defensores da solução de dois Estados de que esses passos podem ser desfeitos ou resolvidos em negociações futuras.

Já aplicar a soberania seria algo irreversível e romperia o entendimento de 25 anos de que o status quo entre Israel e os palestinos não deve ser alterado a não ser por meio de negociações. 

Por anos, Netanyahu se posicionou entre os dois lados do debate, colocando-se à direita dos apoiadores da solução de dois Estados e à esquerda daqueles que querem anexar a Cisjordânia e ver o sonho sionista de um Estado judeu do rio Jordão ao Mediterrâneo. 

Estes já foram marginalizados como parte da direita. Mas com menos de metade dos israelenses ainda apoiando a solução de dois Estados, o campo da paz é que está agora fora de compasso com a sociedade. Um movimento de soberania que vem crescendo, chamado Ribonut em hebraico, conquistou não só aceitação política como boa parte da poderosa direita israelense. 

Nada menos do que 60 projetos de lei propondo alguma forma de anexação foram apresentados para debate no Parlamento desde 2015, segundo o grupo de direitos humanos Yesh Din.

“O apoio a uma declaração de soberania israelense sobre parte ou toda a Judeia e Samaria se tornou o teste decisivo para os líderes da direita”, afirmou o vice-ministro Michael B. Oren, usando os nomes bíblicos para a Cisjordânia. 

Para o Robonut, quanto mais Israel se aproximou da solução de dois Estados, “mais mortes e derramamento de sangue isso nos trouxe”.

Poucos israelenses levaram Netanyahu a sério em sua declaração. Em 2015, ele arregimentou sua base alimentando o medo de que um alto comparecimento de árabes-israelenses entregaria o governo à esquerda. Desta vez, muitos veem uma tentativa de fazer com a direita o ajude. 

“É Bibi sendo Bibi”, disse o ex-embaixador dos EUA em Israel Daniel C. Kurtzer.

Michael Koplow, analista do Israel Policy Forum, lembrou o discurso do premiê em 2009 em que, sob pressão do presidente Barack Obama, declarou apoio à solução de dois Estados. Agora, diz Koplow, a direita irá pressioná-lo por sua promessa televisionada. 

O premiê também está mais enfraquecido que há dez anos, sob risco de um indiciamento por corrupção que pode tirá-lo do poder. Espera-se que, se reeleito, ele tente formar uma coalizão que aprove legislação retroativa impedindo um premiê de ser processado. 

Para Daniel B. Shapiro, ex-embaixador dos EUA em Israel, isso poderia ser uma moeda de troca: um cartão de liberdade da prisão por passos concretos para uma anexação.

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