Macri falhou na economia argentina por arrogância e desconhecimento, diz pré-candidato peronista

Na campanha presidencial, Sergio Massa terá desafio de se mostrar afastado do atual presidente e de Cristina Kirchner

Sylvia Colombo
Buenos Aires

O peronista de centro-direita Sergio Massa, 46, fez duras críticas ao presidente Mauricio Macri na quarta-feira (16) na apresentação de sua pré-candidatura às eleições de outubro para jornalistas estrangeiros.

​"Quando você é aplaudido muito fora de seu país e estão muito descontentes com você dentro dele, é porque você está fazendo algo muito errado. Primeiro, o presidente tem que pensar nos argentinos. Se depois o aplaudem fora, tudo bem, mas é secundário."

Para Massa, que ficou em terceiro lugar nas eleições de 2015, Macri falhou no cargo. "Não foi capaz de controlar a inflação, de controlar o dólar e a economia em geral, não teve programa econômico e, com isso, aumentou nossa dívida, nosso desemprego e a nossa inflação."

E acrescentou que isso ocorreu "em parte por sua arrogância, em parte pelo desconhecimento da realidade argentina".

O pré-candidato à Presidência Sergio Massa durante entrevista coletiva com jornalistas estrangeiros em Buenos Aires
O pré-candidato à Presidência Sergio Massa durante entrevista coletiva com jornalistas estrangeiros em Buenos Aires - Juan Mabromata/AFP

Não deixa de soar um pouco contraditório porque, em 2015, o discurso de campanha de Massa era muito mais afinado ao de Macri do que com o do peronismo.

Ao final, apesar de não ter declarado apoio aberto, sinalizou que preferia Macri ao candidato do kirchnerismo, Daniel Scioli, o que fez com que muito dos eleitores de Massa acabassem votando no atual presidente.

Mais: durante o primeiro ano da gestão macrista, Massa se mostrou próximo ao atual presidente, fazendo inclusive viagens junto a ele.

Na campanha deste ano, terá o duplo desafio de se mostrar afastado do atual presidente e também da ex-presidente Cristina Kirchner, que também estará na disputa. Massa foi chefe de gabinete de seu primeiro mandato.

"Faz nove anos que não falo com ela e não conheço seu programa", afirma. "Além disso, quem apresentou o projeto que freou a possibilidade de que Cristina mudasse a Constituição para se reeleger pela terceira vez fui eu", lembra.

Por outro lado, defende uma oposição unida. "Não deveríamos apresentar várias candidaturas em outubro porque o objetivo tem de ser derrotar Macri. Então as pessoas têm de eleger um candidato capaz de vencê-lo no segundo turno", afirmou, referindo-se ao fato de que, apesar de Cristina liderar em algumas pesquisas, as sondagens para o segundo turno dão vitória para o atual presidente, que disputará a reeleição.

Do ponto de vista da economia, que ele vê como o problema argentino mais grave hoje, com alta inflação e aumento do desemprego e da pobreza, Massa diz que tem três soluções.

A primeira seria renegociar o acordo feito com o FMI (Fundo Monetário Internacional), que liberou uma linha de crédito para o país de US$ 57 bilhões em 2018.

"É um acordo injusto, que dá o crédito a este governo, mas é o seguinte quem terá de pagar a dívida. Eu renegociaria de modo a ganhar mais tempo e com normas mais razoáveis para o pagamento."

Em segundo lugar, diz que é necessária uma reforma tributária "que seja mais justa em matéria patrimonial". "Hoje quem mais colabora com impostos são os que menos têm, e deveria ser o contrário." 

Por fim, disse que é necessário reformar o sistema de crédito a quem investe no país, para que os produtos sejam mais competitivos no exterior.

Massa defendeu um Mercosul forte e criticou as propostas de flexibilização do bloco sugeridas por Macri e pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

"Não há nada mais importante que o Mercosul para os dois países. Argentina e Brasil têm de andar de mãos dadas e se relacionar, com o bloco, com o resto da América, Europa e China."

Com tantos candidatos peronistas nessa pré-disputa —além de Massa, o governador de Salta, Juan Manuel Urtubey, o líder do Senado, Miguel Pichetto, e, provavelmente, o ex-ministro da economia de Néstor Kirchner, Roberto Lavagna—, ele defende um peronismo "com o Estado presente".

Para ele, "o peronismo pressupõe que o cidadão argentino espera do Estado que este assuma responsabilidades para corrigir as assimetrias, a desigualdade entre classes e entre as regiões do país. Isso para mim é o peronismo. Um Estado atuante e próximo dos argentinos."

Indagado pela Folha sobre a lei do aborto, que no ano passado foi aprovada na Câmara dos Deputados, mas derrotada no Senado, Massa disse que antes de mais nada é necessário despenalizar o recurso.

"Mandar uma mulher que aborta à prisão, como está em nosso atual Código Penal, é uma coisa arcaica."

Perguntado, porém, se era a favor da legislação que permitia a interrupção da gravidez até a 14ª semana, foi mais evasivo. "A questão não é aborto sim ou aborto não. Creio que a mulher deve decidir, mas que existam marcos legais justos para que, no caso em que tenha que abortar, isso não seja um trauma para o resto de sua vida."

Massa disputará as primárias, em agosto, junto a outros peronistas —exceto Cristina Kirchner, pois esta concorreria sozinha. Do outro lado, estará o presidente Mauricio Macri.

Na maioria das pesquisas de intenção de voto, Cristina e Macri aparecem na liderança com cerca de 30%. Num cenário com Massa na disputa, este teria por volta de 14%, mais do que nos cenários com Urtubey e Lavagna.

As eleições ocorrem no dia 27 de outubro, com segundo turno em novembro.

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