Macron anuncia corte de impostos em resposta a 'coletes amarelos'

Presidente francês também divulgou mudanças no sistema de aposentadoria

São Paulo e Paris | Reuters

O presidente francês, Emmanuel Macron, apresentou nesta quinta (25), no palácio do Elysée, sede do governo da França, uma série de medidas que serão tomadas em resposta aos protestos dos "coletes amarelos" que ocupam as ruas do país há 23 sábados.

Macron anunciou a diminuição de impostos mas, por outro lado, disse que os franceses terão de trabalhar mais anos. Trata-se de colocar "o humano e a justiça no coração do projeto nacional", afirmou, na primeira coletiva de imprensa de seu mandato —ele assumiu a Presidência há quase dois anos.

O presidente de 41 anos falou em uma "diminuição significativa" nos impostos que recaem sobre os salários. Os cortes valem cerca de 5 bilhões de euros, disse ele. A diminuição da arrecadação será financiada com o fechamento de brechas fiscais que beneficiam algumas empresas, com o aperto nos gastos do governo e fazendo os franceses trabalharem mais.

"Nós devemos trabalhar mais, já o disse antes. A França trabalha muito menos do que seus vizinhos. Precisamos ter um debate sério sobre isso."

No entanto, ele descartou impor jornadas de trabalho semanais mais longas —atualmente, a legislação determina 35 horas por semana— ou extinguir feriados bancários. 

O presidente francês Emmanuel Macron fala em conferência com a imprensa no palácio do Elysée, em Paris, para apresentar medidas em resposta aos protestos dos coletes amarelos - REUTERS

​Macron divulgou ainda mudanças no sistema de aposentadorias, a serem apresentadas para os ministérios durante o verão europeu. O governo planeja indexar o aumento das menores pensões à inflação, em um esforço para socorrer quem ganha menos.

No mais, Macron se colocou contra estender a idade mínima para aposentadoria, atualmente em 62 anos, mas disse que encorajará os franceses a trabalharem mais, já que a expectativa de vida do país aumentou nas últimas décadas.

Com os manifestantes dos "coletes amarelos" frequentemente criticando o elitismo do establishment político, Macron disse que quer envolver os cidadãos do país no processo democrático, facilitando a realização de referendos sobre algumas questões.

Mudanças para descentralizarem o governo, rompendo com o "dirigismo" pelo qual boa parte das decisões são tomadas em Paris, devem acontecer no período de um ano. Uma destas mudanças é que hospitais e escolas não serão mais fechados sem o apoio de prefeituras locais até 2022.

O presidente francês disse ainda que desentendimentos com a chanceler alemã, Angela Merkel, sobre o Brexit são necessários, e que tal "confrontação frutífera" é às vezes importante para se construir um compromisso entre os dois países. "Sobre o Brexit, não estamos exatamente na mesma página. Em políticas relativas ao clima e à energia, não estamos exatamente na mesma página."

Por fim, disse que a Escola Nacional de Administração, instituição de elite que treina líderes corporativos e políticos franceses, deve ser fechada. Localizada em Estrasburgo, é uma das mais prestigiosas universidades do país e tornou-se símbolo de iniquidade e de elitismo. Fundada em 1945, já teve entre seus alunos os ex-presidentes Jacques Chirac e François Hollande e o próprio Macron. 

O encontro com a imprensa aconteceu no Salão de Festas do palácio do Elysée, em Paris. Mais de 300 jornalistas estavam registrados para o evento, inicialmente marcado para a segunda (15) da semana passada, mas adiado em função do incêndio na catedral de Notre-Dame

As medidas anunciadas nesta quinta (25) são o resultado de três meses de contribuições de cidadãos de todo o país em assembleias, estandes de coletas de ideias e fóruns virtuais. Denominado "o grande debate", durante o período Macron viajou pelo país tratando de questões como altos impostos e democracia local com grupos de cidadãos em diversas cidades. 

O presidente francês, Emmanuel Macron, em coletiva de imprensa em Paris - REUTERS
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