Maior sigla da direita espanhola flerta com conservadorismo radical

Partido Popular se repagina para atrair votos antes da eleição de domingo (28)

Pablo Casado discursa durante evento de campanha em Granada
O novo líder do Partido Popular e candidato a primeiro-ministro, Pablo Casado, discursa durante evento de campanha em Granada - Jorge Guerrero/AFP
Lucas Neves
Madri

O Partido Popular (PP), maior força da política espanhola no campo conservador, anda de pele nova.

Acossado em seu terreno pelo Cidadãos (que se diz de centro) e pelo neófito Vox (ultradireita), recalibrou o discurso e retocou a imagem para se vender como “a” sigla de direita nas eleições gerais do próximo domingo (28).

No processo, a ala moderada do partido —ligada ao ex-primeiro-ministro Mariano Rajoy, destituído após a aprovação de uma moção de desconfiança, em junho de 2018— foi escanteada.

Ato contínuo, uma legião de ex-ministros do gabinete dele e de deputados do PP pediu as contas da política para buscar guarida na iniciativa privada.

Para repor as baixas, o novo líder da legenda e candidato a premiê no domingo, Pablo Casado, escalou um elenco sui generis.

Lá estão, entre outros, Adolfo Suárez Illana, filho do primeiro-ministro que encabeçou a redemocratização pós-Franco (no poder de 1976 a 1981), mas de perfil bem distante do centrismo conciliador do pai; e a marquesa e jornalista Cayetana Álvarez de Toledo, crítica contumaz de Rajoy.

Pedro Sanchez (à esquerda) faz seu juramento de posse ao lado do rei da Espanha, Felipe 6º, e do até então primeiro-ministro Mariano Rajoy (à direita)
Pedro Sánchez (à esquerda) faz seu juramento de posse ao lado do rei da Espanha, Felipe 6º, e do até então primeiro-ministro Mariano Rajoy (à direita) - Fernando Alvarado/AFP

Integram ainda a esquadra o toureiro Miguel Abellán e o pastor evangélico Juan José Cortés, que se tornou conhecido depois de sua filha ser assassinada por um pedófilo, nos anos 2000.

Todos buscam vagas no Congresso ou nos parlamentos locais, sob a batuta de Casado, que, em nove meses de liderança partidária, coleciona mais aparições midiáticas do que Rajoy em quase sete anos na chefia do governo espanhol —e 14 como número um do PP.

A mudança de casting se refletiu na retórica da sigla. O tom em relação ao pleito separatista da Catalunha endureceu (mesmo que Rajoy nunca tivesse se mostrado receptivo aos independentistas).

Em paralelo, os candidatos não hesitaram em mergulhar no baú reacionário de temas ligados a costumes, como o aborto —legalizado no país há quase dez anos— e a definição de sexo consensual.

O programa do partido cristaliza essa revisão de embocadura, ao prever medidas de fortalecimento do poder do Executivo federal, tirando prerrogativas das comunidades autônomas, e de estímulo à educação cívica nas escolas do país.

Não há menção, na cartilha, a iniciativas de combate à corrupção. 

Rajoy caiu dez meses atrás na esteira de um escândalo envolvendo o financiamento ilegal da atividade do PP com propinas acopladas a contratos públicos.

Andrés Santana, professor de ciência política da Universidade Autônoma de Madri, vê nuances na repaginação do antagonista do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), hoje no poder.

Para ele, mudanças no entourage da cúpula partidária são comuns, ainda mais quando se passa do governo para a oposição, como ocorreu com o PP.

O pesquisador reconhece, porém, que a ênfase atual da sigla na pauta de costumes é um aceno ao eleitor que pode ter migrado para o conservadorismo sem concessões do Vox.

“Mas isso não nos permite dizer que o PP deslocou completamente seu eixo para a extrema direita”, sublinha.

“Na questão territorial [do tratamento a dar ao movimento separatista], por exemplo, a defesa de uma abordagem dura é comum a toda a direita, inclusive ao Cidadãos [fundado justamente na Catalunha].”

É nesse flanco da firmeza diante dos anseios secessionistas de parte dos catalães que Pablo Casado e seus homólogos no Vox (Santiago Abascal) e no Cidadãos (Albert Rivera) apostam para minar um possível segundo mandato do socialista Pedro Sánchez.

O premiê se viu forçado a antecipar as eleições gerais ao ter sua proposta de orçamento para 2019 derrubada no Congresso, com a ajuda de partidos separatistas —insatisfeitos com o andamento das conversas com o governo sobre o status das comunidades autônomas.

Os mesmos grupos haviam se aliado a Sánchez em junho passado para defenestrar Rajoy.
“Quando o debate eleitoral na Espanha se concentra na questão territorial, a direita tende a crescer”, diz Santana. 

“Acontece que, desta vez, os socialistas têm conseguido se mostrar ponderados, a favor de um pacto mas também assertivos em relação a algumas ‘linhas vermelhas’, como as de que não haverá indulto aos líderes separatistas que organizaram o referendo ilegal [na Catalunha, em 2017] nem outra consulta popular [com autorização de Madri].”

Assim, o PSOE surgiu nas últimas pesquisas com cerca de 30% das intenções de voto, bem à frente do PP, que oscila entre 17% e 20% —e, a se confirmarem os números no dia da votação, poderia ver sua bancada encolher quase 50% (na eleição de 2016, conquistou 137 assentos).

O fato é que ambos devem ficar longe do “número mágico” para governar sozinhos: 176 cadeiras no Congresso.

Se for dada ao PP a missão de formar o futuro governo, o déficit aritmético pode significar ter de abraçar com mais convicção a pauta radical do Vox.

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