Descrição de chapéu BBC News Brasil

O que faz a economia do Peru crescer forte mesmo após escândalo Odebrecht arrastar 4 ex-presidentes

Alan García, um dos ex-mandatários investigados pela Lava Jato, cometeu suicídio; no ano passado, país cresceu 4%, mantendo trajetória de expansão

garcía faz sinal de vitória
O ex-presidente do Peru Alan García, morto nesta quarta (17), no dia de sua segunda vitória eleitoral à Presidência, em 2006 - Ivan Alvarado - 4.jun.2006/Reuters
marcia carmo
Buenos Aires | BBC News Brasil

Em um cenário bem diferente do visto no Brasil, as acusações de corrupção surgidas da operação Lava Jato no Peru não parecem ter afetado de forma contundente a economia do país —uma das que mais crescem na América Latina.

Na quarta-feira (17), desdobramentos da operação em território peruano tiveram um momento marcante com o suicídio do ex-presidente Alan García, quando a polícia tentava prendê-lo. Ele era acusado de receber propina da empreiteira Odebrecht durante seu segundo mandato, entre 2006 e 2011 —o que García negava.

No entanto, mesmo com as complicações políticas trazidas pela Lava Jato desde o início de 2017, quando ela se expandiu para países vizinhos —e que levaram a acusações de corrupção contra quatro ex-presidentes do país—, no ano passado, a economia cresceu 4%, segundo o Banco Central local.

Para 2019, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima uma expansão de 3,9%, ficando atrás —na América Latina— só da Bolívia, seu vizinho, com crescimento estimado de 4%..

Já a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) prevê um crescimento de 3,6% neste ano. De qualquer forma, o índice é muito acima do 1,3% previsto para a região e do tímido 1,8% estimado para o Brasil.

Os números mostram que a economia peruana não saiu dos trilhos, mesmo com seus últimos quatro ex-presidentes envolvidos em ramificações locais dos escândalos envolvendo obras públicas, campanhas políticas e propinas que ocorreram no Brasil.

vias no peru
Um dos problemas que permanecem no Peru é a falta de infraestrutura, dizem entrevistados - Getty Images

Além de Alan García (1949-2019), que governou o país duas vezes (1985-1990, 2006-2011), os ex-presidentes Alejandro Toledo (2001-2006), Ollanta Humala (2011-2016) e Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018) respondem judicialmente a processos decorrentes das investigações da Lava Jato.

Uma das principais líderes da oposição, Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, também foi acusada de receber irregularmente dinheiro da Odebrecht para suas campanhas políticas.

Nesse cenário conturbado, no ano passado a economia peruana completou 20 anos consecutivos de crescimento e estabilidade, como observaram analistas e fontes do governo ouvidos pela BBC News Brasil. Ou seja, a queda do ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski, que foi substituído, no ano passado, pelo seu vice, Martín Vizcarra, também não teve impacto significativo sobre a saúde da economia.

Entrevistados apontaram como uma das razões para a trajetória ininterrupta de crescimento o fato de Toledo, García, Humala e Kuczynski terem mantido os principais pilares econômicos do país: abertura do mercado, ambiente de previsibilidade para investimentos estrangeiros, livre comércio, inflação e gastos baixos.

Outra chave para a estabilidade estaria no comércio exterior. País com cerca de 32 milhões de habitantes e Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de US$ 211 bilhões, segundo dados oficiais, o Peru diversificou sua lista de exportações nos últimos anos.

Além do seu histórico setor da mineração, passou a exportar ouro, incrementado por empresas chinesas instaladas em seu território, e produtos do ramo agroindustrial —o Peru é hoje um dos maiores exportadores mundiais de abacate, aspargos e uvas.

"Há quem diga que o problema é que estamos dependentes demais do mercado asiático, para onde são enviadas 47% das exportações do país. Sendo que somente cerca de 30% deste total vão para a China. Mas também é verdade que, nestes 20 anos, passamos a exportar para outros mercados como o europeu, por exemplo. A economia peruana ganhou diversidade nesses anos de estabilidade", explicou o economista Carlos Aquino, da Universidade de San Marcos, de Lima.

Segundo ele, ao contrário da Venezuela, que depende do petróleo, e do México, que se apoia nos EUA para suas exportações, a economia peruana diversificou sua produção e mercados.

Outro setor que cresceu bastante foi o do turismo.

Infraestrutura

Mas Aquino acredita que houve impacto, sim, da Lava Jato sobre os rumos da economia do país.

"Se não fosse a Lava Jato, poderíamos estar crescendo em torno de 6% e não 4%", disse ele.

Ele observou que o setor de obras públicas não está entre as principais atividades do país, mas que não deixa de ser um motor para o crescimento.

"O setor de obras públicas não chega sequer a 3% do PIB peruano e este é um dos motivos para que a economia continue crescendo, mesmo que menos do que poderia alcançar se não fosse [a Lava Jato]."

Uma fonte do governo observou que as obras afetadas pela operação seriam fundamentais para melhorar a fraca infraestrutura do país. "Com mais estradas e portos, o país poderia ampliar suas exportações", observou.

Mas o analista político Alfredo Torres, diretor do Instituto Ipsos de Peru, disse à BBC News Brasil acreditar que "foram feitas obras que não era prioridade".

"Foram gerados empregos, mas em estradas pouco usadas, por exemplo. Agora, com as investigações, algumas obras foram paralisadas e o processo de licitações ficou mais complexo, o que estancou o investimento público e as associações público-privadas na área de infraestrutura."

Para ele, "naturalmente" este freio tem consequência econômica e social. Ele explica: "um ponto a menos no PIB, como resultado deste freio nas obras públicas, significa menos emprego e menor arrecadação fiscal para programas sociais, por exemplo".

Informalidade

Apesar do crescimento, o Peru enfrenta problemas profundos, que vão além da falta de infraestrutura, como altos índices de pobreza e de informalidade, apesar do ambiente propício para investimentos e as taxas baixas de inflação e de juros.

Em 2004, o índice de pobreza era de 58,7% no país, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística e Informática (Inei). No ano passado, este índice era de 21,7% —muito mais baixo que em 2004, mas acima dos 20,7% de 2016, o que gerou preocupação em setores públicos do país.

Outro desafio permanente para os peruanos é o mercado de trabalho informal. Em 2004, a informalidade chegava a 80%. No ano passado, estava em 65%, ainda de acordo com dados oficiais.

"A informalidade vinha caindo todos os anos desde 2004. A má notícia é que parou de cair em 2018", disse ao jornal El Comercio, de Lima, o economista Elmer Cuba, da consultoria Macroconsult.

A economia peruana conta com inflação baixa (cerca de 2% anual) e o câmbio tem histórico recente de pouca variação.

Obras da Odebrecht no Peru

Entre as obras da Odebrecht citadas em casos de corrupção no Peru está a rodovia Interoceânica Sul, que liga o país ao Brasil e foi concluída em 2010.

O presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, revelou ter pago propinas para conseguir os contratos deste projeto durante o governo do ex-presidente Toledo, segundo a imprensa local. Toledo mora nos Estados Unidos, e em maio do ano passado o Peru apresentou aos EUA um pedido de extradição do ex-presidente.

Além da Interoceânica e do metrô de Lima, cujas acusações envolviam o ex-presidente Alan García, a Odebrecht tem "em torno de 20 obras públicas em todo o país", segundo fontes do governo peruano. A lista inclui o gasoduto de Casemira e o porto petroquímico, obras que ficaram congeladas depois do início das investigações contra a empresa.

Procurada, a Odebrecht não respondeu aos contatos da reportagem para esclarecer que obras possui no país e quais estariam paralisadas ou foram modificadas após as investigações.

Fontes do governo disseram à BBC News Brasil que a empresa "vem colocando freio" nos seus investimentos no Peru desde que as autoridades passaram a investigar o chamado "Clube da Construção", como ficou conhecido um cartel que envolveria a empreiteira brasileira e representantes locais do setor de obras públicas.

A Odebrecht admitiu ter pago US$ 29 milhões de propina no Peru, entre 2005 e 2014, em troca da obtenção de contratos.

Em fevereiro deste ano, a empreiteira assinou um acordo de colaboração com os promotores da Lava Jato no país, no qual se comprometeu a fornecer informações e pagar uma indenização de cerca de US$ 230 milhões.

Para o analista político Alfredo Torres, "é uma novidade" o fato de a Justiça não ter recebido "interferência" dos setores políticos.

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