'Ouvi a explosão', diz brasileira que visitava Sri Lanka durante atentados

Turista passou em frente a hotéis atingidos por ataques e antecipou volta de viagem

Flávia Mantovani
São Paulo

Enquanto fazia turismo com o marido pelas ruas de Colombo, maior cidade do Sri Lanka, a geóloga brasileira Alice Ferreira Souza, 35, ouviu uma explosão. Eles estavam em um tuk-tuk (triciclo motorizado popular na região), o motorista disse que provavelmente o barulho vinha de algum gerador em pane e continuou o passeio.

Cerca de 40 minutos depois, ao voltar para a área, o veículo parou em frente ao hotel Cinnamon Grand. “Descemos e vimos uma confusão absurda”, conta ela. “O prédio estava cercado, tinha muita polícia, gente carregando pessoas para dentro de ambulâncias, curiosos parando para tirar foto”, descreve.

A brasileira Alice Ferreira Souza, 35, posa em frente ao hotel Kingsbury, em Colombo, no Sri Lanka, pouco antes de uma explosão atingir o local
A brasileira Alice Ferreira Souza, 35, posa em frente ao hotel Kingsbury, em Colombo, no Sri Lanka, pouco antes de uma explosão atingir o local - Arquivo pessoal

“Na hora, pensamos: é atentado. Mas achamos que era uma coisa isolada”, completa. Não era. O Cinnamon Grand foi um dos alvos da série de oito ataques que deixou ao menos 290 mortos e 500 feridos no país asiático no domingo de Páscoa (21). Três igrejas também foram atingidas, assim como outros dois hotéis, o Kingsbury e o Shangri-La.

Pouco depois de ver a cena, o casal de brasileiros passou por esses dois hotéis e viu que também estavam isolados, com policiais, ambulâncias e curiosos por toda parte. As explosões ocorreram simultaneamente, por volta das 8h45 (0h45 no horário de Brasília).

“O Kingsbury e o Shangri-La ficam na orla, e a gente tinha passado na frente deles mais cedo. Tiramos um monte de fotos lá”, conta Alice.

Ela procurou reportagens sobre os atentados nos sites de notícias, mas só encontrou um link naquele momento. Mesmo assim, procurou um Wi-Fi para mandar uma mensagem para a mãe dizendo que estava bem. Só depois de um tempo, foi saber que se tratava do mais violento atentado no país desde o fim da guerra civil, há dez anos.

Até agora, foram detidas 24 pessoas por suspeita de relação com os ataques, e o governo do Sri Lanka apontou o grupo jihadista NTJ (National Thowheeth Jama'ath, ou Organização Nacional Monoteísta, em tradução livre) como responsável.

Alice e o marido moram atualmente na Arábia Saudita e passavam pelo Sri Lanka voltando de uma viagem para a China e a Coreia. Eles ficariam no país até o dia seguinte, mas decidiram antecipar a volta após o que aconteceu.

“A população estava até tranquila: não vimos tumulto, gente correndo, nada disso”, conta. “Mas teve toque de recolher, tudo estava fechado na cidade. Não fazia sentido continuar ali, isolados naquela confusão”, afirma.

No aeroporto, a situação estava mais conturbada -sem táxis nas ruas, eles chegaram até lá de tuk-tuk, em um trajeto que levou mais de uma hora e meia.

“Estava um caos. A entrada do aeroporto bloqueada, todos os carros eram revistados por policiais armados, tinha um engarrafamento enorme. Vimos muitos turistas querendo ir embora também”, conta.

O casal conseguiu mudar a passagem pela internet e embarcou em um voo às 18h30 do mesmo dia. Antes, passou por uma revista minuciosa no saguão.

“Inspecionaram a roupa, as malas, tudo, antes mesmo de entrarmos para o embarque”, conta. “Já tínhamos estado no país antes e não era assim, foi realmente por causa do que aconteceu.”

O Sri Lanka tem um longo histórico de tensão entre a maioria budista e as minorias hindu, muçulmana e cristã.

O grupo apontado como autor​ dos ataques, o NTJ, era conhecido por vandalizar estátuas budistas. Em 2016, seu secretário, Abdul Razik, foi preso por incitar racismo. 

Especialistas ouvidos pela agência Reuters consideram que é provável o envolvimento de grupos como Al Qaeda ou Estado Islâmico, pela complexidade e coordenação entre os ataques. 

Segundo o último censo, de 2012, 75% da população do país são budistas, 12,6 % são hindus, 9,7% são muçulmanos e 7,6% são cristãos (sendo a maioria católica). 

Após o ataque, o governo decretou um toque de recolher e bloqueou acesso a redes sociais e a aplicativos de mensagens, como Facebook e WhatsApp, com a intenção de evitar o surgimento de boatos.

O papa Francisco voltou a condenar nesta segunda-feira o ataque. "Peço a todos que não hesitem em oferecer toda a ajuda necessária a essa querida nação. Espero que todos condenem esses atos terroristas e inumanos, jamais justificáveis", disse ao público reunido na praça de São Pedro durante as celebrações da segunda-feira de Páscoa, feriado na Itália e no Vaticano.

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