Descrição de chapéu The New York Times

Prisão de Guantánamo debate como lidar com envelhecimento e doenças de detentos

Prisioneiros apresentam problemas como hipertensão, colesterol alto e diabetes

Bandeira dos EUA na prisão de Guantánamo, em Cuba - Doug Mills/The New York Times
Carol Rosenberg
Guantánamo | The New York Times

Ninguém recebeu diagnóstico de demência até agora, mas as primeiras artoplastias de quadril e joelho já despontam no horizonte. E também rampas para cadeiras de rodas, máscaras para apneia do sono, barras de apoio nas celas dos detentos e possivelmente até diálise. Outra coisa que faz parte das previsões: atendimento médico paliativo.

Mais de 17 anos depois de escolher a base militar americana em Cuba como “o lugar menos pior” para encarcerar prisioneiros do campo de batalha no Afeganistão, após anos de discussões acirradas sobre os direitos dos detentos e a possibilidade de a prisão ser fechada, o Pentágono agora está traçando planos para os suspeitos de terrorismo ainda detidos na prisão envelhecerem e morrerem em Guantánamo.

Com o esforço da administração Obama para fechar a prisão tendo sido bloqueado pelo Congresso e a administração Trump tendo se comprometido a mantê-la aberta, e com os julgamentos militares avançando em passo de tartaruga, em 2018 comandantes militares foram instruídos a traçar planos para manter o centro de detenção operando por mais 25 anos, até 2043.

Nesse ponto o prisioneiro mais velho, se ainda estiver vivo, terá 96 anos. Outro dos 40 detentos ainda mantidos na prisão terá 72 anos –o palestino conhecido como Abu Zubaydah, que foi confinado numa caixa do tamanho de um caixão enquanto foi detido numa prisão secreta da CIA e submetido 83 vezes à tortura do afogamento simulado, em um esforço para fazê-lo confessar. Como ele, muitos dos detentos já convivem com as consequências físicas e psicológicas da tortura, dizem seus advogados, fato que torna sua saúde especialmente precária agora que eles se encaminham para a velhice.

“A não ser que a política dos EUA mude, em algum momento vamos estar prestando algum tipo de atendimento paliativo de fim da vida aqui”, comentou o almirante John C. Ring, comandante da prisão, durante discussão com jornalistas que destacou o tipo de questões que a prisão está pedindo que o Pentágono decida.

“Muitos de meus prisioneiros são pré-diabéticos”, disse Ring. “Será que vou precisar oferecer diálise aqui? Não sei. Alguém precisa me dizer. Vamos dar tratamento complexo contra câncer aqui? Não sei. Alguém precisa me falar.”

A prisão visualiza a possibilidade de prestar cuidados como os oferecidos em lares para idosos e atendimento médico paliativo a detentos. Os comandantes militares dizem que os detentos já apresentam condições típicas da meia idade: hipertensão, colesterol alto, dores nas articulações, diabetes e, mais recentemente, apneia do sono.

Mas as forças armadas ainda discutem quanto atendimento médico os prisioneiros devem receber, como ele deve ser prestado e quanto dinheiro o Congresso vai disponibilizar para custear tudo isso.

O hospital militar americano mais próximo a Guantánamo está em Jacksonville, Flórida, a 1.400 km de distância. É onde os soldados de Ring vão quando precisam de exames ou cuidados médicos que o pequeno hospital da base de Guantánamo não pode fornecer, como uma ressonância magnética. Mas as forças armadas são proibidas por lei de levar os detentos em Guantánamo para os Estados Unidos.

Por isso mesmo os serviços médicos que não são de rotina sempre tiveram que ser levados até Guantánamo. Cardiologistas são levados à base há mais de uma década para atender alguns dos prisioneiros. Outros especialistas viajam regularmente a Guantánamo para realizar colonoscopias e examinar lesões ortopédicas. Um protético atende os detentos que sofreram amputações no campo de batalha.

Por enquanto, dizem os militares, nenhum dos prisioneiros tem câncer, e os que usam cadeira de rodas conseguem acomodar-se e sair delas sozinhos. Mas os funcionários estão tentando decidir quantas celas será preciso equipar com rampas e barras de apoio e se será preciso dispor de espaços maiores para acomodar macas, cadeiras de rodas e chuveiros.

“Muitos desses homens tinham vida dura antes de virem aqui para Guantánamo”, disse o diretor médico da prisão, um comandante da Marinha cujo nome não pode ser divulgado devido às regras militares sobre visitas de jornalistas da prisão. “Estamos começando a ver gente usando bengalas, andadores, braçadeiras e assim por diante.”

Ring disse que as forças armadas não têm médicos especializados em geriatria ou atendimento paliativo. Ele está enviando uma equipe para ver como o departamento federal de prisões trabalha com detentos doentes e moribundos.

A prisão de Guantánamo possui uma equipe de 140 médicos, enfermeiros, paramédicos e profissionais de saúde mental que trabalham em turnos. Eles atendem os detentos, mas também prestam algum atendimento aos 1.500 soldados que atuam na prisão, que podem ir ao hospital da base ou aos Estados Unidos quando precisam de cuidados médicos mais complexos.

O Pentágono está pedindo US$ 88,5 milhões para construir uma pequena prisão com capacidade de prestar atendimento paliativo aos 15 prisioneiros trazidos para Guantánamo das prisões secretas da CIA, seis dos quais aguardam julgamento, com possibilidade de ser condenados à pena de morte, como supostos conspiradores nos ataques de 11 de setembro de 2001 e no ataque ao destróier da Marinha americana USS Cole, que fizeram quase 3.000 mortos.

O custo do projeto foi estimado inicialmente em 2013 em US$ 49 milhões. Em 2018, Ring elevou a estimativa para US$ 69 milhões. O Congresso se negou a financiá-lo, dizendo que o Departamento de Defesa tinha necessidades infraestruturais mais urgentes.

Os detentos que vieram das prisões secretas da CIA são suspeitos mentores de ataques, segundos em comando ou soldados rasos da Al Qaeda. Seus advogados de defesa e os especialistas médicos que eles consultam dizem que eles são os detentos em Guantánamo que estão mais doentes. Para eles, alguns dos problemas de saúde que os militares atribuem ao envelhecimento são na realidade consequências das torturas infligidas pela CIA.

Um detento conhecido como Hambali, 55, um indonésio detido por ser o ex-líder da organização extremista Jemaah Islamiyah, precisa de uma artroplastia de joelho, segundo seu advogado de defesa, o major dos marines James Valentine. O advogado disse que a lesão ao joelho de Hambali é consequência direta de seu primeiro ano mantido em cativeiro pela CIA, quando ficou sempre acorrentado pelos tornozelos.

O saudita Mustafa al-Hawsawi, 50, acusado de ajudar os sequestradores do 11 de setembro com suas despesas e viagens, sofre há anos de tanta dor crônica retal por ter sido sodomizado nas prisões da CIA que se senta desajeitadamente sobre uma almofada quando é levado a um tribunal, volta à sua cela para se deitar assim que possível e jejua com frequência para minimizar a evacuação, disse seu advogado de defesa, Walter Ruiz. Ele se tornou dependente de um analgésico narcótico, o tramadol, disse Ruiz.

Algumas pessoas podem achar estranho que as forças armadas estejam discutindo atendimento médico caro e complicado para os detentos, especialmente aqueles que o promotor do Pentágono quer que recebam a sentença de morte.

“É paradoxal”, disse o psiquiatra e general aposentado do Exército Stephen N. Xenakis, consultado desde 2008 sobre casos em Guantánamo. “Mas neste país não deixamos as pessoas morrer simplesmente. Isso violaria nossa ética médica.”

Antes mesmo de a maioria dos detentos chegar à velhice, a prisão já enfrentou os desafios de prestar atendimento médico sofisticado sob as limitações que lhe são impostas.

No verão de 2017, os guardas encontraram um acusado de crimes de guerra, Abd al Hadi al Iraqui, incontinente em sua cela. Ele se queixava havia anos de dor debilitante de costas em função de uma doença degenerativa do disco. Um furacão estava a caminho do Caribe. O Pentágono enviou uma equipe neurocirúrgica da Marinha a Guantánamo para realizar uma cirurgia de emergência da espinha.

Documentos divulgados recentemente sobre o caso de Hadi contestam comandantes que dizem que oferecem atendimento médico excelente aos detentos, no mesmo nível do que é prestado a membros das forças armadas.

Hadi passou por três cirurgias da espinha em setembro de 2017, a primeira na lombar, a segunda no pescoço e a terceira para drenar um hematoma pós-cirúrgico. Em outubro, um oficial sênior do hospital da base de Guantánamo declarou em email que “a fusão cervical do paciente fracassou”.

O oficial, cujo nome foi apagado nos documentos judiciais, propôs três opções possíveis: dar um colar cervical a Hadi e torcer pelo melhor; trazer um instrumento especial de um hospital da Marinha em Portsmouth, Virgínia, para remover pinos inseridos no pescoço do paciente em uma cirurgia anterior, ou trasladá-lo para o hospital de Portsmouth para uma cirurgia complexa.

Em um reconhecimento raro das limitações da medicina em Guantánamo, o oficial admitiu que a perspectiva de tentar a cirurgia complexa no hospital da base lhe metia medo.

O que foi feito a seguir não consta dos documentos judiciais. Mas a coronel do Exército Amanda Azubuike, porta-voz do Comando Sul, responsável pela prisão, disse em email que a ideia de trasladar o paciente “obviamente não foi implementada devido a restrições legais.

Hadi passaria por mais duas cirurgias em Guantánamo.

Documentos judiciais revelam que Hadi sofre de dor crônica e espasmos nas costas, para os quais recebe diversos analgésicos e relaxantes musculares. Seu cirurgião declarou que Hadi talvez nunca melhore.

Numa audiência sobre seu processo, em março, os guardas o levaram ao tribunal em cadeira de rodas e ele usou um andador para ir até uma cadeira de reabilitação almofadada. Houve um recesso repentino na audiência quando um de seus advogados disse que as respostas de Hadi não correspondiam às perguntas que sua equipe legal estava fazendo a ele.

Hadi, hoje com 58 anos, tem julgamento marcado para fevereiro de 2020. Para garantir sua presença no tribunal, o Pentágono instalou uma cela temporária acessível por cadeira de rodas no complexo onde estão ocorrendo os procedimentos legais. A cela já tinha sido encomendada devido à previsão de uma população de detentos mais velhos.

Ela é três vezes maior que as outras celas temporárias do tribunal, com espaço suficiente para um leito hospitalar, e, segundo um promotor, terá um monitor de vídeo para que Hadi possa acompanhar seu julgamento por vídeo ao vivo. Também terá um telefone para que ele ou um advogado possam telefonar ao tribunal, ao lado, se ele tiver algo a dizer.

As forças armadas já decidiram o que fazer quanto um detento morrer, porque isso já ocorreu nove vezes desde 2006.

Funcionários muçulmanos na base prestaram os rituais tradicionais aos defuntos até a chegada de um capelão muçulmano. O Departamento de Estado organizou a repatriação dos restos mortais.

Para aqueles cujos restos não podem ser repatriados, há um terreno cercado por uma barreira metálica e marcado “Cemitério Islâmico de Entrada” numa parte de Guantánamo de acesso proibido. A última vez que um jornalista pôde ver o cemitério, em 2016, ele estava vazio.

Tradução de Clara Allain

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