Promessa de pacificação fracassa no México e violência não para de crescer

Com AMLO, país registra 8.493 homicídios no 1º trimestre, 9,6% a mais que no mesmo período de 2018

Sylvia Colombo
Buenos Aires

​O presidente do México, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, 65, fez sua primeira visita a um local onde ocorreram massacres causados por cartéis de narcotráfico desde que assumiu, em 1º de dezembro de 2018.

AMLO (como é conhecido) visitou Minatitlán e Coatzacoalcos, duas localidades no turbulento Estado de Veracruz que, entre outros recordes, é o que mais teve jornalistas assassinados no exercício de seu ofício nos últimos 10 anos, pelo crime organizado ou por autoridades locais por este corrompidas.

Em Minatitlán, AMLO fez um discurso em que prometeu "aumentar a proteção imediata da população de Veracruz, com mais efetivos do Exército e da polícia". Também afirmou que iniciaria ali a formação da Guarda Nacional, seu principal projeto para pacificar o país.

A política de segurança deste governo vem sendo muito questionada, principalmente depois que se conheceram as cifras desta área em seus quatro meses de gestão.

Entre janeiro e março de 2019, houve 8.493 homicídios --um aumento de 9,6% em relação ao mesmo período de 2018, segundo dados oficiais. Houve ainda 122 sequestros.

Os números da violência no México são altos, embora não se trate do país onde ocorram mais homicídios na América Latina --está quase empatado com o Brasil; a liderança fica com a Venezuela.

Investigadores examinam cena de assassinato em Acapulco, no estado de Guerrero, no México - AFP

Porém, há particularidades que fazem do país um caso praticamente único. São comuns que grupos de narcos matem civis e os exponha degolados ou os enfileirem no meio de estradas com cartazes para mostrar que tal cartel passou a dominar aquela área.

Também há fossas comuns, que se espalham pelo território com dezenas e até centenas de cadáveres --no estado de Guerrero, chegou-se a encontrar uma com mais de 300, durante a gestão Enrique Peña Nieto (2012-2018).

Também são frequentes os atentados políticos. Se no Brasil um ataque tenebroso a uma autoridade eleita, como aconteceu com Marielle Franco, no Rio de Janeiro, são raros, no México homicídios contra representantes do povo, praticados por sicários, são comuns.

Apenas nesta semana, num espaço de 48 horas, foram assassinados dois prefeitos por facções criminosas. Na segunda-feira (22), a prefeita de Mixtla de Altamirano (Veracruz), Maricela Vallejo Orea, foi assassinada a tiros por sicários que cercaram a caminhonete em que viajava. Seu marido e o chofer do veículo também foram mortos.

No dia seguinte, foi a vez do prefeito de Nahuatzen (Michoacán), cuja casa foi invadida por homens encapuzados que o amarraram e o metralharam. O corpo foi levado para um descampado a 50 km dali, onde foi abandonado.

AMLO busca diferenciar-se de seus antecessores no setor de segurança. O conservador Felipe Calderón (2006-2012) apostou num confronto bélico contra os cartéis, fazendo com que a cifra de mortos ultrapassasse os 60 mil.

Peña Nieto (2012-2018) preferiu fazer acordos com grupos de "autodefensa" (milícias rurais) e na perseguição dos cabeças dos cartéis, na esperança de destruir assim toda sua estrutura. Isso não deu certo, pois os grupos se horizontalizaram e se fragmentaram para continuar operando.

A Guarda Nacional que AMLO promete seria formada por oficiais da polícia, do Exército e novos membros que passariam a ser recrutados e treinados e responderiam ao poder Executivo. A ideia é impedir que se deixem corromper pela política regional, muito vinculada ao narco, que costuma financiar campanhas eleitorais no interior dos estados.

Parentes e amigos no velório de Maricela Vallejo, prefeita de Mixtla de Altamirano morta dia 25. - AFP

Em Minatitlán, no último dia 19, foram assassinadas 13 pessoas, entre elas um bebê, durante uma festa familiar. Segundo as autoridades locais, tratou-se de um "ajuste de contas" entre narcos locais.

Se a situação continuar nesse ritmo, o recorde de violência alcançado no ano passado, com 33.500 assassinados em todo o México, o mais alto desde 1997, pode ser superado em 2019.

A oposição crê que a Guarda Nacional, que ainda aguarda aprovação do Congresso, não basta e que são necessárias outras medidas, como o reforço em inteligência, investimento em educação e nas economias regionais, como forma de combater o problema a médio e longo prazo.

Para o analista político Alejandro Hope, do Mexico Institute do Woodrow Wilson Center, a Guarda Nacional não vai ser eficiente a curto e médio prazo.

"Enquanto não se regulamenta o recrutamento e a preparação dos oficiais, serão empregados os que já estão na polícia e no Exército, podendo-se, no máximo, mudá-los de área de atuação. No período de formação da guarda, portanto, a única coisa a diferenciar seus primeiros oficiais dos oficiais que estavam antes será seu novo uniforme. O que só funcionará se esse novo uniforme for mágico", diz.

Hope também crê que planos sociais como o Jovens Construindo Futuro, que AMLO propôs para evitar que os cartéis continuem recrutando adolescentes para suas fileiras "é de muito pequeno alcance e de resultado demorado".

No estado de Veracruz, nas últimas semanas, encontraram-se nada menos que 36 fossas com cadáveres ainda não identificados. Em 2018, foram encontradas no estado 343 fossas e registradas 2.301 mortes, mostrando que a região continua sendo disputada de forma brutal pelos grupos de crime organizado.

Desde o assassinato coletivo, Minatitlán está em efervescência, com protestos de rua quase diários.

"Meu filho foi assassinado ao ir ao uma festa", disse Aracely Careta, por telefone, à Folha. "Não é possível que não possamos viver numa sociedade normal em que seus filhos frequentem festas de famílias amigas. Não havia membros de cartéis lá. O governo mente ao afirmar que se tratou de um ajuste de contas. Foi um ataque a pessoas que estavam celebrando a vida. Como pode ser que se faça um ajuste de contas tirando a vida de um bebê com sua mãe?", acrescentou.

Carro danificado durante protesto que aconteceu após notícias do sequestro e do assassinato do prefeito David Otilica - AFP

Uma vez que se apoderam de uma zona, os criminosos não apenas controlam aí as rotas pelas quais se transportam cocaína, opioides e outros produtos ilícitos, como também instituem sistemas de extorsão do comércio e das atividades econômicas locais, ameaçando a população com sequestros, estupros e recrutamento de adolescentes.

No caso de Veracruz, o principal local que buscam controlar os cartéis é seu famoso porto, o mais importante do país, localizado a menos de 400km da Cidade do México, que recebe contrabando da China para a fabricação de certas drogas e serve de escoamento para a produção local ou da que vem da América do Sul.

Organizações de direitos humanos estimam que existem mais de 100 mil pessoas desaparecidas no México.

Além de mexicanos, estariam nesta cifra imigrantes que fogem da guerra civil e da crise humanitária de países da América Central, principalmente do chamado Triângulo do Norte (Guatemala, El Salvador e Honduras).

Muitos são assassinados pelos cartéis após serem roubados ou por se negarem a somar-se às facções ou a trabalhar de modo forçado para os cartéis.

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