Proposta nos EUA mira envio de imigrantes para interior do país

Ideia é combater problema de declínio demográfico em cidades pouco visadas

Grupo de imigrantes brasileiros é detido na fronteira entre o México e os EUA, no estado de Novo México 
Grupo de imigrantes brasileiros é detido na fronteira entre o México e os EUA, no estado de Novo México  - Paul Ratje - 20.mar.19/AFP
 
Marina Dias
Washington

Uma nova política de imigração, direcionada para cidades menos desenvolvidas, poderia ajudar a resolver um dos principais problemas econômicos dos EUA: o declínio demográfico.

A ideia é simples e, ao mesmo tempo, desafiadora: o governo americano concederia vistos para imigrantes qualificados desde que eles vivessem e trabalhassem em estados no coração do país. 

Segundo pesquisa do Grupo de Inovação Econômica (EIG, na sigla em inglês), essas regiões têm perdido mão de obra para centros urbanos localizados nas áreas costeiras, como Nova York, Los Angeles, Boston e São Francisco, e ficado para trás quando o assunto é escolaridade e desenvolvimento econômico.

O debate acontece em meio à escalada das medidas anti-imigração do presidente Donald Trump, que defende a construção de um muro na fronteira com o México e disse que poderia enviar imigrantes ilegais detidos para as chamadas “cidades santuários” —locais comandados por democratas que se opõem às políticas migratórias da Casa Branca.

Os problemas de imigração são a trama central do governo Trump, que busca se cacifar para uma possível reeleição no ano que vem com o mesmo discurso nacionalista e protecionista que o levou à Presidência em 2016.

Somente em março deste ano, por exemplo, mais de 100 mil imigrantes ilegais foram levados sob custódia, estimulando a retórica do presidente de que há uma grave crise imigratória que precisa ser resolvida no país.

A maioria da população americana, no entanto, parece não concordar com esse discurso de ódio: dados divulgados pelo Pew Research Center no mês passado mostra que 59% avaliam que imigrantes são uma força e não um peso para o país —e destacam seus talentos em vez de temer que eles roubem seus benefícios e postos de trabalho.

A proposta apresentada pelo estudo do EIG, no entanto, trata somente de pessoas que entrariam legalmente nos EUA como forma de impulsionar a economia das regiões mais centrais do país —hoje menos desenvolvidas.

Especialistas, porém, avaliam que o posicionamento da Casa Branca —que vê os imigrantes como uma ameaça à segurança nacional— não é suficiente para impedir que projetos como esse avancem, já que a legislação nos estados funciona de forma independente nos EUA.

“Concordo que essa é uma proposta desafiadora num cenário como esse [governo Trump], mas não é assunto impossível de ser debatido”, afirma Ann Chih Lin, especialista em políticas públicas da Universidade de Michigan.

“A questão da imigração ser entendida como uma disputa entre republicanos e democratas é relativamente nova, começou com Trump, mas muitos republicanos apoiam a imigração, porque apoiam os negócios”, completa.

A professora acredita que a implementação desse tipo de projeto —que já teve embriões em outras épocas no Congresso americano, capitaneados inclusive por republicanos— mudaria significativamente a política do país, pois obrigaria os estados a discutirem a imigração de maneira mais transparente.

Os economistas Adam Ozimek, Kenan Fikri e John Lettieri, autores da pesquisa do EIG, apontam que, de 2010 a 2017, mais de 85% dos municípios dos EUA cresceram menos que o resto do país —enquanto cidades costeiras se desenvolveram, as localizadas nas regiões mais centrais tiveram perda populacional, em alguns casos, de mais de 5%.

Esse declínio demográfico é uma das principais razões pelas quais vários analistas esperam que a economia americana cresça menos a partir de agora, o que tem preocupado investidores.

Com a proposta de canalizar imigrantes para essas regiões mais pobres e menos desenvolvidas, dizem os pesquisadores, seria possível driblar o ciclo vicioso criado pela fuga de mão de obra de cidades menores e mais rurais.

Na avaliação da professora de Michigan, porém, a solução não é tão simples e há pelo menos dois problemas a serem considerados na discussão do projeto. 

Segundo ela, o emprego é o fator determinante para um trabalhador temporário escolher o local onde vai se estabelecer, mas não está claro na proposta dos vistos quem chegaria primeiro: os imigrantes ou as empresas. 

A outra questão, ela diz, é por que não priorizar os próprios americanos para suprir essa necessidade de mão de obra nas regiões centrais do país, visto que hoje os imigrantes também preferem as cidades mais desenvolvidas que, consequentemente, têm mais opções de mercado de trabalho.

Na proposta dos economistas, os vistos para cidades específicas não estariam vinculados a um único empregador, como é o caso do H-1B —destinado a quem já têm trabalho nos EUA— permitindo que as pessoas mudassem de emprego e até pudessem montar um negócio próprio.

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