Relatório sobre interferência russa pode ser mais danoso para Trump do que Barr fez parecer

Secretário de Justiça não teria transmitido de maneira correta conclusões do inquérito de Mueller, dizem investigadores

Washington | The New York Times

Alguns dos investigadores da equipe de Robert Mueller disseram a conhecidos que o secretário de Justiça, William Barr, não transmitiu corretamente as conclusões de seu inquérito e que essas conclusões são mais prejudiciais ao presidente Donald Trump do que Barr indicou. A informação é de funcionários governamentais e outros que têm conhecimento da frustração dos investigadores.

O que está em jogo na disputa —o primeiro indício de tensão entre Barr e o escritório do procurador especial— é quem molda a compreensão pública inicial de uma das investigações governamentais mais importantes da história americana. Alguns membros da equipe de Mueller temem que, pelo fato de Barr ter criado a primeira narrativa sobre as conclusões do procurador especial, a visão dos americanos terá endurecido antes de as conclusões do inquérito serem levadas a público.

Barr disse que trabalhará rapidamente para levar a público o relatório de quase 400 páginas, mas que precisa de tempo para ocultar informações confidenciais. Segundo funcionários do governo familiarizados com a investigação, os investigadores do procurador especial já haviam escrito várias sinopses do relatório, e alguns membros da equipe acham que Barr deveria haver incluído mais material deles na carta de quatro páginas que escreveu em 24 de março apresentando suas principais conclusões. Em sua carta, Barr reproduziu apenas breves trechos do trabalho de Mueller.

Mas, segundo uma pessoa familiarizada com a investigação, o escritório de Mueller nunca chegou a pedir a Barr que divulgasse as sinopses pouco depois de receber o relatório. E o Departamento de Justiça determinou rapidamente que elas continham informações sensíveis, como materiais classificados, depoimentos secretos prestados a um grande júri e informações relacionadas a investigações federais em curso no momento, todas informações que precisam permanecer confidenciais, segundo dois funcionários governamentais.

O secretário de Justiça dos Estados Unidos, William Barr - REUTERS

Segundo dois funcionários que conhecem o pensamento de Barr, o secretário de Justiça temia divergir da prática do Departamento de Justiça de não divulgar detalhes prejudiciais após o encerramento de uma investigação. Eles apontam para a decisão do ex-diretor do FBI James Comey de criticar duramente Hillary Clinton em 2016 quando anunciou que recomendava que as práticas dela em relação a e-mails não fossem sujeitas a inquérito criminal.

Os funcionários e outros entrevistados não quiseram discutir a fundo por que alguns dos investigadores de Mueller encaram suas descobertas como sendo potencialmente mais prejudiciais ao presidente do que Barr explicou, embora se acredite que o relatório tenha estudado os esforços de Trump para frustrar a investigação. Não ficou claro até que ponto Mueller e seus investigadores discutiram com funcionários sêniores do Departamento de Justiça sobre como suas conclusões seriam levadas a público. Tampouco ficou clara a extensão da insatisfação entre a equipe do procurador especial, que incluiu 19 advogados, 40 agentes do FBI e outros.

Ao mesmo tempo, Barr e seus assessores expressaram suas próprias frustrações em relação a Mueller e sua equipe. Barr e outros funcionários do Departamento de Justiça creem que os investigadores do procurador especial não cumpriram completamente sua tarefa, pelo fato de terem se negado a decidir se Trump cometeu obstrução ilegal da investigação, segundo dois funcionários do governo. Depois de Mueller não ter tomado posição sobre a questão da obstrução, Barr interveio para anunciar que absolveu Trump de qualquer delito.

Representantes do Departamento de Justiça e o procurador especial se negaram a comentar na quarta-feira (3) as opiniões expressas por membros da equipe de Mueller e pessoas do Departamento de Justiça. Eles apontaram para regulamentos departamentais que obrigavam Mueller a entregar um relatório confidencial ao secretário de Justiça detalhando suas decisões sobre processos criminais e para a promessa separada de Barr de enviar ao Congresso uma versão editada do relatório. Os regulamentos permitem que Barr divulgue publicamente tanto do documento quanto ele considerar apropriado.

Embora não tenha ficado claro quais conclusões os investigadores de Mueller consideraram preocupantes para Trump, Barr sugeriu que Mueller pode ter encontrado evidências de prevaricação na investigação de possível obstrução de justiça. “O relatório apresenta evidências para ambos os lados da questão”, escreveu Barr em sua carta de 24 de março.

Manifestantes participam de protesto em Nova York pedindo a publicação do texto integral do relatório do promotor Robert Mueller sobre possível interferência russa na eleição presidencial de 2016 - REUTERS

​Mueller examinou as tentativas de Trump de controlar a investigação, incluindo sua demissão de Comey, sua tentativa de afastar Mueller e sua tentativa de demitir o secretário de Justiça Jeff Sessions para instalar em seu lugar uma pessoa leal a ele para supervisionar a investigação.

As consequências negativas da carta de Barr apresentando as conclusões principais da investigação sobre a Rússia ganharam mais destaque que sua intenção de levar a público a maior parte possível do relatório inteiro, objetivo que ele vem enfatizando desde sua audiência de confirmação no cargo, em janeiro. Na sexta-feira (5) Barr reiterou a parlamentares que quer que tanto o Congresso quanto o público leiam o relatório e que até meados de abril o Departamento de Justiça vai disponibilizar uma versão com os trechos sensíveis deletados. Ele se ofereceu para depor no Capitólio depois de entregar o relatório.

Suas promessas de transparência não tranquilizaram muito os democratas que controlam a Câmara dos Deputados. Na quarta-feira o Comitê do Judiciário da Câmara votou por autorizar seu presidente a recorrer a uma intimação judicial para tentar obrigar Barr a entregar ao Congresso uma cópia integral do relatório de Mueller e as evidências que o acompanham. O presidente do comitê, deputado Jerrold Nadler, democrata de Nova York, não informou quando vai usar a intimação judicial, mas deixou claro na quarta-feira que não confia na versão apresentada por Barr das conclusões da equipe de Mueller.

“A Constituição encarrega o Congresso de responsabilizar o presidente por alegados erros de conduta oficiais”, disse Nadler. “Isso requer que nós mesmos avaliemos as evidências —não um resumo delas redigido pelo secretário de Justiça, não uma sinopse substancialmente editada, mas a íntegra do relatório e das evidências que o acompanham.”

Republicanos, que acolheram positivamente a carta de Barr isentando Trump de erro, acusam os democratas de tentar prolongar a nuvem que paira sobre a Presidência dele e os exortaram a deixar essa questão para trás.

Tradução de Clara Allain

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