Descrição de chapéu Venezuela

Reuniões de Ernesto Araújo nos EUA incomodam diplomatas brasileiros

Chanceler se reuniu na segunda (29) com secretário de Estado e consultor de segurança

Marina Dias
Washington

Reuniões do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, com integrantes da alta cúpula do governo Trump na segunda (29) em Washington preocuparam diplomatas brasileiros.

Uma ala do Itamaraty que atua na interlocução com autoridades americanas ficou incomodada com o teor da nota sobre a crise na Venezuela emitida nesta terça (30) pelo Planalto. 

A avaliação é que um texto genérico, que não cita a contrariedade do governo brasileiro a uma possível intervenção militar no país vizinho, passa uma mensagem negativa um dia após Araújo se reunir com os dois conselheiros de Trump considerados expoentes da linha-dura contra Nicolás Maduro.

O chanceler Ernesto Araújo e o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, apertam as mãos e sorriem
O chanceler Ernesto Araújo e o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, durante a primeira visita do brasileiro aos EUA, em fevereiro deste ano - Yuri Gripas - 5.fev.2019/Reuters

O chanceler brasileiro esteve em Washington para encontros com o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, e o secretário de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, na véspera da escalada da crise venezuelana.

Trump e seus principais auxiliares têm um discurso de que “todas as cartas estão sobre a mesa” quando se trata de Venezuela, deixando aberta a possibilidade de intervenção no país latino-americano. 

O Planalto apoia a oposição contra Maduro, mas a ala militar do governo, incluindo o vice-presidente Hamilton Mourão, tem negado qualquer ação que vá além de ajuda humanitária na fronteira.

Nesta terça, após o retorno de Araújo ao Brasil, o presidente Jair Bolsonaro convocou uma reunião de emergência para discutir o cenário na Venezuela depois de os oposicionistas Juan Guaidó e Leopoldo López anunciarem o apoio de militares dissidentes na luta contra Maduro.

Em seguida, o presidente divulgou nota na qual encoraja outras nações a apoiarem o movimento para depor o ditador venezuelano, mas não fez nenhuma menção a uma eventual ação militar no país vizinho.

“O Brasil acompanha com grande atenção a situação na Venezuela e reafirma o irrestrito apoio ao seu povo que luta bravamente por democracia. Exortamos todos os países, identificados com os ideais de liberdade, para que se coloquem ao lado do presidente encarregado Juan Guaidó na busca de uma solução que ponha fim na ditadura de Maduro, bem como restabeleça a normalidade institucional na Venezuela”, diz o texto assinado pelo porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros.

Além de Araújo, participaram do encontro com Bolsonaro em Brasília o vice-presidente, Hamilton Mourão, e os ministros Augusto Heleno (GSI) e Fernando Azevedo (Defesa).

Mais tarde, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, o presidente disse que é “próxima de zero” a possibilidade de o Brasil participar, ainda que de maneira indireta, de uma intervenção militar na Venezuela.

“A hipótese de nós participarmos de forma mesmo indireta de uma intervenção armada é muito difícil, não vou dizer que é zero, mas é próxima de zero”, afirmou, arrefecendo a possibilidade, mas sem descartá-la completamente.

Após se reunir com Pompeo, na segunda, Araújo havia dito que a conversa era apenas uma atualização da viagem de Bolsonaro aos EUA, em março, e que o Brasil manteria a “pressão diplomática” sobre a Venezuela.

Quem acompanha visitas de autoridades internacionais aos EUA afirma que é pouco comum o retorno do chanceler pouco mais um mês após a viagem presidencial, mas não se pode descartar que as novidades na Venezuela possam ter pegado algumas autoridades de surpresa. 

Nesta terça, o chanceler reforçou o discurso de que não tinha conhecimento das novas intenções de Guaidó e disse que discutiu com o auxiliar da Casa Branca a existência de “perspectiva concreta de chegarmos a uma evolução”.

Os protestos convocados por Guaidó contra Maduro estavam marcados para a quarta (1°), durante o feriado do Dia do Trabalhador. O regime venezuelano também havia chamado manifestações para duelar com os opositores.

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