Selo de capital cultural da União Europeia turbina pequenas cidades

Título injeta milhões em municípios desconhecidos; selecionadas de 2019 ficam em Itália e Bulgária

Panorama de Matera, na região de Brasilicata, na Itália
Panorama da cidade de Matera, na região de Brasilicata, na Itália - Susan Wright - 17.jan.2018/The New York Times
João Perassolo
São Paulo

Matera, cidade de 60 mil habitantes no sul da Itália, quer receber em 2019 um número de turistas dez vezes maior do que a sua população. 

A “cidade das cavernas”, como é conhecida por suas grutas pré-históricas, pretende alcançar esse feito com a ajuda de um título recebido neste ano: o de capital cultural da Europa

O selo, que ajuda a lotar cidades pouco conhecidas no mapa com eventos culturais chancelados pela União Europeia (UE), é concedido todo ano a duas cidades, geralmente de porte pequeno ou médio.

No caso de Matera, serão 48 semanas de programação, que devem levar 800 artistas de vários lugares do mundo até a cidade. A outra localidade selecionada em 2019 é Plovdiv, na Bulgária, que tem 350 eventos previstos, quase um por dia. 

O selo de capital cultural costuma impulsionar as economias locais, aumentando o fluxo de turistas nas cidades, além de acelerar projetos de infraestrutura. Foi o que aconteceu com uma das selecionadas em 2018, Leeuwarden, capital da região da Frísia, em uma zona rural ao norte da Holanda. 

Leeuwarden, cidade ao norte da Holanda, eleita capital cultural da Europa em 2018
Leeuwarden, cidade ao norte da Holanda, eleita capital cultural da Europa em 2018 - Theo de Witte

Ao todo, os 11 municípios da área receberam 36,4 milhões de euros (R$ 159 milhões) do governo holandês e das prefeituras locais, fora os quase 6 milhões de euros (cerca de R$ 26 milhões) advindos de Bruxelas.

A praça junto à estação de trem central da cidade, que tem 108 mil habitantes, teve sua restauração adiantada em três anos graças às verbas cedidas pelo poder público. Já a prisão medieval De Blokhuispoort foi reconstruída para sediar apresentações artísticas.

“Não se trata de construir novas casas de espetáculos, e sim de fazer melhor uso das que já temos”, diz John Bonnema, diretor administrativo da fundação que colocou em pé o ano cultural de 2018 na holandesa Leeuwarden.

Outro ponto positivo legado à região de Frísia, segundo Bonnema, foi o fortalecimento dos vínculos entre os moradores, como resultado do envolvimento de mais de 66% da população no ano cultural. Cerca de 429 mil pessoas tomaram parte de alguma forma, como voluntários, organizadores ou visitantes.

O diretor administrativo afirma que a alta taxa de participação ajuda na construção da identidade de uma área “com grande número de idosos, e mais pobre do que outras regiões da Holanda, como Amsterdã e Roterdã, para a qual muitos jovens se mudam”. 

As capitais culturais são selecionadas por uma comissão de gestores culturais de diversos estados membros da UE, além de profissionais das artes e das finanças dos países sede.

Teatro Romano em Plovdiv, na Bulgária
Teatro Romano em Plovdiv, na Bulgária - Divulgação/ flickr

Para 2019, Matera derrotou outros 21 municípios italianos que haviam demonstrado interesse em receber o selo. 

Marcada por altíssimos níveis de pobreza até ser considerada patrimônio da humanidade pela Unesco, em 1993, a cidade apresentou à Comissão Europeia o chamado “livro-proposta” —documento de mais de cem páginas descrevendo por que Matera merecia o título, o conceito que amarraria as atividades durante o ano, o orçamento previsto e como o dinheiro seria utilizado.

É de se esperar que um processo complexo como esse exija forte pressão política. Mas, segundo Paolo Verri, diretor geral da Fundação Basilicata, responsável pela organização do ano cultural em Matera, não é o caso. “Não há lobby no sentido tradicional do termo para obter o título”, diz. “É difícil influenciar políticos de países da Europa que você nunca encontrou antes.”

Por outro lado, diz ele, o lobby ocorre em nível nacional, já que há um número limitado de profissionais do alto escalão da cultura na Itália, “e todos se conhecem”. 

Situada às margens do rio Marits, Plovdiv é a segunda cidade mais populosa da Bulgária, atrás da capital, Sofia. 

Seu ano cultural gira ao redor do tema “together” (juntos) e, em documento apresentado à União Europeia, afirma que pretende “criar projetos culturais de longo prazo com grupos sociais excluídos” e “dar espaço às ideias de jovens para evitar a fuga de cérebros”. 

Os objetivos são bonitos no papel, mas, na prática, nem tudo são flores. No início deste mês, Plovdiv se viu envolvida em uma polêmica relativa a uma exposição de fotografia com temática LGBT programada para julho, como parte do ano cultural. 

Intitulada “Balkan Pride”, a exposição trará imagens, vídeos e artefatos de paradas gay nos países da região dos Bálcãs, além de um fórum de discussão de temáticas LGBT. 

A fundação que cuida da programação cultural na cidade foi pichada com frases homofóbicas, e legisladores tentam impedir a realização da mostra e pedem a renúncia da diretora da entidade.

O projeto de designar cidades europeias para sediarem um ano de eventos artísticos acontece desde 1985. Elas são escolhidas com cinco anos de antecedência.

Mais de 40 municípios já participaram, incluindo capitais como Copenhague (Dinamarca) e Madri (Espanha), na década de 1990. A partir da virada do século, no entanto, o foco passou a ser municípios menores.

 
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