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Surpresa, um partido no poder, e de esquerda, ganha nas urnas na Espanha

Governo de esquerda em um país europeu de grande porte quebra a hegemonia da direita

Bandeira do PSOE durante evento que celebrou a vitória do partido nas eleições, em Madri - Sergio Perez/Reuters

O jornalismo, que vive do registro de anomalias, pode ficar tentado a considerar a ascensão da extrema direita (representada pelo grupo Vox) como o principal resultado da eleição espanhola deste domingo (28).

De fato, o Vox, que jamais havia disputado uma eleição geral, conseguiu 24 cadeiras no Parlamento espanhol de 350 lugares. É um resultado expressivo para um partido recém-constituído, ainda mais que a ultradireita, até agora, era virtualmente inexistente na Espanha.

Mas a verdadeira anomalia no pleito deste domingo —e, portanto, a verdadeira notícia— é algo que seria absolutamente trivial, em outros tempos, menos tempestuosos para a democracia: ganhou o partido do governo, no caso o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol).

Para completar, trata-se, como diz o nome, de um partido de centro-esquerda e de sólidas credenciais europeístas. Partidos com essas características têm levado sovas históricas em boa parte da Europa.

Basta lembrar a quase extinção do Partido Socialista francês e a surra que levou a social-democracia alemã, as duas outras grandes instituições dessa ala ideológica.

Há mais: a esquerda, se somadas às cadeiras do PSOE as obtidas pelo grupo UP (Unidas Podemos), ficou bem perto de obter a maioria absoluta das cadeiras (176), o que lhes permitiria formar governo.

Um governo de esquerda em um país europeu de grande porte quebra a hegemonia da direita e breca a ascensão de grupos como o próprio Vox, a Lega italiana, a AfD (Alternativa para a Alemanha), entre outros, que parecia algo incontrolável.

Os otimistas de esquerda até poderão sonhar que está havendo uma reversão do ciclo de avanço do nacionalismo da ultradireita e dos contraliberais. Afinal, nas duas mais recentes eleições europeias, fora a Espanha, ganhou uma liberal na Eslováquia, e a social-democracia voltou a fazer a maioria das cadeiras no Parlamento finlandês.

É cedo, no entanto, para apontar uma mudança no sinal ideológico da Europa. Só o pleito para o Parlamento Europeu, no mês que vem, poderá eventualmente dar indicações sobre o sentimento do eleitorado europeu.

Na Espanha, a vitória do PSOE, embora com maioria apenas relativa, pode, em certa medida, ser atribuída ao medo da extrema-direita.

Antes mesmo da votação, Lluís Orriols, da Universidad Carlos 3º de Madrid, escrevia, em El País: “O voto do medo [à extrema direita] tem sido tradicionalmente um poderoso agente mobilizador para o voto progressista.”

Mas o triunfo do PSOE pode ser aguado pela necessidade de compor, além de Unidas Podemos, com os partidos regionais, os catalães inclusive e principalmente, para poder formar governo.

Essa necessidade dará razão a Juan Luis Cebrián, o criador do jornal El País, quando escreveu que “qualquer que seja o resultado das urnas, a Catalunha continuará no centro do debate político e condicionará o exercício da legislatura e o porvir do regime”.

O regime ganhou neste domingo um grande voto de confiança, mas precisará fazer por merecê-lo doravante.

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