Urnas devem eleger oposição em Israel, mas manter Netanyahu no poder

Pesquisas apontam vitória de Benny Gantz mas mostram crescimento da direita

Homem empurra carrinho com pôster do premiê Binyamin Netanyahu em mercado em Jerusalém 
Homem empurra carrinho com pôster do premiê Binyamin Netanyahu em mercado em Jerusalém  - Thomas Coex/AFP
Daniela Kresch
Tel Aviv

Aficionados por séries esperam avidamente o começo da última temporada de “Game of Thrones”, em 14 de abril, para saber que líder sentará na cobiçada cadeira de ferro. Mas, em Israel, a verdadeira guerra dos tronos começa nesta terça-feira (9), quando 6,3 milhões de eleitores vão às urnas.

Será o fim de dez anos da Era Netanyahu, com suas táticas e estratégias dignas do seriado de ficção?

Tudo indica que não. A maioria dos analistas crê que o “rei Bibi”, como é chamado o premiê Binyamin Netanyahu, continuará no trono de ferro de Jerusalém, mesmo recebendo menos votos nas urnas.

As últimas pesquisas eleitorais dão a liderança em votos ao general Benny Gantz, 59, ex-chefe do Estado Maior das Forças Armadas e do recém-criado partido de centro Azul e Branco (cores da bandeira de Israel).

Ele obteria cerca de 30 das 120 cadeiras do Knesset (o Parlamento), contra cerca de 26 do Likud (direita), de Netanyahu.

Mas o sistema político israelense pode reconduzir Netanyahu ao poder. Quer dizer: o Azul e Branco pode ganhar, mas não levar.

Segundo as pesquisas, o bloco de partidos à direita no espectro político é mais robusto do que o de esquerda (numa proporção de 55% para 45%).

Se vencer no voto popular, Gantz terá de demonstrar uma habilidade política que muitos creem que não tem para forjar uma coalizão com 51% do Parlamento (61 cadeiras).

Sua experiência como chefe do Exército não teria dado a ele a cancha necessária no campo de batalha da política israelense.

Há precedentes. Em 2009, a ex-chanceler Tzipi Livni, do finado Kadima (centro), venceu com uma cadeira a mais do que o Likud. Mas ela não conseguiu costurar as alianças necessárias.

Resultado: Netanyahu, em segundo lugar, entrou em cena, alinhavou uma coalizão e foi nomeado primeiro-ministro.

Consciente disso, Gantz não esconde que busca votos da “direita light”, o que irrita seu maior eleitorado: classe média secular, liberal e de centro. Sua plataforma de governo é vaga.

Defende negociações com os palestinos —o que agrada à esquerda—, mas diz que manterá a “Lei da Nacionalidade”, que estabelece Israel como “país dos judeus” e é vista como racista pela minoria árabe. Isso agrada à direita.

O ex-paraquedista que chefiou o Exército de 2011 a 2015 impressiona com uma fala assertiva: “A hora de ele [Netanyahu] encerrar sua carreira de forma digna chegou”.

Mas o atual “rei” não se dá por derrotado, apesar de lutar contra um possível indiciamento em três casos de corrupção e enfrentar questões como o aumento do custo de vida e da desigualdade, a falta de acordo de paz com os palestinos, a violência na fronteira com Gaza, a polarização política e o desgaste geral após uma década no comando do Estado judeu. 

“Fico até quando o povo quiser e até quando tiver força”, diz Netanyahu, 69 —que quer superar o mitológico primeiro premiê David Ben-Gurion em tempo como líder do governo.

Uma de suas armas é a diplomacia. Netanyahu realizou uma blitz internacional nos últimos meses.

Além de receber o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ele se encontrou com o presidente russo, Vladimir Putin, e recebeu o apoio do presidente Donald Trump, que anunciou um inédito reconhecimento americano da soberania israelense das Colinas de Golã.

O premiê, no entanto, encara dificuldades internas. Em fevereiro, o procurador-geral de Justiça anunciou que pretende indiciar Netanyahu por acusações de suborno, fraude e quebra de confiança. Mas isso não afeta seus “soldados”.

“Netanyahu pinta isso como perseguição pela Justiça, pela mídia e pela esquerda, que querem derrubá-lo. É por isso que a questão da corrupção não funciona para tirar votos de seus apoiadores”, explica o estrategista político Moshe Gaon, que assessorou os ex-premiês Ehud Barak e Ariel Sharon.

“Para seus eleitores, melhor um trapaceiro do que um idiota.”

O que Netanyahu precisa é dos votos da extrema direita —que tenta conquistar à custa de partidos ultranacionalistas.

No sábado (7), anunciou que, se reeleito, anexará assentamentos israelenses na Cisjordânia —território reivindicado pelos palestinos para, com Gaza e Jerusalém Oriental, formar um Estado independente.

Para o Gideon Rahat, do Israel Democracy Institute, a promessa de campanha não reflete necessariamente o que Netanyahu pensa, mas um esforço para abocanhar votos: “Netanyahu não tem uma opinião firme nesse assunto. Ele acha mesmo é que o conflito deve ser gerenciado”.

Dada a experiência política do premiê, todos esperam que ele tire mais coelhos da cartola na última hora. 

Também para isso há precedentes.

Em 2015, o Partido Trabalhista, liderado por Yizthak Herzog, superava o Likud nas pesquisas.

No dia da votação, Bibi divulgou um vídeo caseiro afirmando que “os árabes” estariam “indo votar em massa” e que o governo de direita estava em perigo. O vídeo viralizou, e Likud venceu.

“Para muita gente, ouvir que se não votarem no Likud, os árabes vão nos destruir é motivo suficiente para sair de casa e votar. As emoções principais entre eleitores são medo e ódio, e Netanyahu sabe disso”, afirma Moshe Gaon.

Nesta segunda (8), Netanyahu divulgou um vídeo semelhante, acusando a mídia de demonstrar um “já ganhou” que não existe, o que deixaria seus eleitores em casa. 

“A mídia de esquerda tenta anestesiar vocês para que fiquem em casa! Não cometam esse erro! Como foram às urnas em 2015, venham agora!”, diz.

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