Uso de água para apagar chamas pode aumentar chance de colapso de estruturas

Excesso de madeira, falta de compartimentação e planta ampla da catedral de Notre-Dame dificultam combate ao fogo

Paulo Gomes
São Paulo

Para especialistas brasileiros em prevenção e combate a incêndios, o uso de água em grande quantidade no combate às chamas, depois que o fogo tomou conta do prédio inteiro, pode favorecer o colapso da edificação. 

“Se você jogar água da escada [do caminhão de bombeiros] e atingir o telhado todo por completo, poderia acontecer de a água deixar a estrutura mais pesada e destruir a construção”, afirma o capitão Marcos Palumbo, porta-voz do Corpo de Bombeiros de São Paulo.

Para Antônio Fernando Berto, chefe do Laboratório de Segurança ao Fogo e a Explosões do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), o caso da catedral parisiense não tem solução simples. “Não tem nem onde jogar água, porque, por mais que se jogue, quando [o fogo] sai do controle não tem mais o que fazer.” 

“[O volume de água] sempre vai fragilizar a estrutura, vai causar danos, mas se tiver algum efeito será no sentido de absorver calor, evitar ​​a propagação do fogo”, diz Berto. 

O engenheiro lembra que, no incêndio do Museu Nacional, também de grande proporção, “jogavam água e nem chegava ao local, pela quantidade de energia [das chamas]. É tanta energia que a água não chega a entrar na pedra”.

​Palumbo explica que, para resolver uma ocorrência de incêndio, há que se considerar os três elementos necessários para uma combustão —o oxigênio, o calor e o combustível, que no caso da Notre-Dame é a madeira. 

“Se eu jogo água, eu só combato o calor. O ideal seria aplicar espuma, porque ela não é tão pesada [o que favoreceria um desmoronamento], consegue resfriar a madeira e também abafar, tirando o contato com o oxigênio.”

O capitão usa como exemplo o caso do incêndio do Museu da Língua Portuguesa, em 2015. “Quando começou a se propagar daquele jeito, a água não estava sendo suficiente”, diz. Ele explica que foi necessário fazer uma camada de espuma em toda a torre que pegou fogo. “Ela ficou coberta de espuma na parte interna. A gente não permitiu o contato do calor do fogo com a madeira.”

A diferença de características nas plantas dos edifícios acaba sendo um complicador no caso de Notre-Dame, o que dificulta uma solução como a da espuma, segundo Palumbo. 

“Se [o combate às chamas] demorar, pode comprometer toda a edificação, principalmente quando ela é aberta, sem compartimentação.” O capitão explica que, por ser tão ampla, a catedral é um espaço próprio para a propagação do fogo. “Não tem como isolar.”

Para os especialistas, situações como a de Notre-Dame têm de ser enfrentadas no início, ou mesmo antes —com medidas de precaução— devido às características da estrutura. “Depois é quase impossível controlar”, diz Palumbo.

Quando se fala em incêndio, para o capitão dos Bombeiros, "a grande sacada é a prevenção". "Lá [na Notre-Dame] estava acontecendo alguma obra. Quando o fogo se inicia tem que ter pelo menos no começo esses materiais de combate próprios próximos, para que ele não se propague."

Mas o combate às chamas deve ser feito independentemente do estágio de gravidade. ​Ambos negam que deva se deixar a estrutura queimar sob risco de o excesso de água contribuir para um colapso.

"Tem que sempre combater [as chamas], nunca deixar a estrutura queimar. Mesmo que se chegue depois [de o fogo ter tomado o prédio], tem que fazer o combate para diminuir a temperatura e tentar preservar o restante da edificação", afirma Palumbo.

Berto concorda. "Água é o que se dispõe em grande quantidade", diz o engenheiro do IPT.

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