Descrição de chapéu BBC News Brasil Governo Bolsonaro

Viagem de Bolsonaro a Israel teve papel simbólico e poucos efeitos práticos, dizem analistas

Presidente brasileiro firmou acordos de cooperação e anunciou escritório em Jerusalém

O presidente Jair Bolsonaro discursa no Museu do Holocausto, em Jerusalém - Gali Tibbon - 2.abr.2019/AFP
BBC News Brasil

O presidente Jair Bolsonaro deve chegar a Brasília no início da noite desta quarta-feira (3), depois de uma viagem de três dias a Israel. No país, Bolsonaro visitou locais históricos, firmou acordos de cooperação e anunciou a abertura de um escritório comercial em Jerusalém. Para analistas ouvidos pela BBC News Brasil, a importância da ida a Israel foi principalmente simbólica, mas os efeitos práticos para o Brasil devem ser poucos.

Na chegada ao país do Oriente Médio no domingo (31), Bolsonaro foi recebido no aeroporto internacional Ben Gurion pelo primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu. Trata-se de uma honraria especial: nos últimos dez anos, só aconteceu cinco vezes.

No mesmo dia, Bolsonaro e Netanyahu assinaram quatro acordos de cooperação entre Brasil e Israel; um memorando de entendimento e um acordo de cooperação.

"(Foram firmados) vários instrumentos bilaterais de cooperação, nos campos da ciência e tecnologia; defesa; segurança pública; aviação civil; segurança cibernética e saúde. Ambos os governos tomarão as medidas necessárias para cumprir e implementar os acordos recém-assinados nos campos acima mencionados", disse o Itamaraty, em nota. A chancelaria disse ainda que os dois países trocarão informações sobre a produção de gás natural —os dois países são produtores desse recurso.

Na área de ciência e tecnologia, o acordo tem por objetivo "aproximar os ecossistemas de inovação brasileiro e israelense" e fomentar a vinda de startups de Israel para o Brasil.

Bolsonaro também adiou   —por enquanto, indefinidamente—  o cumprimento de sua promessa de campanha, de transferir a embaixada brasileira em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém. O gesto teria um grande peso simbólico e representaria o reconhecimento da cidade como capital de Israel, algo que contraria o entendimento atual das Nações Unidas e da maioria da comunidade internacional.

Ao invés da embaixada, Bolsonaro anunciou a criação de um escritório de negócios em Jerusalém. A cidade é reivindicada como capital também pelos palestinos.

"Tem o compromisso [de mudar a embaixada], mas meu mandato vai até 2022. E tem que fazer as coisas devagar, com calma, sem problema", disse Bolsonaro na segunda-feira.

Na segunda, Bolsonaro foi ao Muro das Lamentações —local considerado sagrado pelos judeus e que fica no lado oriental da cidade. Controlada pelos israelenses desde a Guerra dos Seis Dias (1967), essa parte da cidade é reivindicada também pela Autoridade Nacional Palestina —que quer construir ali uma futura capital de um Estado palestino, e é considerada pela ONU como área ocupada por Israel.

Em geral, os líderes de outros países que visitam Israel preferem ir ao local sozinhos, em visitas de caráter privado —justamente para que a visita não possa ser interpretada como um endosso à reivindicação israelense sobre a área. Bolsonaro visitou o Muro junto com Netanyahu. Trata-se de uma mudança na atitude brasileira em relação à questão. Mais tarde, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, negou que a visita ao muro tivesse um caráter político. O ato, segundo Araújo, "foi um momento puramente religioso".

Nesta terça-feira (2), Bolsonaro voltou a causar polêmicas ao afirmar duas vezes que o nazismo — ideologia do ditador alemão Adolf Hitler (1889-1945)—  era um movimento "de esquerda". A tese é amplamente refutada por estudiosos desse período histórico.

"Não há dúvidas (de que foi um movimento de esquerda), Partido Nacional Socialista da Alemanha", disse Bolsonaro a jornalistas, aludindo ao nome oficial do partido liderado por Hitler.

O presidente foi também ao Museu do Holocausto Yad Vashem —que como mostrou a reportagem BBC News Brasil, considera o nazismo como parte de uma onda de movimentos de direita radical que surgiram na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial.

E, na noite desta terça-feira, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente, publicou no Twitter uma notícia sobre o Hamas —uma organização israelense considerada terrorista por Israel, pelos Estados Unidos e pela União Europeia. "Quero que vocês se EXPLODAM!!!", escreveu ele. A notícia era sobre o repúdio do grupo à visita de Bolsonaro. Momentos depois, o tuíte foi apagado do perfil.

Ao saber do tuíte de Flávio —que esteve em Israel com o presidente—  o líder da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Alceu Moreira (MDB-RS), deixou o plenário da Câmara dos Deputados dizendo em voz alta: "Chega dos meninos do Bolsonaro, não dá mais". "Acabou a paciência", disse ele, dirigindo-se à líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP). Hasselman perguntou ao que ele se referia. "Não viu o Flávio falando do Hamas?", devolveu Moreira.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o setor agrário teme ser atingido pelo possível estremecimento das relações com o mundo árabe. O Brasil é o maior exportador mundial de proteína halal —carnes de animais abatidos segundo as leis islâmicas—  e teme sofrer boicote dos países árabes e do Irã, um mercado com um potencial de cerca de 1,8 bilhão de consumidores. Essas compras representam 10% do total exportado pelo setor agropecuário brasileiro. Segundo analistas, esse volume de exportações não seria facilmente substituído pelos compradores caso optassem por um boicote ao Brasil.

Visita era estratégica para Bibi, mas nem tanto para Bolsonaro

Para o professor Guilherme Casarões, da Fundação Getúlio Vargas, a data da visita foi pensada de forma estratégica para o premiê israelense Benjamin Netanyahu —que enfrentará as urnas em seu país na semana que vem. Como um líder de direita, Netanyahu viu na presença de Bolsonaro a possibilidade de criar um fato político para sua campanha—  ainda mais se o presidente brasileiro anunciasse a mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém.

"O problema é que Bolsonaro, por sua vez, está numa situação política difícil no Brasil. O governo está fraturado entre vários grupos de interesses, como evangélicos e ruralistas, e o presidente começou a pesar com mais cautela o impacto que a mudança de embaixada poderia ter", diz Casarões. Segundo o especialista, o anúncio da mudança seria importante na disputa eleitoral israelense.

"Com a decisão de abrir o escritório comercial, Bolsonaro encontrou uma solução que é ruim para todos. Desagrada quem esperava o anúncio da mudança da embaixada, tanto em Israel quanto no Brasil, e irrita também os países árabes", diz ele.

Professor de relações internacionais da FGV, Oliver Stuenkel acrescenta que falar sobre a mudança da embaixada neste momento não era obrigatório para Bolsonaro —e nem era uma demanda que o governo israelense tivesse apresentado ao brasileiro. "Bolsonaro poderia ter fortalecido sua relação com Israel sem levantar essa questão da mudança da embaixada. No fim, foi um problema que ele criou para si mesmo", diz ele.

No começo da semana, Bolsonaro foi cobrado pelo deputado e pastor evangélico Marco Feliciano (PSC-SP). "Respeito a abertura do escritório, porém o segmento evangélico, um terço do eleitorado brasileiro, que deu uma vantagem de 11 milhões de votos ao presidente Jair Bolsonaro (...) confia que ele cumprirá sua palavra e em breve mudará a embaixada", escreveu ele no Twitter.

Postergar a mudança "foi uma vitória do grupo mais pragmático, formado por ruralistas e militares, que desde a campanha falavam sobre o risco que uma eventual mudança poderia ter para as relações com os países árabes", diz Casarões.

A viagem, avalia Stuenkel, teve por finalidade "entregar algo que parte do eleitorado de Bolsonaro estava pedindo" e projetar uma imagem para o resto da comunidade internacional de proximidade com Israel. "Mas, na política, é complicado entregar algo a um determinado grupo às custas de outro, como o setor agrícola brasileiro, que está preocupadíssimo com as repercussões (da viagem) junto aos países árabes e muçulmanos", diz.

"Foi uma viagem de caráter mais simbólico, mais que substancial. Houve acordos na área de energia, de startups, mas a relevância que isto terá ainda é incerta", diz Stuenkel.

 

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