A Índia é um país que cresce muito? Só se as estatísticas estiverem certas

Gestão do premiê Narendra Modi é acusada de maquiar dados de desemprego e PIB

Patrícia Campos Mello
Déli

A Índia, um dos países com maior tradição em estatísticas confiáveis, está sendo acusada de maquiar os números de desemprego e do crescimento do PIB do país.

O governo do premiê Narendra Modi é questionado por especialistas e até pela economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), e a oposição o acusa de inflar o crescimento do PIB. 

Apoiadores do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, durante comício eleitoral em Nova Déli
Apoiadores do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, durante comício eleitoral em Nova Déli - Money Sharma - 8.mai.19/AFP

Modi também teria escondido estatísticas que revelam o maior nível de desemprego em 45 anos. Segundo eles, essa seria uma tentativa do primeiro-ministro, em campanha eleitoral, de mostrar que a economia está bem melhor do que nos governos anteriores.

Em março, um grupo de 108 economistas divulgou uma carta acusando o governo de “interferência política” nas estatísticas. A principal crítica eram as revisões para cima do PIB nos anos da gestão Modi —de 2015 para 2017, o crescimento foi de 7,1% para 8,2%, maior alta da história.

“Todas as estatísticas que põem em dúvida as conquistas do governo são revisadas ou suprimidas”, diz a carta. “A reputação dos órgãos estatísticos da Índia está em risco.”

O ministro das Finanças, Arun Jaitley, criticou os economistas em um texto publicado em uma rede social. “Analisei as credenciais dos 108 e descobri que 70% são críticos compulsivos do governo, que assinaram vários memorandos contra a atual administração.”

Em entrevista à Folha, o economista R. Nagaraj, um dos signatários da carta e um dos primeiros a apontar inconsistências na nova contabilidade do PIB, comparou o governo Modi à gestão da ex-presidente argentina Cristina Kirchner.

“É muito parecido com o que Cristina Kirchner fez na Argentina com as estatísticas de inflação”, diz, referindo-se à interferência da ex-presidente no órgão de estatísticas do país para mascarar a alta da inflação. 

“E, na Índia, onde temos uma tradição em estatísticas, essa maquiagem dos números é especialmente condenável”, diz o professor de economia do Instituto de Pesquisas de Desenvolvimento Indira Gandhi, ligado ao Banco Central do país.

Em dezembro, a pesquisa sobre desemprego deixou de ser divulgada pelo governo. Mas o levantamento, que mostrava o maior índice em 45 anos, vazou. Em 2017 e 2018, a taxa foi a 6,1%.

O número não parece grande se comparado ao Brasil, que registrou desemprego de 12,7% em março. Mas, na Índia, onde a grande maioria das pessoas tem empregos informais, que entram na categoria de subempregos ou desemprego oculto, um índice de 6,1% é muito preocupante.

O governo disse que decidiu não divulgar o levantamento porque os dados não são comparáveis. Mas PC Mohanan, que era o presidente do órgão de supervisão de estatísticas do governo, pediu demissão, em protesto, dizendo que “as estatísticas estão sendo usadas como um instrumento político”.

Nesta semana, a controvérsia em relação aos números do PIB voltou ao foco devido à divulgação de um relatório do próprio órgão de estatísticas, que confirma questionamentos dos economistas.

Como só uma minoria das empresas indianas declara seu faturamento, o governo usa uma lista de estabelecimentos para estimar o PIB. Mas o estudo mostrou que quase 36% das empresas elencadas pelo governo para estimar o índice não existiam ou eram de fachada.

O ministério das Finanças, por sua vez, afirmou que ajustes estão sendo feitos e que isso não muda a estimativa.

“Nós economistas estávamos céticos há muito tempo com essas revisões para cima do PIB feitas pelo governo Modi. Agora, essa divulgação confirma nossas desconfianças”, diz Nagaraj.

Investidores e economistas do mercado financeiro têm recorrido de forma crescente a seus próprios levantamentos de avanço do PIB e inflação, usando indicadores alternativos, como vendas de automóveis e carga, porque não confiam nas estatísticas oficiais.

Até o ex-presidente do Banco Central, Raghuram Rajan, que atuou no início do governo Modi, questionou os números.

“Um ministro do governo questionou: como podemos crescer 7% se não temos empregos? Talvez seja porque não estamos crescendo 7%.”

Modi deu de ombros para a controvérsia e continuou comemorando o avanço do PIB da Índia, um dos países que mais crescem no mundo —caso as estatísticas estejam corretas. “É motivo de orgulho que agências globais como Banco Mundial e FMI sejam unânimes ao dizer que a Índia é o país que mais cresce entre as grandes economias do mundo.”

Dias após a declaração do premiê, a economista-chefe do FMI, Gita Gopinath, elogiou a tentativa de modernização do cálculo do PIB do país, mas disse que “há questões que ainda precisam ser consertadas”.

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