Descrição de chapéu The New York Times

Após 511 dias presos em Mianmar, jornalistas da Reuters são liberados

Wa Lone, 33, e Kyaw Soe Oo, 29, foram detidos enquanto cobriam o massacre dos rohingyas

Mike Ives Russel Goldman
Hong Kong | The New York Times

Dois jornalistas premiados da agência de notícias Reuters foram libertados da prisão em Mianmar  nesta terça-feira (7), depois de mais de um ano de detenção por sua cobertura do massacre contra a minoria étnica rohingya, pondo fim a um drama que atraiu a atenção do planeta à líder civil do país, Aung San Suu Kyi.

Os dois jornalistas, U Wa Lone, 33, e U Kyaw Soe Oo, 29, foram detidos em dezembro de 2017.

Os repórteres da agência Reuters Wa Lone e Kyaw Soe Oo cumprimentam jornalistas ao sair da prisão
Os repórteres da agência Reuters Wa Lone e Kyaw Soe Oo cumprimentam jornalistas ao sair da prisão - Ann Wang/AFP

Em setembro de 2018, eles foram condenados a sete anos de prisão por violação da Lei de Segredos Oficiais, um estatuto da era colonial. Eles tinham recebido documentos entregues por um policial como parte de sua investigação sobre o massacre de 10 aldeões rohingyas, em 2017.

Os dois, e seus colegas da Reuters, receberam em abril o Prêmio Pulitzer de reportagem internacional, uma das honrarias mais cobiçadas e prestigiadas do jornalismo mundial.

Na manhã de terça-feira, eles foram cercados por uma multidão de repórteres ao deixarem a prisão de Yangon, a maior cidade do país. Os dois estavam sorrindo ao deixar o local, caminhando sob a luz do sol. Wa fez um sinal de positivo com o polegar.

"Estou realmente muito feliz e empolgado por ver minha família e meus colegas", disse Wa Lone aos jornalistas. "Mal posso esperar para voltar à Redação".

Stephen Adler, editor-chefe da Reuters, elogiou os dois em comunicado descrevendo-os como "repórteres corajosos".

"Desde sua prisão, 511 dias atrás, eles se tornaram símbolos da importância da liberdade de imprensa em todo o mundo", disse Adler. "Recebemos seu retorno com alegria".

Os dois repórteres foram libertados como parte de um perdão presidencial que resultou na soltura de mais de 6.000 prisioneiros.

O caso deles se tornou uma causa célebre internacional, com jornalistas, ativistas dos direitos humanos e líderes mundiais apelando por sua libertação.

E sua prisão, assim como o conflito étnico que estavam cobrindo, causou uma reviravolta na percepção do Ocidente sobre Suu Kyi, ganhadora do prêmio Nobel da Paz e antiga prisioneira política que costumava ser vista como força na luta pela democracia e pela tolerância.

Quando ela se tornou a líder civil do país, em 2016, com a vitória esmagadora de seu partido em eleições históricas no ano anterior, muita gente em Mianmar e no exterior acreditava ela que promoveria esses valores ao assumir.

Em lugar disso, ela em muitos casos se aliou às Forças Armadas, que compartilham do poder com os líderes civis sob a Constituição que os próprios militares impuseram ao país.

Em 2017, as Forças Armadas iniciaram uma campanha, definida pela ONU como genocídio, contra o povo rohingya, uma minoria étnica muçulmana que vive no estado de Rakhine, no oeste do país, há gerações.

A campanha causou uma forte reação no cenário internacional. Os militares mataram milhares de pessoas, queimaram aldeias, estupraram mulheres e meninas e causaram a fuga de mais de 750 mil pessoas para Bangladesh, onde elas hoje vivem em campos de refugiados.

As Nações Unidas afirmam que os comandantes das forças armadas de Mianmar deveriam ser investigados por possível genocídio. 

Suu Kyi também vem comandando desde 2016 o que ativistas dos direitos humanos definem como uma campanha de repressão à liberdade de expressão. Desde que o partido dela assumiu o poder, o número de jornalistas presos em Mianmar subiu a 43, de acordo com um recente relatório da organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch.

A detenção de Wa Lone e Kyaw Soe Oo, condenados por violarem a lei de segredos de Estado, foi interpretada como amostra grave dessas medidas repressivas.

Os advogados de defesa dos jornalistas afirmaram que as provas do caso foram plantadas pela polícia, e que os documentos que eles receberam, em forma de rolos de papel, continham informação de domínio público. Os jornalistas depuseram no julgamento que sua prisão foi tão rápida que não puderam nem olhar os documentos.

Em abril, eles tiveram seu último recurso rejeitado pela Corte Suprema de Mianmar. Depois da decisão, um de seus advogados disse que a última chance de libertação para eles seria um apelo ao Legislativo do país ou ao seu presidente, U Win Myint.

Na terça-feira, U Khin Maung Zaw, advogado dos jornalistas, agradeceu Win Myint por libertar seus clientes. "Ele realizou as esperanças da comunidade internacional e as dos familiares dos réus".

Chit Su Win, mulher de Kyaw Soe Oo, agradeceu o governo por libertar seu marido e o colega dele, e disse que não guardaria rancor das autoridades.

"Não tenho palavras para expressar minha felicidade", ela disse.

Enquanto isso, elogios à libertação de Wa Lone e Kyaw Soe Oo surgiram em todo o mundo.

O escritório da ONU em Mianmar afirmou em comunicado que recebia a libertação positivamente e a via como um passo no avanço para a liberdade de imprensa e como sinal do "compromisso do governo para com a transição de Mianmar à democracia".

Suzanne Nossel, presidente-executiva da PEN America, uma organização sem fins lucrativos que defende a liberdade de expressão, escreveu em mensagem no Twitter que os jornalistas tinham sido corajosos por jamais vacilarem em suas declarações de inocência.

"Eles têm carreiras longas e importantes à sua frente, executando o trabalho essencial de solicitar prestações de contas ao novo governo de Mianmar e manter o público do país bem informado, como ele merece".

Phil Robertson, diretor adjunto da Human Rights Watch na Ásia, disse que embora tenha recebido positivamente a notícia da libertação dos jornalistas, dezenas de outros jornalistas e blogueiros continuavam a enfrentar o que ele definiu como acusações criminais "infundadas" no país, por suas reportagens sobre as forças armadas e dirigentes do partido político de Suu Kyi, a Liga Nacional pela Democracia.

Zaw Htay, porta-voz de Suu Kyi, não estava imediatamente disponível para comentar, na manhã da terça-feira.

Tradução de Paulo Migliacci

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