Com vitória de Modi, líderes antimuçulmanos ganham espaço na Índia

Braço direito do premiê comparou islâmicos a cupins; mentora de atentado é eleita

João Perassolo
São Paulo

​Com a nova vitória do premiê Narendra Modi nas eleições indianas, analistas dizem que o país está entrando em uma era de nacionalismo hindu, na qual os líderes políticos de destaque têm um discurso virulento contra a minoria religiosa dos 170 milhões de muçulmanos da nação.

Uma destas figuras é Amit Shah, 54, apontado como o estrategista da vitória avassaladora da coalizão do primeiro-ministro. Natural do estado de Gujarat, o mesmo de Modi, Shah liderou o partido vencedor (BJP) pelos últimos cinco anos.

O presidente do partido BJP, Amit Shah - Prakash Singh/AFP

Durante a campanha, ele fomentou o sentimento nacionalista ao acusar a oposição de agradar aos muçulmanos da Bengala Ocidental com financiamento a clérigos e a escolas religiosas que teriam transformado o estado em uma réplica do vizinho Bangladesh, país de maioria islâmica e fonte de imigrantes ilegais.

No mês passado, o político iniciou uma campanha contra imigrantes muçulmanos, comparando-os a cupins. Em paralelo, apoiava medidas de cidadania para minorias budistas, hindus e sikhs oriundos dos vizinhos Afeganistão, Bangladesh e Paquistão.

O trofeu de Shah deve ser um cargo no alto escalão do novo governo.

 
Pragya Thakur, que foi presa por terrorismo - Raj Patidar/ Reuters

Já Sadhvi Pragya Thakur, 49, ganhará um assento na câmara baixa da cidade de Bhopal tendo um passado contencioso. Ela foi acusada de ser a mentora de um atentado em setembro de 2008 em uma região muçulmana no pequeno município de Malegaon, a oeste do país.

Junto a outros oito suspeitos, Shah teria detonado dois explosivos presos a uma motocicleta, matando seis pessoas —todos muçulmanos— e ferindo cem. O veículo estava registrado em seu nome.

Thakur foi presa logo em seguida sob acusações de terrorismo.

Nos anos seguintes, ela protocolou diversos pedidos de fiança para a Justiça, mas só conseguiu sair em 2017, alegando questões de saúde e após a maior parte das acusações contra ela ter sido descartada.

Seu principal argumento para a corte era sofrer de um tipo agressivo de câncer de mama, do qual afirma ter se curado. “Eu era uma paciente de câncer e me curei ingerindo urina de vaca e ‘panchgavya’”, disse recentemente à televisão India Today. O composto, uma mistura de urina, leite e esterco bovino com os derivados ghee e coalhada, é usado em rituais hindus e na medicina aiurvédica.

No entanto, a candidata omite que passou por três cirurgias nos anos seguintes ao diagnóstico, até que finalmente teve as duas mamas removidas pelo médico S.S. Rajput em 2017.

Nisar Ahmed Sayyed Billal, o pai de uma das vítimas do atentado, entrou na justiça de Mumbai para tentar barrar a candidatura, mas a corte argumentou que não tinha jurisdição para impedir que Thakur concorresse.

 
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