Como está o conflito Israel-Palestina um ano após transferência da embaixada dos EUA

Ainda perduram dúvidas sobre as consequências imediatas e futuras dessa decisão

Prédio destruído por bombardeio na cidade palestina de Gaza, no início de maio de 2019
Prédio destruído por bombardeio na cidade palestina de Gaza, no início de maio de 2019 - Mahmud Hams/AFP
Jerusalém | AFP

Em 14 de maio de 2018, os Estados Unidos abriram sua embaixada em Jerusalém, um terremoto diplomático que coincidiu com uma explosão de violência na Faixa de Gaza.

Um ano depois, ainda perduram dúvidas sobre as consequências imediatas e futuras dessa decisão no conflito entre Israel e Palestina.

O que acontece em Jerusalém?

A transferência oficial da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém concretizou uma das mais controversas promessas de campanha do presidente Donald Trump: o reconhecimento, anunciado em dezembro de 2017, da cidade como capital de Israel, rompendo um consenso internacional.

Para Israel, é o reconhecimento "histórico" de uma ligação de 3.000 anos entre o povo judeu e Jerusalém. Os palestinos, que querem fazer da parte oriental da cidade a capital do Estado que almejam, ficaram indignados.

O status de Jerusalém está em disputa desde a criação de Israel em 1948 e a guerra que a acompanhou. Israel anexou Jerusalém Oriental em 1967, e a ONU considera que Jerusalém Oriental está ocupada. Os países com sede diplomática em Israel mantêm sua embaixada fora da cidade até que esse status seja negociado.

E em Gaza?

Desde março de 2018, palestinos protestam na fronteira entre Gaza e Israel pelo o que consideram seu direito de voltar às terras de onde fugiram ou foram expulsos com a criação do Estado israelense. Eles também são contrários ao bloqueio imposto pelos hebreus para conter o Hamas, que governa o enclave. 

Esses protestos são chamados de "Marchas do retorno", movimento pacífico, nascido na sociedade civil, de acordo com o Hamas. Para Israel, trata-se de uma violenta instrumentalização de parte do movimento islâmico. 

Em 14 de maio de 2018, as marchas protestaram contra a transferência da embaixada e lembraram do "Nakba", o êxodo que a criação de Israel em 14 de maio de 1948 gerou aos palestinos. Pelo menos 62 palestinos foram mortos em manifestações e confrontos com soldados israelenses.

Qual o contexto atual?

Um conflito entre Israel e Palestina sem resolução por décadas e iniciativas diplomáticas estagnadas desde 2014. 

O Hamas rejeita a existência de Israel e teve três guerras com o Estado hebreu desde 2008. A ocupação israelense na Cisjordânia também persiste. 

Donald Trump prometeu ser o presidente mais pró-Israel na história dos Estados Unidos. Desde que chegou à Casa Branca, seu governo multiplicou as manifestações pró-israelenses e as queixas contra os palestinos.

Quais foram os efeitos da medida?

Dois dias depois dos Estados Unidos, a Guatemala anunciou a transferência de sua embaixada para Jerusalém. O Paraguai fez o mesmo, mas voltou atrás em setembro, após uma mudança de governo. Outros países afirmaram sua intenção de imitar os Estados Unidos, como o Brasil, mas não concretizaram a medida.

O caos esperado após a transferência não se concretizou, afirma o porta-voz do ministério israelense de Relações Exteriores, Emmanuel Nahshon. Quanto ao efeito sobre os esforços de paz com os palestinos, "há anos que não há processo de paz", declarou.

Para os palestinos, as relações com os Estados Unidos atravessam "o pior período de sua história", disse Ahmed Majdalani, conselheiro do presidente Mahmud Abbas. 

As iniciativas americanas sobre Jerusalém tiveram "grande impacto" e, em um ano, o governo Trump passou "do status de intermediário parcial para o de defensor da ocupação" israelense.

E agora?

Autoridades palestinas suspenderam contatos oficiais com o governo dos EUA em dezembro de 2017. Eles rejeitam antecipadamente o plano do genro e conselheiro de Trump, Jared Kushner, para fechar um acordo diplomático "final" desejado pela Casa Branca. 

As decisões sobre Jerusalém produziram "o efeito desejado em termos de política interna dos EUA", agradando uma parte do eleitorado de Trump, diz Hugh Lovatt, analista do Conselho Europeu de Relações Exteriores. 

Mas elas têm "um impacto negativo em seu futuro plano de paz. É mais difícil agora que os países do Golfo o apoiem, porque Jerusalém Oriental é um limite", explica.

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