Como um exército de guerreiros digitais ajudou Modi a vencer a eleição na Índia

WhatsApp é só uma das armas do partido para disseminar propaganda e conquistar eleitores

Patrícia Campos Mello
Nova Déli

Quem pensa que o WhatsApp é a única arma digital do primeiro-ministro indiano Narendra Modi para ganhar eleições está enganado.

Os guerreiros cibernéticos de Modi —ou cyber yodhas, como são chamados em seu partido— dispõem de um arsenal muito mais sofisticado e diversificado para conquistar votos nas redes sociais.

Indianos com celulares no estado de Punjab - Narinder Nanu - 29.ago.2017/AFP

Amit Shah, presidente do BJP, partido do premiê, conclamou seus cyber yodhas a se engajarem no esforço dos governistas para microdirecionar a propaganda política —reunir uma infinidade de dados sobre cada eleitor e customizar a mensagem que cada grupo receberá, tornando a comunicação mais eficiente.

“O primeiro passo é coletar dados de todos os programas de ajuda do governo no nível estadual e distrital. O segundo passo é comparar os dados com os do governo anterior. O terceiro passo é criar conteúdo que tenha apelo para esses eleitores”, disse Shah em Jaipur, em julho de 2018, a voluntários e funcionários do partido, segundo o jornal Times of India.

“Nossos guerreiros cibernéticos criaram milhares de grupos de WhatsApp para disseminar nossa missão no estado (Rajastão). O papel deles não se restringia a compartilhar informações, mas também a combater a desinformação espalhada pela mídia.”

O BJP não perdeu tempo. Em Déli, acessou endereços de 500 mil beneficiários de um programa de qualificação de jovens. Visitaram as casas deles e pediram votos, além de microdirecionar mensagens de WhatsApp para eles. 

Também estão requisitando acesso aos dados dos beneficiários de subsídio governamental de gás e eletricidade.

O partido argumenta que qualquer legenda pode pedir esses dados ao governo. Por enquanto, só o BJP fez isso.

“Segmenta-se a população em grupos, como mulheres cristãs, de 20 a 40 anos, que moram em certa região —e manda-se a mensagem que será a mais eficiente para esse grupo”, disse à Folha Shivam Shankar Singh, que trabalhou na estratégia digital do BJP no estado de Tripura e é autor do livro “How to win an Indian election- What political parties don’t want you to know” (como ganhar uma eleição indiana - o que partidos políticos não querem que você saiba, em tradução livre).

Grande parte desses dados está disponível publicamente, basta saber “raspá-los”. As autoridades eleitorais disponibilizam listas de eleitores, com nomes, idades e endereços. Com isso, podem se depreender gênero, casta e religião (pelo sobrenome) e se é rural ou urbano (endereço).

Listas com nomes e telefones são amplamente comercializadas no mercado paralelo. Para determinar a faixa de renda da pessoa, usa-se o valor das contas de luz. Junte-se a isso programas de benefícios do governo, e os partidos têm uma infinidade de dados.

Nas redes sociais, os partidos avaliam os temas que mais reverberam com cada grupo —observando, por exemplo, em que anúncios as pessoas mais clicam. “Aí basta mandar uma mensagem para um grupo de homens de certa faixa etária, de uma certa casta, dizendo que, se elegerem fulano, ele vai acabar o programa de assistência que as beneficia porque tudo irá para uma outra casta”, exemplifica Singh.

Ao segmentar as mensagens, diz ele, o BJP pôde se mostrar aos eleitores de Uttar Pradesh, estado mais religioso do cinturão hindu, como forte defensor das vacas, enquanto suavizou essa mensagem no nordeste do país, onde o tema preocupa menos. 

Segundo Singh, em 2014, o BJP tinha apenas cerca de 9 a 10 mil grupos de WhatsApp.

Nos anos seguintes, o partido foi montando uma estrutura maciça de grupos. Só em um estado, Karnataka, eram 25 mil na véspera da eleição estadual, em maio de 2018.

 

Tanto que o diretor de TI do BJP, Amit Malviya, afirmou ao Economic Times, em agosto do ano passado: “As eleições serão disputadas nos celulares. De certa maneira, pode-se dizer que serão as eleições do WhatsApp.” 

A ideia é que, bombardeados por essas mensagens, os eleitores acabem repassando -as para amigos e familiares no WhatsApp, e os temas passem a fazer parte das conversas diárias, moldando a narrativa.

Neste ano, por exemplo, o BJP torpedeou as redes sociais com mensagens sobre o ataque cirúrgico de Modi contra o campo de terroristas no Paquistão, em fevereiro, e seu nacionalismo e defesa da pátria.

Resultado: conseguiu reduzir o foco em temas prejudiciais a ele, como desemprego e crise no campo.

Segundo Vijay Chauthaiwale, diretor de relações internacionais do BJP, o WhatsApp ainda é o instrumento mais potente de que o partido dispõe. 

“Temos dezenas de milhares de grupos no país, não sei precisar o número; usamos para nos comunicar com apoiadores e voluntários. E o partido tem 110 milhões de filiados. Destes, entre 50 e 60 milhões estão atualmente envolvidos com atividades de mídias sociais, em menor ou maior grau”, disse à Folha.

Além disso, diz ele, a maior parte dos 30,9 milhões de expatriados indianos apoiam Modi, e cerca de metade ainda tem passaporte indiano, ou seja, podem votar. São os mais ativos nas redes sociais.

O BJP foi o primeiro partido da Índia a entender a importância dessas tecnologias. Mesmo antes de 2014, já tinha enorme presença nas mídias sociais —o próprio Modi sempre foi ávido usuário. 

Em 2014 começaram a recolher dados maciçamente. Com a campanha “Ligação Perdida”, eleitores podiam se inscrever no BJP com uma simples ligação para um número que encerrava a chamada automaticamente —e assim foram coletados milhões de contatos telefônicos.

As legendas da oposição, como o Partido do Congresso, dormiram no ponto e não se dedicaram tanto à estratégia digital, mas vêm tentando recuperar o tempo perdido.

Nesta eleição, cerca de 20% dos orçamentos de marketing dos partidos foi para mídias sociais. Na próxima, serão 60%”, aposta Hitesh Chawla, presidente da Silverpush, empresa que cuida do marketing digital do Congresso.


A internet na Índia

604 milhões de usuários de internet na Índia

97% da população na zona urbana tem acesso

46% dos moradores da zona rural usam a rede

7% é o crescimento trimestral do número de usuários

265 milhões usam YouTube
 
230 milhões usam WhatsApp

210 a 220 milhões usam Facebook

70 milhões usam Instagram

50 milhões usam Twitter 


Entre fevereiro e maio, os partidos gastaram mais de 530 milhões de rúpias (US$ 7,6 milhões) em anúncios em mídias sociais, segundo a divulgação das plataformas. O BJP foi o maior anunciante, respondendo por 60% do gasto total —seis vezes mais do que o Partido do Congresso.

Chawla diz fazer direcionamento para grupos muito específicos, de 500 pessoas, por exemplo. “O que funciona é o constante bombardeio de determinada mensagem, de várias fontes e por várias mídias, sociais e tradicionais: é preciso criar onipresença”, afirma.

Mas essa segmentação de eleitorado também é usada para fins menos republicanos. “Muitas vezes usam para criar polarização, voltar grupos contra outros”, diz Singh.

Uma das fake news na campanha era a de que a população muçulmana ultrapassará a hindu em 15 anos.

A informação é falsa e gera reação hostil a muçulmanos (que representam 16% da população).

Os exércitos cibernéticos de Modi são formados tanto por voluntários como por empregados.  Dono de uma lojinha de celular, Kishav Dev, 34, é voluntário. Ele passa cinco horas por dia compartilhando notícias sobre Modi e contra a oposição ou muçulmanos no Facebook e no WhatsApp. Mora num bairro pobre de Déli. 

“Tenho bastante tempo livre na loja, e aproveito para ajudar nosso país nas redes sociais”. “Não compartilho nada que pareça ser fake news. Compartilho muita coisa que a mídia não mostra.”
Dev é membro da Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), a organização fundamentalista hindu que apoia o BJP, e de onde veio o primeiro-ministro.

Segundo a jornalista Swati Chaturvedi, muitos apoiadores do partido são orientados a difamar líderes da oposição e jornalistas nas redes. 

“Os trolls recebiam mensagens por WhastApp com orientações sobre o que deveriam tuitar e quais as metas para elevar hashtags aos trending topics. Isso foi ampliado durante o governo”, diz Chaturvedi, autora do livro “I Am a Troll – Inside the Secret World of the BJP’s Digital Army” (eu sou um troll - dentro do mundo secreto do exército digital do BJP, em tradução livre).

Ela mesma é alvo constante de ataques nas redes.

Um dos responsáveis pela explosão da internet na Índia é o empresário Mukesh Ambani, o homem mais rico do país. Em 2016, ele lançou a empresa de telefonia Reliance Jio com uma oferta quase inacreditável: um celular com acesso a aplicativos como Facebook e, mais tarde, WhatsApp (e o app de Narendra Modi) por US$ 21, com seis meses de dados e ligações ilimitados, de graça. 

Em dois anos, a Jio se tornou a terceira empresa de telefonia do país, com 280 milhões de clientes. Além disso, o mercado indiano foi inundado de smartphones chineses muito baratos. Resultado: o número de indianos acessando a internet explodiu, chegando a 604 milhões.

Aumentou também a pressão por regulamentação, levando as principais plataformas a anunciarem, em março, um código de ética voluntário. Facebook, Google, Twitter, Sharechat, Bigo, Bytedance e Whatsapp se comprometeram a criar equipes para as eleições e a monitorar irregularidades. Estabeleceram que, 48 horas antes das votações, nenhuma campanha poderia ser feita nas redes sociais.

“Esse código de conduta é como por um band-aid em um ferimento a bala”, diz Apar Gupta, diretor executivo da Internet Freedom Foundation. “Precisa existir regulamentação firme para propaganda política nas redes sociais, como existe para TVs e jornais.”

O WhatsApp, no qual a circulação de fake news já levou a 30 linchamentos no país, sofre ainda mais pressão, e o governo estuda obrigar a plataforma a rastrear conteúdos e a ajudar em investigações. 

A plataforma mudou seu sistema. Agora, pode-se determinar nas configurações quem pode adicionar o usuário a grupos, para que ele não seja adicionado involuntariamente. Administradores determinam quem pode enviar mensagens dentro de cada grupo, e há um número para receber denúncias de fake news.

Além disso, o aplicativo acusa políticos indianos de violar suas regras ao usarem a plataforma para disparos em massa de mensagens para eleitores —como ocorreu no Brasil.

A comissão eleitoral tenta fazer avanços. Baixou uma circular orientando as autoridades estaduais a monitorar todos os gastos feitos por partidos em mídias sociais e verificar se foramfe declarados.

Mas os indianos ainda não resolveram o nó de como contabilizar gastos em anúncios em mídias sociais feitos por terceiros a favor de candidatos —o tema continua em análise pela comissão eleitoral.

De acordo com Gupta, não existe uma legislação específica para privacidade de dados na Índia, e o microdirecionamento só vai se acentuar.

S. Y. Quraishi, ex-presidente da Comissão Eleitoral do país, defende mais regulamentação, mas sem violar a liberdade de expressão —um equilíbrio delicado. “No início, as plataformas estavam totalmente na defensiva; agora, começam a se comprometer a derrubar conteúdo fake”, diz.

Para Singh, a checagem de notícias é necessária, mas não chega às pessoas que acreditam e disseminam fake news. “Soluções virão de tecnologias, e não de intervenção do governo ou leis.”

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