Descrição de chapéu Venezuela

Contra retomada de protestos, Maduro volta a endurecer censura

Regime recorre a ataques contra jornalistas e dificulta o funcionamento de sites independentes

Sylvia Colombo
Caracas

O ditador Nicolás Maduro voltou a endurecer a censura na Venezuela em meio a retomada dos protestos da oposição contra seu regime.

Foi, assim, mais uma semana difícil para os que ainda defendem a liberdade de expressão no país, mesmo após tantos anos de perseguição a jornalistas nacionais e estrangeiros, expropriação de emissoras de TV e sufoco financeiro aos grandes jornais --o que fez muitos deles serem comprados por apoiadores do chavismo.

Segundo o Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa (SNTP), apenas na quarta-feira (1º) foram doze jornalistas vítimas de ataques e prisões. Ao longo da semana, foram 60, incluindo as deportações de jornalistas estrangeiros que tentaram entrar no país às pressas por conta dos acontecimentos de terça-feira (30).

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O ditador Nicolás Maduro discursa para militares venezuelanos neste domingo (5) em Caracas - Divulgação / Ministério da Defesa da Venezuela

Neste dia, o líder opositor Juan Guaidó apareceu num surpreendente vídeo gravado em uma base militar de Caracas ao lado de Leopoldo López —que até então estava em prisão domiciliar.

Ao lado de militares dissidentes, os dois opositores estimularam as pessoas a saírem às ruas para pedir a adesão das Forças Armadas ao movimento para derrubar o ditador.

Apesar do fracasso no objetivo, ambos conseguiram encher as ruas de Caracas e causar, pelo menos por algumas horas, a sensação generalizada de que o regime tinha horas contadas. Maduro e seus aliados tiveram que responder com uma repressão brutal para impedir que isso acontecesse.

Isso fez com que muitos jornalistas fossem às ruas para acompanhar o que acontecia e também acabassem se tornando alvo da repressão —especialmente os correspondentes estrangeiros e os profissionais de meios digitais independentes.

Em um sinal de solidariedade, no final da tarde de terça muitos jornalistas se dirigiram para a clínica El Ávila para saber como estavam três colegas internados no local.

A clínica, que fica a poucos metros da praça Altamira, onde ocorrem muitas das manifestações anti-regime, é conhecida por atender gratuitamente os perseguidos e feridos pela GNB (Guarda Nacional Bolivariana), Exército, FAES (Forças Armadas Especiais da Venezuela) e coletivos, os distintos braços da repressão da ditadura.

O que estava em estado mais grave era Gregory Jaimes, um repórter do canal digital VPI, conhecido por transmitir ao vivo praticamente todos os eventos em que Guaidó está presente, assim como as manifestações anti-Maduro.

Jaimes contou à Folha e a outros colegas que havia sido atingido na cara por uma bala de borracha no momento em que estava na praça Altamira transmitindo ao vivo a chegada violenta da GNB ao local.

A clínica por algumas horas se transformou em centro de troca de informações sobre o paradeiro e a segurança dos demais jornalistas atuando na Venezuela, já que a comunicação não é fácil no país --os grupos de WhatsApp que conectam a maioria dos jornalistas independentes também tiveram bastante atividade durante a semana.

Na terça também foi cortado o acesso a redes sociais e a diversos sites, bloqueio que continuou na quarta. No mesmo dia, uma dupla de jornalistas espanhóis foi detida dentro de um hotel em Chuao e depois deportada. Foram ainda derrubadas as transmissões da rádio Caracas e das redes de TV CNN (em inglês e em espanhol) e BBC.

A situação fez a ONU emitir um nota em solidariedade à imprensa. "Nenhuma democracia está completa sem acesso a uma informação transparente e confiável", disse o secretário-geral, António Guterres, em Genebra, na Suíça.

Apesar da perseguição, alguns veículos independentes ainda conseguem sobreviver no país, como os sites La Patilla, Efecto Cocuyo e El Pitazo.

Luz Mely Reyes, uma das principais jornalistas da Venezuela e uma das fundadoras do Efecto Cocuyo, sai e entra do país com frequência, por conta de ameaças que recebe do Sebin (Serviço de Inteligência Bolivariana).

Outra das fundadoras do site, Laura Weffer, se mudou de vez para Miami. "Nós, jornalistas, somos muito frágeis. Ainda que acreditemos que o jornalismo tem muito poder, diante desses poderes estabelecidos e ditatoriais, é difícil manter-se ativo", afirma.

Para Cezar Batoz, do El Pitazo, o jornalista independente venezuelano "sabe de suas limitações e dos riscos que corre, mas tem em casa uma família que luta para sobreviver, amigos que precisam de ajuda ou estão doentes, e isso é o que nos move."

A estratégia do regime contra esses sites têm sido perseguir os jornalistas ou cortar por horas ou até dias seu acesso à internet ou o fornecimento de água e luz. Mas por ora eles têm conseguido atuar e se se manter como as fontes mais confiáveis de informação na Venezuela.

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