Social-democrata vence candidato de direita e é eleito presidente do Panamá

Laurentino Cortizo derrotou Rómulo Roux, que teve apoio de ex-presidente que está preso

Cidade do Panamá | AFP

O social-democrata Laurentino Cortizo venceu a eleição presidencial de domingo (5) no Panamá, com uma vantagem de dois pontos sobre o candidato de direita Rómulo Roux, que era apoiado pelo ex-presidente Ricardo Martinelli, atualmente na prisão.

Cortizo colocou como principal objetivo resgatar a imagem do país, contaminada pelo escândalo dos Panama Papers e presente em várias listas de paraísos fiscais.

"Dos 125 compromissos que temos no plano de ação, o primeiro fala sobre resgatar o nome do Panamá", disse Cortizo horas antes de vencer as eleições.

O novo presidente do Panamá, Laurentino Cortizo, discursa após a vitória - Johan Ordonez/AFP

Após a vitória, ele endureceu seu discurso e disse que iria "defender" e "respeitar" os interesses do país.

Aos 66 anos, este empresário e fazendeiro, conhecido como "Nito", venceu as eleições com apenas 40 mil votos a mais do que o direitista Rómulo Roux, apoiado da prisão pelo ex-presidente Ricardo Martinelli, julgado sob acusação de espionar opositores durante seu mandato (2009-2014).

Seus seguidores destacam o que classificam como sensibilidade social, enquanto seus críticos o culpam por estar cercado de deputados acusados de escândalos de corrupção.

Com mais de 95% das urnas apuradas, Cortizo obteve 33% dos votos, seguido de Roux, com 31%. Ambos são opositores do atual presidente, Juan Carlos Varela, que termina o mandato atingido pelo declínio econômico e escândalos de corrupção. Ele não disputou a eleição porque a Constituição do Panamá não permite reeleição imediata.

Fator Martinelli

Roux, que foi apoiado pelo ex-presidente Martinelli, do qual foi chanceler, havia dito horas antes que não reconheceria nenhum resultado de forma imediata.

"Nós, hoje [domingo], não vamos aceitar nenhum resultado", disse Roux antes do anúncio do órgão eleitoral. Temos "informações sobre irregularidades", acrescentou. 

No entanto, o próprio Martinelli parabenizou Cortizo ao amanhecer. "Quero parabenizar Nito e o [Partido da Revolução Democrática] PRD por sua vitória não oficial. Eles têm uma grande responsabilidade de unir os panamenhos e nos tirar do buraco para onde Varela nos levou", tuitou Martinelli.

Em terceiro lugar ficou o candidato independente Ricardo Lombana, com 19,7% dos votos.

O bom desempenho de Roux demonstra que Martinelli "continua sendo um fator inegável na política do Panamá, esteja livre ou privado de liberdade", disse à agência de notícias AFP Claire Nevache, vice-presidente do Centro de Iniciativas Democráticas (ICW).

Sete candidatos aspiravam à Presidência, embora as pesquisas sempre dessem preferência a Cortizo, Roux e, mais recentemente, a Lombana. 

Advogado e jornalista de 45 anos, Lombana ganhou destaque nos últimos meses de campanha com discurso furioso contra a corrupção e os partidos tradicionais. Ele aceitou a derrota mais cedo e anunciou sua intenção de colaborar com o vencedor. 

Sua ascensão coincidiu com o descontentamento público com os escândalos no Legislativo envolvendo deputados de todos os partidos e com a falta de resposta da Justiça aos chamados Panama Papers, escândalo do pagamento de propinas da construtora brasileira Odebrecht e outros casos de corrupção local.

Os partidos tradicionais PRD, de Cortizo, e Mudança Democrática, de Roux, com suas máquinas, conseguiram, porém, arrematar a maioria dos votos.

De cavalo e canoa

De origem espanhola e grega, Cortizo estudou Comércio Internacional nos Estados Unidos, onde trabalhou na Organização dos Estados Americanos (OEA) e conheceu sua esposa, Yazmín Colón, que o chama de "gringuito". Com ela, tem dois filhos.

Depois de solicitar a votação a cavalo e em cayuco (uma canoa rudimentar), esse torcedor do Real Madrid e do Boston Celtics foi eleito deputado pela província caribenha de Colon em 1994. Em um segundo mandato, ele passou a presidir a Assembleia Nacional entre 2000 e 2001.

Cortizo foi nomeado a sua mais alta posição política em 2004, quando o então presidente Martín Torrijos lhe pediu que assumisse o cargo de ministro do Desenvolvimento Agrícola. Ele ficou 15 meses à frente do ministério.

Renunciou ao ministério por considerar que o Panamá não deveria aceitar a flexibilização de normas sanitárias que, na sua opinião, seria imposta por um tratado de livre-comércio com os Estados Unidos, embora agora afirme que este acordo deve ser "respeitado".

Ao mesmo tempo, ele aproveitou a oportunidade para afirmar que Washington é o "principal parceiro" do Panamá, ainda que também fosse a favor de "fortalecer" as relações do país com a China.

Cortizo prometeu criar o Ministério da Cultura e o Ministério da Mulher, elevar questões agrícolas a política do Estado e punir empresas acusadas de corrupção.

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