Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Especialistas franceses irão ao Brasil para entender políticas do governo Bolsonaro, diz Ernesto

Segundo chanceler, Paris vai enviar representantes das áreas de direitos humanos e ambiente

Lucas Neves
Paris

O Brasil receberá especialistas franceses em políticas ambientais e direitos humanos para atestar sua conformidade nessas áreas com padrões globais, afirmou nesta sexta-feira (24) o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo.

Ele participou nesta semana em Paris da reunião que selou o apoio dos Estados Unidos ao ingresso brasileiro na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), colegiado que dá a seus membros um “selo de qualidade” que tranquiliza e atrai investidores.

Na sexta, Ernesto se encontrou com seu homólogo francês, Jean-Yves Le Drian, para discutir o comércio bilateral e parcerias em áreas estratégicas, como a defesa.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, durante viagem a Dallas (EUA) em maio
O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, durante viagem a Dallas (EUA) em maio - Marcos Corrêa - 16.mai.19/Presidência da República

“Surgiram algumas percepções equivocadas aqui na França e em outros países europeus sobre nossas políticas ambientais e de direitos humanos”, disse o ministro, acrescentando se tratar da única área em que há ruído na conversa Brasília-Paris.

“Então, eu ofereci aprofundarmos o diálogo de diferentes maneiras nesses temas, com visitas de especialistas [ao Brasil]. Queremos mostrar que não é assim, [fazê-los] entender melhor as nossas políticas.”

Segundo Ernesto, a tentativa recente da diplomacia brasileira de reaproximar o país dos Estados Unidos não estremece os laços com Paris ou, de forma mais geral, com a Europa. O chanceler disse ter ouvido do colega francês que não há objeções significativas ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, cuja negociação se arrasta há quase 20 anos.

“Sabemos que a França normalmente tem preocupação com [o efeito de pactos comerciais sobre] certos setores da agricultura. Mas a mensagem política de interesse na conclusão do acordo foi muito clara.”

Não foi o que sinalizou, no começo desta semana, o ministro da Agricultura francês, Didier Guillaume, ao afirmar que tratados de livre-comércio não podem ser firmados “em detrimento dos padrões europeus”.

O posicionamento foi reiterado na quinta (23), em comunicado no qual o chefe da pasta expressa sua contrariedade a qualquer parceria “que prejudique os interesses dos agricultores e consumidores franceses, as exigências de qualidade sanitária e alimentar [...] e nossos engajamentos ambientais no Acordo de Paris”.

Ernesto, que também se encontrou com empresários franceses dos setores aeroespacial, de energia, açúcar e cosméticos, afirmou ter discutido com Le Drian a cooperação bilateral na produção de submarinos e helicópteros (sem informar metas concretas) e na difusão cultural. O Brasil acaba de anunciar a rede de institutos Guimarães Rosa, plataforma de divulgação no exterior da cultura nacional.

Sobre as manifestações em apoio ao governo previstas para este domingo (26) no Brasil, o ministro destacou o que considera ser um “caráter espontâneo” e a pauta “pró” determinadas medidas –reforma da Previdência, legislação anticrime etc.

Questionado sobre o discurso anti-STF e anti-Congresso de alguns segmentos que irão às ruas, ele contemporizou, dizendo que a “dimensão de contestação” não é majoritária.

O chanceler não indicou quando o presidente Jair Bolsonaro irá à Europa (ele por ora só foi a Davos, na Suíça, para o Fórum Econômico Mundial, em janeiro), mas citou como possível destino a Itália, de governo simpático à gestão brasileira atual.

O continente realiza nesta semana eleições para renovar seu Parlamento. Pesquisas em diversos países apontam para um bom desempenho (em alguns casos, ótimo) de partidos conservadores ultranacionalistas.

“Isso parece fazer parte de uma tendência mundial de recuperação das identidades nacionais”, comentou Ernesto, que vem se notabilizando pela retórica nativista, de ceticismo em relação ao multilateralismo e suas instituições.

“Você achava que nação era uma coisa que estava com os dias contados, em desuso, que tudo seria substituído por fóruns supranacionais. Hoje já não é assim. Ela continua sendo um espaço fundamental de exercício da cidadania.”  

Para ele, “houve durante muito tempo uma sociedade tecnocrática que queria simplesmente entregar produtos econômicos e crescimento”, o que “criou um vácuo na área do sentimento, da identificação” –aí estaria a chave da crescente insatisfação com o establishment político.

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