Descrição de chapéu The New York Times

Estudantes assumem protagonismo durante ataques a tiros em escolas nos EUA

Jovens foram saudados como heróis por ajudarem a desarmar atiradores em dois colégios

Patricia Mazzei
The New York Times

Os dois ataques foram separados por sete dias e mais de 2.400 quilômetros, mas os detalhes pareciam assustadoramente familiares: quando um atirador invadiu uma sala de aula, um estudante avançou contra ele, evitando um banho de sangue maior ao sacrificar sua vida. 

Na Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte, foi Riley Howell, 21. Na Stem School em Highlands Ranch, no Colorado, foi Kendrick Castillo, 18.

Os dois jovens foram saudados como heróis por assumirem o papel inimaginável de agente de emergência num ataque em escola. 

Seus atos, que segundo as autoridades salvaram a vida de colegas, sugerem que alguns membros da geração dos ataques a tiros nos Estados Unidos aprenderam —por instinto ou intenção— a agir como fariam profissionais diante da tragédia mortal.

"Acho que todo mundo tem essa ideia: 'E se alguém entrar com uma arma? O que devo fazer?'", afirmou Brendan Bialy, 18, que disse ter ajudado a desarmar o suspeito no ataque do Colorado, um colega estudante, depois que Castillo o atacou.

"Eu não pensei conscientemente: 'Vou fazer isso e depois aquilo'. Simplesmente aconteceu."

Exercícios sobre o que fazer durante um ataque a tiros se tornaram rotineiros nas escolas dos Estados Unidos, em alguns casos até para crianças do jardim da infância.

A maioria dos estudantes não aprendeu a enfrentar diretamente os atacantes, mas se concentrar no que deve fazer para se manter em segurança. Alguns jovens, entretanto, parecem ter acompanhado de perto os massacres anteriores e concluído que não podem esperar que um professor ou segurança os proteja. 

"A ideia de 'correr, esconder-se, lutar' é o que eles ensinam", disse Don Gilmore, cujo filho, Spencer, escapou ileso do ataque na Escola STEM na terça-feira (7) e era amigo de alguns estudantes que tentaram dominar um dos atacantes.

"Corra se puder. Esconda-se se for preciso. E lute se for necessário. Algumas pessoas simplesmente são programadas para reagir a essa situação."

A mãe de Spencer, Sarah, disse que passou parte da noite após o ataque pensando que se seu filho estivesse em outra classe naquela tarde poderia ter sido um dos alunos que enfrentaram os tiros.

"Eles salvaram os outros de algo muito pior", disse ela. 

Até crianças pequenas foram preparadas para entrar em ação. Nate Holley, aluno da sexta série, contou à CNN que seu professor levou a classe para um armário durante o ataque. Parado no canto, o menino se preparou.

"Fiquei com a mão num taco de beisebol metálico, por via das dúvidas", disse Nate, 12. "Porque, se eu tivesse de cair, ia cair lutando."

A ideia de uma criança formular um plano de ataque a um atirador com um simples taco de beisebol pode parecer horrível. Mas pessoas como Greg Crane, cuja empresa treina policiais a lidar com atiradores ativos, diz que quando não há opção de fugir o confronto pode fazer sentido. 

 

"Nós damos treinamento para recuperar o controle", disse Crane, que criou um programa de treinamento chamado "Alice" (de "Alert, Lockdown, Inform, Counter, Evacuate" —alertar, trancar, informar, enfrentar, evacuar).

"Muitas vezes é chamado de revidar. Não ensinamos estratégias de luta; é 'como você controla essa pessoa descontrolada?'"

Mas nem todos os métodos de treinamento prometem ação semelhante —alguns aprovam mais correr e se esconder do que lutar—, e os exercícios variam muito entre os distritos escolares.

O que os acadêmicos que estudam a violência escolar aprenderam com sua pesquisa é que o mais importante é que os exercícios não traumatizem as crianças, segundo Beverly Kingston, diretora do Centro para Estudo e Prevenção da Violência, na Universidade do Colorado em Boulder. 

"É importante o modo como o treinamento é feito", disse Kingston. "Ele pode aumentar ou diminuir o trauma. Nós sempre queremos que ele reduza o trauma."

Ainda mais importante é se concentrar em maneiras de evitar a violência, acrescentou ela, utilizando equipes de avaliação de ameaças com diversas abordagens para ajudar pessoas perturbadas.

Uma maneira de identificar essas potenciais ameaças é dar às comunidades —especialmente estudantes, pais e professores— a capacidade de relatar anonimamente preocupações que não chegam ao nível de, por exemplo, chamar a polícia. 

"Não é apenas essa violência em massa —também há o aumento de suicídios", disse Kingston. "Como estamos trabalhando, enquanto país, para implementar programas que sabemos que funcionam quando alguém está sofrendo? Essa é a pergunta mais difícil, mas realmente temos de fazê-la a nós mesmos."

Susan Payne, que depois do ataque a tiros em Columbine fundou a Safe2Tell, iniciativa de prevenção de violência juvenil no Colorado, lamentou que 20 anos depois as escolas ainda não tenham adotado uma abordagem coerente para evitar ataques.

"Podemos fazer um trabalho melhor neste país, e acho que já vimos muito movimento depois da tragédia em Parkland", afirmou Payne, que trabalhou na polícia durante 28 anos. "Precisamos entrar mais cedo, e precisamos entender que a cultura e o clima em uma escola são importantes."

Ela atribuiu parte do instinto dos estudantes de enfrentar um atacante armado a demonstrações de heroísmo na cultura popular.

"Os jovens hoje são mais informados do que percebemos, e é através de suas próprias normas sociais e de informação que eles veem na televisão, em filmes e na internet", disse ela. "Eu acho que a garotada está conversando sobre o que eles podem fazer nas mesas dos refeitórios."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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