Descrição de chapéu Financial Times
David Gardner

EUA e Irã fazem crescer risco de guerra acidental no Oriente Médio

Maior presença militar americana na região e saída do acordo nuclear elevaram tensões

David Gardner
Financial Times

A decisão dos Estados Unidos de enviar uma força-tarefa ao Oriente Médio foi descrita no domingo por John Bolton, o assessor de segurança nacional do presidente Donald Trump, como "um sinal claro e inconfundível ao regime iraniano" de que qualquer ataque aos Estados Unidos ou seus aliados seria rebatido com "força implacável".

Não se sabe que informação os Estados Unidos têm —ou se realmente têm alguma— sobre ataques iminentes inspirados pelo Irã.

O porta-aviões USS Abraham Lincoln e seu grupo de batalha, mencionados por Bolton, partiram para o Mediterrâneo e o Golfo Pérsico há mais de um mês, como parte da rotação regular de forças militares na região.

Bolton geralmente dá preferência a ações militares. Mesmo assim, o tom belicoso que ele e outros membros da linha dura do governo Trump, como o secretário de Estado, Mike Pompeo, vêm adotando é parte de uma campanha de pressão contra a república islâmica que provavelmente aumenta o risco de guerra.

O risco já tinha crescido quando Trump decidiu retirar os Estados Unidos unilateralmente do acordo  nuclear assinado entre o Irã e seis potências mundiais em 2015.

Com isso, Washington liberou Teerã do compromisso de desativar boa parte de seu programa nuclear, em troca do alívio das sanções econômicas contra o país.

O Irã continua a honrar em parte o acordo, ainda que Trump tenha reimposto as sanções e ameaçado aliados e adversários dos Estados Unidos, para que interrompam seus negócios com o Irã.

Os Estados Unidos agora estão promovendo uma nova escalada das tensões.

Recentemente, o Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana —que serve como guarda de elite do regime no país e como sua força expedicionária no exterior— foi classificado como organização terrorista pelo governo americano.

É a primeira vez que isso acontece com uma organização oficial do governo de outro país.

Agora, os americanos anunciaram que revogaram a isenção das sanções que aplicava a alguns países que continuam a comprar petróleo e gás natural do Irã, por exemplo China, Índia e Turquia, com a intenção declarada de reduzir a zero as exportações iranianas de petróleo e causar o colapso da economia do país.

Essas medidas significam trocar um raro triunfo da diplomacia por um detonador —na região mais combustível do planeta, já inflamada de guerras travadas por meio de prepostos.

O Irã está de um lado desses conflitos regionais, cinicamente tirando vantagem do vendaval sectário que varreu a região depois da invasão do Iraque pela coalizão liderada pelos Estados Unidos, em 2003, e do tumulto causado pela Primavera Árabe, em 2011.

O cisma redespertado entre o islamismo xiita e o sunita —representados respectivamente pelo Irã e pela Arábia Saudita— ajudou a devastar boa parte do Iraque e da Síria, e incubou os cinco anos de terror promovidos pelo Estado Islâmico em seu reino binacional, agora destruído.

Mas o ressentimento dos sunitas diante da criação, por Teerã, de um eixo xiita e persa abarcando Iraque, Síria e Líbano continua a fervilhar, ainda que o Irã encare essas posições em países árabes como linhas avançadas de defesa.

Israel também considera intolerável a presença da Guarda Revolucionária iraniana e suas milícias na Síria, além da ameaça do Hizbullah, a força paramilitar do Líbano.

No momento, Israel, sob a liderança de direita linha dura de Benjamin Netanyahu, serve de ponta de lança nas ações contra o Irã, e vem lançando centenas de ataques aéreos cada mais intensos contra alvos iranianos e do Hizbullah em território sírio.

É um conflito não declarado que frequentemente ameaça se tornar guerra aberta.

Há outros agentes nesse quadro sombrio.

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU) estão apoiando uma poderosa milícia curda na Síria, que conseguiu tomar o controle da porção nordeste do país com apoio aéreo americano, fornecido como parte da campanha contra o Estado Islâmico.

Mas os sauditas e os EAU estão agindo assim para atacar o Irã e a Turquia —dois países que enfrentam problemas com suas minorias curdas.

No caso de Ancara, eles têm mais uma queixa. O presidente turco Recep Tayyip Erdogan apoia a Irmandade Muçulmana.

A Arábia Saudita e os EAU também impuseram um bloqueio ao Qatar, emirado do Golfo Pérsico rico em gás natural, que já dura dois anos —ainda que o Qatar abrigue a maior base aérea dos Estados Unidos na região.

Eles veem o emirado como um polo de atividade da Irmandade Muçulmana e como preposto do Irã.

Para agravar o alinhamento turvo e a confusão há o interesse ainda discreto dos países do Golfo Pérsico pela Síria.

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar apoiaram os rebeldes sunitas contra o regime minoritário de Bashar al-Assad, que conta com apoio do Irã e da Rússia. Mas agora, os sauditas e seus aliados parecem prontos a reerguer as cercas, e até a ajudar na reconstrução das áreas devastadas da Síria. A embaixada dos UAE em Damasco foi reaberta em dezembro.

Os países do Golfo Pérsico liderados pela Arábia Saudita parecem ansiosos quanto a não repetir o erro que Riad cometeu ao rejeitar o contato diplomático com o Iraque, um país de maioria xiita, o que abriu espaço para o Irã.

Essa pelo menos é uma resposta mais ponderada do que aquela que Trump recomendou em sua primeira viagem internacional como presidente, em maio de 2017, a Riad, quando ele apelou aos sauditas para que liderassem uma jihad sunita contra o Irã.

Mas nessa região do planeta, pressão gera pressão: para cada ação, existe uma reação igual e oposta.

A atual conflagração em Gaza, por exemplo, parece ter uma dimensão iraniana.

O cliente mais próximo de Teerã, a Jihad Islâmica, parece ter dado início ao confronto ao disparar contra Israel.

Enquanto isso, no noroeste da Síria, o presidente Vladimir Putin, da Rússia, e o regime de Assad iniciaram uma ofensiva em Idlib, o último reduto dos rebeldes sunitas, desconsiderando um acordo assinado em outubro com a Turquia.

No Oriente Médio, há muitas peças móveis perigosas e muitos agentes imoderados que acreditam em ação executiva (Bolton, Pompeo, Netanyahu, Putin, Assad, Erdogan e o general Qasem Soleimani, comandante da Guarda Revolucionária iraniana nos territórios árabes).

E os Estados Unidos têm um presidente errático como Trump.

Com um elenco como esse, é racional esperar acidentes —como afirmou o ministro do exterior iraniano, Mohammad Javad Zarif, em Nova York no mês passado.

Guerras podem começar por acidente —e algumas começam. 

Tradução de Paulo Migliacci David Gardner é editor de mundo do Financial Times e já foi correspondente do jornal n​a Europa, América Latina e Ásia 

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