Descrição de chapéu The Washington Post

Facebook reconhece que vídeo de democrata é falso, mas se recusa a tirá-lo do ar

Mais de 2,5 milhões de pessoas acessaram material que manipulava discurso de presidente da Câmara nos EUA

Drew Harwell
Washington Post

Quando um vídeo mostrando a presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, começou a se espalhar pela internet nesta semana, pesquisadores rapidamente o identificaram como uma distorção, com som e velocidade manipulados para fazer o discurso da deputada democrata parecer hesitante e confuso.

Horas depois de serem alertadas, porém, as gigantes das redes sociais —Facebook, Twitter e YouTube— deram respostas extremamente conflitantes que potencialmente permitiram que a desinformação continuasse a se espalhar.

O YouTube deu uma resposta definitiva na tarde de quinta-feira (23), dizendo que a empresa tinha removido os vídeos porque violavam "políticas claras que definem que conteúdo não é aceitável publicar".

A presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Nancy Pelosi - James Lawler Duggan/Reuters

O Twitter não quis comentar. Mas compartilhar o vídeo provavelmente não entra em conflito com as políticas da empresa, que permite "declarações imprecisas sobre uma autoridade eleita", desde que não inclua tentativas de manipulação eleitoral ou supressão de eleitores. Vários tuítes que compartilharam o vídeo, muitas vezes com comentários de que Pelosi estava "bêbada como um gambá", continuavam online na sexta-feira (24).

Mas o Facebook, plataforma na qual o vídeo pareceu conseguir seu maior público, recusou-se na sexta a retirar o vídeo, mesmo depois que os grupos independentes de checagem da rede social Lead Stories e PolitiFact consideraram o vídeo "falso".

"Não temos uma política que estipule que a informação que você publica no Facebook tem de ser verdadeira", disse a companhia em um comunicado ao jornal The Washington Post.

A empresa disse que "reduziria fortemente" as aparições do vídeo nos feeds de notícias dos usuários, acrescentaria um pequeno quadro informativo junto ao vídeo, ligando aos dois sites de checagem de fatos e abriria um quadro pop-up ligando a "reportagem adicional" sempre que alguém clicasse para compartilhar o vídeo.

Isso não satisfez deputados como o democrata David Cicilline, de Rhode Island, que foi ao Twitter para exigir que o Facebook "arrume isso já!".

"O Facebook é muito atencioso com meu gabinete quando quero falar sobre leis federais, e de repente fica mudo quando lhes pedimos para lidar com um vídeo fraudulento", tuitou o senador democrata Brian Schartz, do Havaí. "Não é que eles não possam resolver isso; é que eles se recusam a fazer o que é necessário."

Enquanto os atos do Facebook podem oferecer um contexto e diminuir o ritmo em que as pessoas encontrarão o vídeo ao navegar na rede social, eles praticamente nada fizeram para impedir que o falso vídeo seja disseminado pelas pessoas que já o viram. Qualquer usuário ainda pode gostar, comentar, ver e compartilhar o vídeo quantas vezes quiser.

Nas 24 horas depois que o Washington Post alertou o Facebook sobre o vídeo, seus acessos em uma única página da rede social tinham quase dobrado, para mais de 2,5 milhões de visitas. O vídeo também foi republicado em outras páginas do Facebook, no qual sua audiência cresceu ainda mais.

As reações conflitantes revelam uma grande vulnerabilidade em como as gigantes da internet se protegem de mentiras virais e falsidades evidentes. As companhias operam as mais importantes e destacadas fontes de informação dos Estados Unidos, inclusive para se compreender as campanhas políticas nos meses que antecedem a eleição presidencial de 2020. Mas elas demonstraram pouca capacidade —e interesse, no caso do Facebook— em limitar a disseminação de mentiras.

O Facebook resistiu a retirar informação claramente falsa citando preocupações com a liberdade de expressão, posição que reiterou na sexta-feira (24). "Há uma tensão aqui: nós trabalhamos duro para encontrar o equilíbrio certo entre incentivar a livre expressão e promover uma comunidade segura e autêntica, e acreditamos que reduzir a distribuição de conteúdo inverídico atinge esse equilíbrio", disse o Facebook em um comunicado.

Mas Jason Kint, executivo-chefe do grupo setorial Digital Content Next, que representa os editores online, disse que o Facebook deveria assumir um papel mais ativo no policiamento e redução da disseminação de desinformação.

O site, disse ele, reluta em dar muito poder aos verificadores de fatos ou moderadores de conteúdo, e muitas peças de conteúdo podem cair em áreas cinzentas, em que a percepção do material pelas pessoas depende de sua política pessoal.

Mas com claras distorções, como o vídeo de Pelosi, a empresa deveria reagir mais rápida e decisivamente para conter a desinformação antes que adquira vida própria.

"Quando eles a colocam na linha do tempo das pessoas e lhe dão uma velocidade e um alcance que não merece, estão ajudando a disseminá-la", disse Kint.

"A desinformação pode se espalhar mais depressa que a informação verdadeira", acrescentou. "E essas redes têm atores maus —que, de maneira assustadora neste caso, envolvem pessoas em cargos muito importantes— que podem movimentar a desinformação rapidamente. Não acho que as pessoas encarregadas de revelar a verdade sejam capazes de mobilizar essas redes da mesma maneira."

O presidente Donald Trump tuitou na quinta-feira (23) à noite outro vídeo tirado da Fox Business Network: um clipe editado de 30 segundos enfocando as pausas e gaguejos de Pelosi em um pronunciamento oficial naquele mesmo dia.

O presidente americano, Donald Trump - Athit Perawongmetha/Reuters

Os vídeos alimentaram o que os defensores de Pelosi chamaram de retratos sexistas e conspiratórios sobre a saúde da mulher eleita no cargo mais elevado da Câmara dos Estados Unidos. Eles também se parecem com vídeos políticos que colocaram questões semelhantes sobre a capacidade física de Hillary Clinton durante a campanha de 2016.

Pelosi tuitou na quinta-feira à noite que Trump estava "desviando a atenção das grandes realizações dos deputados democratas para o povo, de suas ocultações e sua impopularidade".

O Facebook tem um programa interno que encontra e retém as duplicatas do vídeo online, mas a empresa não sabia dizer na sexta-feira quantas vezes o vídeo foi republicado.

Depois que a companhia tomou a decisão, grupos do Facebook reiteraram seu interesse em promover o vídeo distorcido. A página do Facebook Politics WatchDog [cão de guarda da política] —de onde o vídeo foi compartilhado 47 mil vezes, frequentemente com falsas afirmações sobre o uso por Pelosi de álcool e drogas—  colocou uma pesquisa de usuários com a pergunta: "O vídeo de Pelosi deve ser retirado?" Quando a maioria votou "não", a página postou: "O povo falou. O vídeo fica", juntamente com um emoji de taça de vinho.

Os proprietários da página no Facebook não responderam a pedidos de comentários. Mas em uma postagem no Facebook eles chamaram o Washington Post de "fake news" e disseram que "os checadores de fatos independentes que o Facebook usa são pró-liberais e financiados pela esquerda".

Entre as pessoas que promoveram o vídeo distorcido antes que o Facebook respondesse estava o advogado pessoal do presidente Trump, Rudolph Giuliani. Ele tuitou um link para a página do Facebook na noite de quinta-feira —"O que há de errado com Nancy Pelosi? Seu padrão de discurso está bizarro"—  e minutos depois o apagou. Mais tarde ele se referiu a isso como "uma caricatura exagerando seu estilo de discurso já entrecortado".

Giuliani disse em entrevista na sexta que alguém tinha lhe enviado o vídeo e que ele decidiu compartilhá-lo depois de vê-la nas últimas semanas, quando achou que a deputada estava "falando engraçado".

Depois de seu tuíte, disse Giuliani, outra pessoa lhe enviou uma mensagem de que o vídeo tinha sido alterado. "Eu não consegui saber se foi manipulado", disse ele. "Percebi que ela estava pior que alguns dias atrás. Por isso o retirei, por via das dúvidas."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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