Descrição de chapéu Venezuela

Líderes oposicionistas se unem a militares dissidentes para derrubar Maduro, que reage

Operação Liberdade, de Guaidó e Leopoldo López, leva a confrontos com forças leais à ditadura

Sylvia Colombo
Caracas

Eram 6h (7h em Brasília) quando Caracas despertou de modo tenso na terça-feira (30).

O líder da oposição, Juan Guaidó, e o preso político Leopoldo López se dirigiram à base aérea de La Carlota e anunciaram uma ação para retirar do poder o ditador Nicolás Maduro, com apoio de militares dissidentes. 

“Hoje soldados que são valentes vieram até aqui porque nosso Primeiro de Maio começou hoje. Estamos chamando as Forças Armadas para acabar com a usurpação hoje”, afirmou Guaidó em um vídeo no qual aparecia cercado de militares que o apoiavam, armados, e ao lado de López.

López, que estava em prisão domiciliar desde 2017, cumprindo pena de quase 14 anos por incitação à violência em protestos contra o governo, disse ter sido “liberado por militares à ordem da Constituição e do presidente Guaidó”.

Os dois deixaram a base quando o local passou a ser alvo de bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela Guarda Nacional Bolivariana (GNB), alinhada ao regime Maduro. 

Mas isso não impediu que centenas de pessoas fossem caminhando (o metrô não funciona e os ônibus estavam abarrotados), abraçadas com a bandeira da Venezuela até o local onde Guaidó discursou em um palco improvisado.

“Vamos resistir e exigir o fim da usurpação. Vamos encher as ruas amanhã com todo o entusiasmo, porque vamos bem”, disse Guaidó à multidão, que gritava “sim, se pode” e “Operação Liberdade”.

Guaidó afirmou que o fato de ele estar ali ao lado de López era um “sinal claro de que Maduro não tem mais o apoio das forças de segurança”.

Oficiais que deixaram o Exército ou a GNB —identificados por usarem uma faixa azul no braço direito— caminhavam sob aplauso. 

Houve confrontos de opositores com a GNB e a polícia nas principais vias do leste da cidade. O Exército fechou diversas avenidas, e os congestionamentos se somaram aos buzinaços e panelaços.

Os momentos de maior tensão ocorreram quando a GNB avançou com suas tanquetas sobre manifestantes. TVs captaram o momento em que um desses veículos blindados atropelou um oposicionista —cujo estado é desconhecido.

Ainda assim, a jornada não foi das mais violentas que se viram em Caracas desde que esta crise teve início. Nos três meses que antecederam a eleição da Assembleia Constituinte, em 2017, morreram mais de 120 pessoas, e apenas no fim de semana da eleição, 14. 

Os protestos de terça deixaram um morto, 109 feridos e 83 detidos, segundo as ONG de direitos humanos OVCS e Foro Penal, com manifestações em todos os 24 estados. O morto foi identificado como Samuel Méndez, em Arauca

Por volta das 20h, Guaidó disse em vídeo em uma rede social, de local desconhecido, que “sabia que não seria fácil”, mas que “Maduro perdeu o apoio e o respeito dos militares e do povo venezuelano”.

López acabou se refugiando com a mulher, Lilian Tintori, primeiro na Embaixada do Chile e depois na da Espanha, em Caracas.

No lado oeste, onde ficam a prefeitura de Caracas e os “bairros vermelhos” (de apoiadores do chavismo), o clima era tranquilo. Forças de segurança bloquearam as vias nas imediações de prédios públicos e da Assembleia Nacional, que ficou fechada.

Próximo ao palácio de Miraflores, uma manifestação chavista alentava o governo. Em número menor do que a multidão na praça Altamira, os chavistas iam de camiseta vermelha e bandeiras do partido do governo —o PSUV. 

Um vizinho de López afirmou que ele deixou a casa onde cumpria prisão domiciliar, no bairro de Palos Grandes, sem resistências dos agentes do Sebin (o serviço de inteligência) que o custodiavam.

“Vi quando ele saiu. Foi junto com os mesmos oficiais do Sebin que o vigiavam. Saiu normalmente, sem mala nem nada. Só deixou aí o carro”, disse José Pedroso, 58, à Folha

Após o episódio, o diretor do Sebin, general Manuel Cristopher Figuera, foi detido.


Principais momentos da crise venezuelana

Out. 2017: instalação da Constituinte
Na prática, órgão esvazia a Assembleia Nacional, dominada pela oposição ao regime

Mai.2018: reeleição de Maduro
Votação é contestada dentro e fora da Venezuela. Abstenção chega a 54%

Jan.2019: presidente interino
Um dia após posse de Maduro, Guaidó se declara presidente e é reconhecido por mais de 50 países

Fev.2019: Ajuda humanitária
A oposição, com o apoio de Brasil, Colômbia e EUA, fracassa na tentativa de levar ajuda à Venezuela

Abr.2019: Tentativa de deposição
Leopoldo López e Juan Guaidó lideram movimento para derrubar regime Maduro

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