Novo rei da Tailândia é 'político' e pró-militar

Coroado dois anos após morte do pai, Maha Vajiralongkorn, 66, interveio na Constituição para poder se ausentar do país

Claudia Jardim
Bancoc

Com uma coroa feita de ouro e pedras preciosas pesando mais de 7 kg, o rei da Tailândia Maha Vajiralongkorn, 66, foi oficialmente coroado neste sábado (4) (sexta, 3, no Brasil), em uma cerimônia extravagante que trouxe a público rituais realizados há mais de 300 anos. 

A cerimônia de coroação de Vajiralongkorn ou rei Rama 10º começou as 10h09, no ano tailandês de 2562. A hora foi escolhida pelos astrólogos da realeza. O 10 faz referência a seu número na dinastia Chakri, e o nove é considerado um número de sorte. 

No momento da coroação, 41 mil monges em todo o país rezavam simultaneamente para abençoar o novo rei. 

Mulher passa por retrato do rei Maha Vajiralongkorn do Grande Palácio Real, antes de sua coração, em Bancoc
Mulher passa por retrato do rei Maha Vajiralongkorn do Grande Palácio Real, antes de sua coração, em Bancoc -  Manan Vatsyayana/AFP

Numa cerimônia que mesclou rituais budistas e bramânicos, o rei foi “purificado” com águas coletadas em diferentes rios de todo o país e benzidas por monges budistas. Logo recebeu uma placa de ouro com seu nome e o horóscopo do novo reino. 

Do lado de fora do Grande Palácio Real, milhares de pessoas vestidas de amarelo —a cor que representa o rei— acompanhavam a coroação por meio de grandes telões, enfrentando um calor de 45ºC.

Outros milhões de tailandeses acompanharam o ritual pela televisão. Foi o caso da publicitária Nakhanya Sangsingkeo, 39. 

“Não tenho expectativas sobre a transição, eu simplesmente aceito. Nasci e cresci sabendo que tinha um rei” afirmou. “Isso é parte do nosso sistema, está no nosso sangue, acreditamos na monarquia.”

O rei subiu oficialmente ao trono em dezembro de 2016, após a morte de seu pai, Bhumibol Adulyadej, que reinou o país durante 70 anos. No entanto, sua coroação foi adiada por mais de dois anos, em respeito ao período de luto. 

Vajiralongkorn viveu grande parte de sua vida no exterior, desconectado tanto dos afazeres da Coroa como da população, e não herdou a popularidade e o carisma do pai. 

Isso não muda a percepção de Sangsingkeo. Seguidora do budismo, como a maioria da população, a publicitária acredita que o rei fez coisas boas em vidas passadas e por isso está à frente do reino. “Se ele é rei é porque fez por merecer.” 

Por ser considerado o guardião da religião, o rei é visto com poderes semidivinos. 

“A monarquia representa um pilar fundamental de estabilidade e um componente central da identidade e história tailandesas”, afirmou Thitinan Pongsudhirak, professor da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Chulalongkorn, em Bancoc.

A devoção ao rei faz parte do cotidiano tailandês. Na capital Bancoc, ele é onipresente em gigantescos outdoors, fotografias em edifícios e altares que se espalham por toda a cidade. 

Duas vezes por dia o hino nacional é tocado em parques e metrôs e toda a população deve ficar imóvel, em sinal de respeito, até o término. Nos cinemas acontece o mesmo antes de cada sessão.

Na véspera da coroação, lojas dedicadas à venda de fotografias e bandeiras da realeza nos arredores do palácio tinham movimento intenso.

“Comprei 10 quadros para o escritório”, contou uma apressada secretária. 

“As vendas aumentaram bastante nessa semana, perdi a conta de quantos quadros já vendemos”, disse Somjai Boonyalerk, 64, dona da loja. 

Além de um rei entronado, há três dias os tailandeses foram surpreendidos pelo casamento do monarca com a vice-chefe de seu grupo de guarda-costas Suthida Vajiralongkorn na Ayhuda. Antes de ser apontada pelo rei como guarda-costas e ascendida à patente de general, a nova rainha havia sido comissária de bordo da Thai Airways.

Divorciado três vezes e pai de sete filhos, Vajiralongkorn passa boa parte do tempo em Munique, na Alemanha, onde seu filho de 13 anos estuda.

Críticas à monarquia são controladas e severamente punidas sob a estrita lei de lesa-majestade, que prevê penas de até 15 anos de prisão para quem difamar ou insultar a monarquia.

Em um país marcado por turbulências políticas nas últimas duas décadas, Vajiralongkorn tem dado sinais de que seu reinado terá mais peso na política. 

O monarca interferiu na redação da nova Constituição para assegurar que poderá se ausentar do país sem ter de designar um regente e poder incidir diretamente em caso de crise política —poder que havia sido transferido à Corte Constitucional. 

A nova Carta tailandesa foi redigida pela junta militar que comanda o país desde o golpe de Estado de 2014.

Antes das eleições de 24 de março, o rei fez um chamado à população para eleger “as pessoas boas” e “impedir as más” de chegarem ao poder “para não criar confusão”. 

O recado foi interpretado como uma demonstração de apoio aos militares que disputaram o cargo para premiê. O resultado das questionadas eleições serão divulgados três dias após a coroação, e a tendência é que os militares permaneçam no poder.

A cerimônia, que custou cerca de US$ 30 milhões (R$ 122 milhões), durará mais dois dias.

Na procissão do domingo (5), 200 mil pessoas deverão se prostrar diante do rei, carregado em seu trono em um palanquim. Dois mil oficiais de capacetes e roupas coloridas farão parte do cortejo. 

Na segunda (6), o rei saudará a população da varanda do palácio e receberá em audiência autoridades nacionais e internacionais.

Boonyalerk assistirá à procissão na porta de sua loja. “Daqui mesmo o veremos passar. Longa vida ao rei.”


QUEM É O NOVO REI

Maha Vajiralongkorn Bodindradebayavarangkun (ou Maha 10º)

-É o décimo monarca da dinastia Chakri
-66 anos
-Está no quarto casamento, com Suthida Vajiralongkorn ​, sua ex-guarda costas
-Tem sete filhos, com idades entre 14 e 40 anos
-Tem títulos de general, almirante e marechal

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