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Latino América 21

O perigo dos 'outsiders'

Chegada dos messias traz o risco de populismo e demagogia superdimensionados

Na América Latina, há décadas estamos acostumados à chegada dos messias, salvadores da pátria que desembarcam triunfalmente a toda hora no mundo da política, para salvar o povo do "establishment", ou seja, da política.

Trata-se de redentores das mais diversas plumagens, oriundos do mundo do entretenimento ou de profiss√Ķes que lhes permitiram acumular prest√≠gio ‚Äďe sobretudo dinheiro‚Äď, e que um dia se veem compelidos ao sacrif√≠cio em nome de todos, para impor ordem. Ou melhor, desordem.

A origem dos "outsiders" est√° nas novas formas de comunica√ß√£o pol√≠tica surgidas na metade do s√©culo passado, com a chegada da televis√£o. Originalmente, os candidatos eram basicamente representantes de partidos, institui√ß√Ķes ou ideias, e desempenhavam papel secund√°rio.

Mas à revolução da TV veio se somar, no início da década de 1990, a "era da comunicação", que causou o que os acadêmicos descrevem como uma "humanização progressiva da política". À medida que as telas foram conquistando nossa atenção, as possibilidades dos "outsiders" se multiplicaram.

Ainda que tenha sido a internet que terminou de abrir a cortina, é o atual desafeto à classe política tradicional, consequência da crise política mundial e da corrupção, que levou manadas de "outsiders" a entrar em cena.

Esse descontentamento quanto aos "pol√≠ticos profissionais" fez com que "os eleitores se deixassem atrair por personagens que n√£o t√™m experi√™ncia pol√≠tica, j√° que essa falta de experi√™ncia √© vista como algo de positivo", como explicou Roberto Rodr√≠guez Andr√©s em seu artigo "A Ascens√£o dos Candidatos 'Outsiders' Como Consequ√™ncias das Novas Formas de Comunica√ß√£o Pol√≠tica e do Desafeto dos Cidad√£os".

Se nem não exista uma definição consensual para o termo "outsider", os acadêmicos concordam quanto a uma série de características, definidas por Rodríguez Andrés da seguinte maneira:

1. Trata-se de candidatos eleitorais vindos de fora do sistema, e carentes de qualquer experiência política. Ainda assim, nem todas as pessoas que chegam à política dessa forma são "outsiders", já que aquilo que conta é a inércia da fama. Uma inércia à qual eles se aferram e que prolongam ao longo de sua carreira política.

2. Posicionam-se √† margem das regras estabelecidas, para criticar a classe pol√≠tica tradicional e atribuir a ela todos os males da sociedade, retratando-se como verdadeiros "agentes de mudan√ßa". Essa postura antipol√≠tica pode ser atribu√≠da n√£o s√≥ a candidatos vindos de fora do sistema como a candidatos que, nas palavras de Rodr√≠guez Andr√©s, "embora se tenham dedicado a essa atividade [a pol√≠tica] por boa parte de suas vidas, se apresentam com √Ęnsias de renova√ß√£o ou ruptura da ordem estabelecida", o que seria o caso de Jair Bolsonaro.

As estrat√©gias eleitorais dos "outsiders" s√£o outro aspecto quanto ao qual n√£o existe unanimidade. Certos acad√™micos se limitam a classificar como "outsiders" aqueles que tenham criado forma√ß√Ķes pol√≠ticas novas, enquanto outros incluem candidatos que usem os partidos tradicionais como trampolim, a exemplo de Donald Trump.

3. A √ļltima caracter√≠stica e aquela que melhor os descreve √© que, apesar das for√ßas em contr√°rio, conseguem converter suas campanhas em fen√īmenos virais que se erguem como a espuma, at√© que ven√ßam elei√ß√Ķes que teoricamente deveriam ter perdido.

Sob essa √ļltima perspectiva, o "outsider", mais que um personagem seria um fen√īmeno, um sucesso, um milagre que reincorpora √† pol√≠tica muitas das pessoas desiludidas com os l√≠deres de sempre. Mas esse fen√īmeno √© acima de tudo um monstrengo, uma aberra√ß√£o que acarreta uma s√©rie de riscos para os sistemas pol√≠ticos e as democracias dos pa√≠ses.

O primeiro e mais evidente desses riscos é a inexperiência e desconhecimento dessas pessoas quanto ao que é necessário para liderar um país, ou mesmo para formar um governo sólido.

O segundo é a possibilidade de que esses personagens, sobretudo os oriundos da televisão, como o humorista e presidente guatemalteco Jimmy Morales, desenvolvam campanhas com objetivos autopromocionais e terminem, como afirma Rodríguez Andrés, "banalizando a atividade política, convertendo-a em uma espécie de circo midiático".

Outro risco √© a eros√£o que provocam nos sistemas, por fracionarem e polarizarem a pol√≠tica, o que resulta na forma√ß√£o de legislativos hiperfragmentados e governos fracos, que giram em torno do l√≠der. E o √ļltimo e talvez mais perigoso dos riscos est√° no personalismo, populismo e demagogia superdimensionados, que no momento v√™m crescendo n√£o s√≥ em diversos pa√≠ses da regi√£o como em grande parte do mundo.

No contexto atual, o encorajamento aos "outsiders" √© inevit√°vel, j√° que eles s√£o um fen√īmeno social que se alimenta da desilus√£o, do desassossego, do desespero e da raiva, assim como da irresponsabilidade, irracionalidade e ignor√Ęncia.

Por isso, em curto e médio prazo nossas sociedades continuarão vulneráveis ao surgimento de candidatos vindos de fora da política, muitos dos quais, disfarçados em messias, se convertem em reis, na "era da comunicação".

Desse ponto de vista, só resta pensar em alternativas para o futuro. Como exemplo, um debate que merece menção é o proposto por Juan J. Linz, algumas décadas atrás, com seu ensaio "Os Perigos do Presidencialismo", no qual criticava o sistema utilizado pela maioria dos países da América.

No texto, entre diversas cr√≠ticas, ele afirmava que a "personaliza√ß√£o do poder" era uma caracter√≠stica inerente do presidencialismo. E "o lado negativo das elei√ß√Ķes populares diretas √© que podem resultar na elei√ß√£o de pessoas de fora das classes pol√≠ticas" [outsiders], o que incentiva a demagogia e o populismo, de acordo com Matthew Soberg Shugart e Scott Mainwaring, em seu ensaio "Presidencialismo e Democracia na Am√©rica Latina: revisando os termos do debate".

Esse debate é apenas um entre muitos. O que importa de fato é ir pensando em alternativas para que, ao menos em longo prazo, possamos blindar nossas democracias contra os caprichos, egocentrismo e excentricidade dos "outsiders".

Jeronimo Giorgi, jornalista uruguaio que cobre assuntos internacionais, colaborou com diversos ve√≠culos na Am√©rica Latina e Europa, e recebeu distin√ß√Ķes como o Premio Rey de Espa√Īa de jornalismo.

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Tradução de Paulo Migliacci

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