Descrição de chapéu The New York Times

O que deveria ser feito com as mulheres e crianças do Estado Islâmico?

Familiares de combatentes estão detidos em campos no Oriente Médio

Vivian Yee
Beirute | The New York Times

Muitas delas ainda não estavam em idade escolar quando seus pais as levaram para o chamado califado do grupo Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Milhares de outras crianças nasceram lá.

Os filhos dos seguidores do grupo são os remanescentes humanos mais vulneráveis do Estado Islâmico (EI) —vestígios de mais de 40 mil combatentes estrangeiros e suas famílias que vieram de mais de 80 países para ajudar a construir o califado. Hoje muitos deles estão detidos em acampamentos e prisões no leste da Síria, no Iraque e na Líbia. 

"O que fizeram essas crianças?", disse Fabrizio Carboni, um diretor da Cruz Vermelha, depois de presenciar a pobreza que o cercava numa recente visita ao campo de Al Hol, na Síria. "Nada."

Mulheres e crianças que fugiram de área controlada pelo EI, em acampamento em al-Hol, na Síria - Ivor Prickett/The New York Times

Mesmo se tratando de crianças, porém, os governos estrangeiros cujos cidadãos estão presos têm dificuldade para decidir o que fazer.

O EI, segundo pesquisadores, empregavam crianças como batedores, espiões, cozinheiros e instaladores de bombas, e às vezes como combatentes e atacantes suicidas. Vídeos de propaganda mostraram crianças decapitando e atirando em prisioneiros.

Algumas tiveram anos de doutrinação pelo EI, e os meninos mais velhos receberam treinamento militar. 

"Elas são vítimas da situação porque foram contra sua vontade", disse Peter Neumann, diretor do Centro Internacional de Estudos da Radicalização, no King's College em Londres. "Mas isso não quer dizer que elas não corram risco, pelo menos em alguns casos."

O que fazer com as crianças é uma questão muito complicada, mas decidir o destino de mulheres e homens é ainda mais difícil. 

Há pelo menos 13 mil seguidores estrangeiros do EI detidos na Síria, incluindo 12 mil mulheres e crianças.

Esse número não inclui as cerca de 31 mil mulheres e crianças iraquianas detidas no Líbano. Outras 1.400 estão presas no Iraque. 

Mas só alguns países —como Rússia, Kosovo, Cazaquistão, Indonésia e França— intervieram para levar de volta alguns de seus cidadãos.

O debate é mais premente que nunca.

Em campos superlotados no leste da Síria, as mulheres e filhos de combatentes que fugiram das últimas franjas de território do EI estão morrendo pela exposição ao clima, desnutrição e doenças. As crianças estão muito fracas para falar. Mulheres que renunciaram ao grupo vivem no temor de ser atacadas pelas que continuam fiéis.

As milícias locais que dirigem os campos dizem que não podem deter cidadãos de outros países para sempre.

Do outro lado da fronteira, no Iraque, autoridades estão administrando uma justiça apressada a pessoas acusadas de ser membros do EI, condenando centenas delas à morte em julgamentos que às vezes duram apenas cinco minutos.

Mas a maioria dos governos estrangeiros reluta em aceitá-los de volta, deixando-os como párias internacionais que ninguém quer —nem seus países natais nem seus carcereiros.

"Quem quer ser o político que decide repatriar um indivíduo que, daqui a dois anos, pode se explodir?", disse Lorenzo Vidino, diretor do programa sobre extremismo da Universidade George Washington. 

O fato é que, segundo Vidino, poucos extremistas voltam a cometer atentados em seus países natais. Mas os casos excepcionais —incluindo os ataques em Paris em 2015 que mataram 130 pessoas e dois dos ataques terroristas mais mortais na Tunísia— tornaram a ideia de repatriação politicamente tóxica em muitos países. Pelo menos um dos que efetuaram os ataques no Sri Lanka na Páscoa era um nativo do país que foi treinado pelo EI na Síria. 

Alguns países, como o Reino Unido e a Austrália, revogaram a cidadania de seus nativos suspeitos de aderir ao EI no exterior, efetivamente abandonando-os e a seus filhos à detenção indefinida sem acusação e como potenciais apátridas. Só o Reino Unido cancelou os passaportes de mais de 150 pessoas, segundo o secretário do Interior, Sajid Javid.

Se trazê-los para o país poderia representar um perigo óbvio, também não se pode deixá-los nos campos, desesperados e desvalidos.

Historicamente, os combatentes que adquiriram experiência com um grupo extremista foram os que criaram novos grupos, disse Seamus Hughes, vice-diretor do programa da George Washington. 

Mulheres e crianças que fugiram do Estado Islâmico aguardam revista na Síria - Ivor Prickett/The New York Times

"Vamos ignorar o problema porque é mais fácil em curto prazo?", disse ele. "Nesse caso, vai se tornar um problema em longo prazo." 

Mas trazê-los para casa exige que governos estrangeiros respondam a perguntas virtualmente impossíveis, como separar os que cometeram crimes dos que não o fizeram, e os que ainda representam ameaça ou não.

O quebra-cabeça é mais difícil de resolver quando se trata de dezenas de milhares de mulheres e crianças filiadas ao EI. 

A ideia antes comum de que as mulheres do EI foram presas passivas, "noivas de jihadistas" seduzidas a aderir ao califado e casar-se com seus combatentes, desmoronou com evidências de que as mulheres serviram como membros da brigada moral do califado e em alguns casos pegaram em armas na batalha.

"A retórica da mídia e dos políticos é que elas sofreram lavagem cerebral, foram enganadas, se apaixonaram, não sabiam o que estavam fazendo", disse Meredith Loken, professora-assistente na Universidade de Massachusetts em Amherst, que estudou mulheres que entram para grupos extremistas violentos. "Mas mesmo quando elas não pegaram em armas [muitas] contribuíram ativamente para o grupo", explicou ela.

Algumas foram acessórios relutantes, enquanto outras eram guardiãs violentas. Algumas foram ao mesmo tempo vítimas e perpetradoras, segundo especialistas.

Mulheres como a adolescente britânica Shamima Begum e Hoda Muthana, jovem nascida nos Estados Unidos, ocuparam manchetes nas últimas semanas em parte porque é tão difícil avaliar seus papéis e o risco que elas representam.

Mulheres e crianças que fugiram do Estado Islâmico, em ônibus na Síria - Ivor Prickett/The New York Times)

​Begum não se arrependeu quando um jornalista a encontrou em um campo na Síria em fevereiro. Ela pediu para voltar à Grã-Bretanha pelo bem de seu filho que ia nascer, mas insistia que o bombardeio na Arena de Manchester em 2017, em que 22 pessoas morreram, era justificável. Muthana disse mais tarde que lamentava ter entrado para o EI, afirmando que sofreu "lavagem cerebral".

Especialistas opinam que levar membros do EI para seus países para ser processados ou monitorados é mais inteligente, seguro e, na maioria dos casos, mais humano do que deixá-los a vagar pelo deserto ou terceirizar seu processo jurídico ao sistema iraquiano.

O governo Trump pediu que governos estrangeiros repatriem seus cidadãos, mas autoridades sugeriram que alguns detidos que não podem ser repatriados poderiam ser mandados para a prisão militar de Guantánamo, em Cuba. 

"Eles são seus cidadãos, e por bem ou por mal vocês são responsáveis pela bagunça que estão criando", disse Tanya Mehra, pesquisadora no Centro Internacional para Contraterrorismo em Haia (Holanda). 

Abandonar os seguidores do EI nos campos ou à justiça iraquiana, afirmam os especialistas, pode apenas adiar um acerto de contas.

"Se você os deixar lá e perder seu rastro, mais cedo ou mais tarde eles tentarão voltar e você não saberá o que aconteceu com eles", disse Mehra. "Trazê-los de volta é pelo menos um risco controlado."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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