Descrição de chapéu Venezuela Flip

Romancista convidada da Flip escreve conto baseado na crise da Venezuela

Leia primeira de três partes de "Tesoura", história criada pela venezuelana Karina Sainz Borgo a pedido da Folha

Karina Sainz Borgo
Madri

​A pedido da Folha, a romancista venezuelana ​Karina Sainz Borgo, autora de "Noite em Caracas" (ed. Intrínseca) e convidada da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano, escreve o conto "Tesoura", dividido em três partes e baseado na crise em seu país natal.

Leia também o conto 2, "Escadas", e o conto 3, "Algo vai acontecer".

ilustração de senhora venezuelana segurando bebê ausente
Pintura digital realizada pela artista venezuelana Maria Valentina Fraiz

Chegaram a Cúcuta ao meio-dia. Estavam todas esfomeadas, exceto a avó, que se deitou no assento com os olhos cravados no teto da caminhonete. Quando as viagens começaram, a velha Herminia deixou de comer por medo de que sua filha e sua neta a abandonassem num atalho da fronteira. Ela convertera a fome numa forma de ficar a salvo.

No começo elas atravessavam só uma vez por mês. Agora o faziam todas as semanas. Saíam antes do raiar do dia. Voltavam no comecinho da noite, às vezes com três tomates pequenos ou um pacote de espaguete que lhes durava, quando muito, dois dias. Ferviam o espaguete na água com sal e o comiam no café da manhã, no almoço e no jantar. Tanto fazia o que conseguissem —para Herminia, cada viagem lhe doía os ossos.

“Já dissemos, mamãe: fique em casa. Mas a senhora nem dá bola.”

“Ahã”, bufou a velha, ruminando seus medos como se mascasse fumo.

“A senhora é teimosa como uma mula”, repetiu Koralia, revirando o fundo do bolso.

Depois de muito insistir, sua filha conseguiu uma bala velha e um pacotinho de lenços descartáveis, nada mais. As últimas mexericas elas tinham comido antes de chegar a Capacho Viejo.

“O que você quer, que eu fique sozinha em casa?”, resmungou Herminia. “No dia que eu menos imaginar vocês não voltam e me deixam largada.”

“Mamãe, faça o favor de não falar bobagem.”

“Como vamos deixar a senhora largada, vovó?”, interveio Milagros, sua neta, acalentando nos braços uma criatura-granada que explodia em choro inesperadamente até arrebentar os tímpanos da família inteira.

Herminia suportava aquelas expedições com estoicismo. Era andina até a medula. Tinha o ar reservado dos planaltos andinos, as pernas tortas para fora, os cabelos presos num coque discreto. Quem a tivesse visto alguns anos antes não a teria reconhecido. Havia perdido tanto peso que seu rosto se convertera num balão furado, a versão mirrada daquela que um dia segurara as rédeas de sua vida e da vida dos que a cercavam.

Ela não lembrava em nada a mulher rechonchuda cujos filhos a chamavam de cara de arepa. De tantas que assou no forno, Herminia acabou parecida com aqueles pãezinhos de trigo que vendia num mercadinho ao qual um grupo de militares tocou fogo numa blitz contra estudantes. Ninguém assumiu a responsabilidade pela destruição. A partir desse momento, os anos caíram sobre Herminia como uma avalanche, até sepultá-la por completo.

Não era uma mulher doce, e se alguma vez o havia sido, já não se recordava. Ria pouco e conservava o aspecto rochoso e severo conferido pelos vestidos de permalina, como se em lugar de roupa trajasse uma cortina. Seu marido Antonio morrera dez anos antes. Uma madrugada seu caminhão de mercadorias descarrilou numa curva da rodovia transandina e se espatifou contra as pedras de um precipício. Herminia nunca ficou de luto, se bem que qualquer pessoa diria que ela já nascera com cara de viúva. A velha não tivera uma vida fácil, mas não se queixava. Nem sua mãe nem sua avó o tinham feito —por que ela faria?

“Vovó, fique com a menina enquanto minha mãe e eu vamos resolver um assunto”, lhe disse sua neta, muito descarada.

“Espere por nós aqui, ouviu?”

“Sim, minha filha, ouvi.”

Herminia bufou e pegou a criança no colo. Não lhe agradava muito cuidar da nenê, mas aprendera a usá-la como seguro de vida: ter a bebê a protegia. Estava convencida de que apenas assim elas voltariam para buscá-la. Havia ouvido isso tantas vezes. Antes de sair do país, as famílias abandonavam os velhos. Os abandonavam à própria sorte, com uma coberta e uma garrafinha d’água, na porta de um hospital. Assim morriam os idosos do outro lado da fronteira: amedrontados e perguntando quando seus filhos voltariam para buscá-los.

A velha olhou para o céu, implorando que um raio fizesse desaparecer o parque Santander, nessa hora cheio de pombas e arrastadores, que era como chamavam na fronteira os homens e mulheres que se dedicavam ao escambo ou praticamente arrastavam um potencial cliente, puxando-o pela manga. Aqueles sujeitos compartilhavam com as pombas uma aparência decadente e pulguenta. E assim como elas pegavam do chão as bitucas de cigarro —já que não havia pão para alimentá-las—, os arrastadores disputavam a tapas os pobres coitados dispostos a trocar até seus dentes por alguns pesos.

Koralia e Milagros desapareceram rua abaixo. Levaram dez minutos para chegar ao salão de beleza Los Guerreros. Era um lugar imundo, decorado com recortes de revistas de moda dos anos 1980: cabelos penteados, pálpebras roxas, coletes com estampas de bactérias e vestidos fora de moda. Do lado de fora um grupo de pessoas fazia fila para entrar. Não iam para se pentear —estavam ali para vender seus cabelos.

“Por seu cabelo lhe damos 60 mil pesos, pelo de sua mãe um pouco menos”, lhes disse uma mulher quando finalmente chegou a vez delas.

“Mas eu também tenho cabelo comprido”, retrucou Koralia.

“Não tem o mesmo brilho, e para fabricar nossas perucas usamos cabelo de primeira qualidade.”

Koralia abaixou os olhos enquanto a cabeleireira segurava uma mecha de seus cabelos entre o polegar e dedo indicador.

“Está seco, faltando vitaminas. Parece quebrado”, insistiu a mulher.

“Tudo bem”, disse Koralia. “Vai querer ou não?”

“Se cortarmos tudo, serão 20 mil pesos.”

“Só 20 mil pesos?”

“Estou lhe fazendo um bom preço.”

“Mamãe, não se aflija”, interrompeu Milagros. “Se juntarmos isso com meus 60 mil pesos, teremos 80. Não é mau negócio.”

“Não é mau, é péssimo, filha.”

“Escute aqui, dona, se a senhora quiser, pense e volte mais tarde. Não posso passar o dia todo aqui esperando a senhora se decidir.”

“Se ela não quiser, eu quero”, adiantou-se Milagros, para não perder a viagem.

“Vista isto daqui” —a mulher lhe estendeu uma capa preta— e me espere ali naquela cadeira. Vou chamar uma cabeleireira.”

“Tem certeza de que você quer cortar o cabelo, filha?”, disse Koralia em voz baixa.

“É só cabelo, mamãe. E com isso não se paga o mercado.”

Sua mãe olhou para ela como se a esperasse do outro lado de um túnel comprido. Prendeu o cabelo num rabo de cavalo e foi procurar a mulher que avaliara seu cabelo. Retornou logo depois com uma capa preta salpicada de manchas de tinta e sentou-se ao lado de sua filha. Ainda havia 12 pessoas à frente delas.

Mais que um salão de cabeleireiros, aquilo parecia um barracão: sem espelhos nem pias para lavar o cabelo e com apenas uma fileira de cadeiras de plástico onde as mulheres se acomodavam para deixar-se tosquiar. As cabeleireiras não eram cabeleireiras. Cortavam, nada mais. Elas chegavam com um pente. Primeiro esticavam as mechas e depois metiam a tesoura. Cortavam o mais próximo do crânio possível, para não desperdiçar um fio que fosse.

Quando finalmente chegou sua vez, mãe e filha já haviam decorado o som das tesouras em contato com os cabelos. Um estalo, um tapa, uma extração. Arrancar coisas delas mesmas para vendê-las a quem se dispusesse a pagar. Elas tiveram vontade de sair correndo ou de chorar. Não fizeram nenhuma das duas coisas. Esperaram.

A velha Herminia estava nervosa. Eram quase 6 da tarde, e o sol começava a se esconder, medroso, no entardecer de uma cidade de fronteira. De tanto chorar a menina se rendera ao cansaço. É o que faz a fome: quando a pessoa se acostuma a ela, anestesia qualquer pulsão. Onde havia ido parar aquilo que parecia duradouro, perguntou-se Herminia entre revoadas de pombos imundos.

Koralia e Milagros apareceram. Herminia as reconheceu pela roupa. De longe, pareciam magras e murchas, adiantadas numa velhice que ainda não lhes correspondia. Herminia tirou os óculos e os limpou com o vestido para vê-las melhor. Koralia estava sem cabelo nenhum, enquanto Milagros conservara uma penugem de frangote. Em vez de estarem voltando do mercado, pareciam estar retornando de uma guerra. Seguravam nas mãos dois pacotes de macarrão que colocaram na mochila sem dizer palavra.

“Pegue as coisas, mamãe, que o último caminhão para Rubio vai sair em 15 minutos.”

Chegaram em casa depois da meia-noite. Puseram três copos de água para esquentar em uma panela grande na qual esvaziaram um quarto de quilo de macarrão. Depois de colocar a bebê para dormir, as três se sentaram à mesa. A velha Herminia apenas tomou um copinho de água amidoada que colheu da pia. Suas filhas separavam os fios de macarrão com um garfo. Não os tiravam do lugar, os penteavam, como quem arranca seus cabelos servidos em um prato de peltre.

“Vá dormir, mamãe. Amanhã cedo vamos voltar a Cúcuta”, lhe disse Koralia.

“Para quê?”

Herminia mal terminara de pronunciar a frase quando sentiu o olhar de sua filha cravado sobre o coque hirsuto preso em sua nuca.


Também foram publicados o conto 2, "Escadas", e o conto 3, "Algo vai acontecer".

Tradução de Clara Allain 

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