Descrição de chapéu The Washington Post

Trump está decidido a usar o governo para destruir o candidato democrata

Joe Biden anunciou que disputará Casa Branca em 2020

Paul Waldman
Washington Post

A eleição de 2020 vai ser feia, de muitas maneiras diferentes. Se você achou que Donald Trump fez uma campanha pútrida quando tentava chegar à Casa Branca, espere até que ele esteja lutando para preservar seu poder. É óbvio há algum tempo que Trump planeja promover o ódio e a divisão, mas uma coisa que ainda não enfocamos é como ele usará os recursos do governo federal para garantir a vitória na reeleição.

Tivemos uma pista na quarta-feira (1º), quando o secretário de Justiça, William Barr, depôs na Comissão de Justiça do Senado. A senadora Kamala Harris perguntou a Barr: "O presidente ou alguém na Casa Branca pediu ou sugeriu que o senhor abrisse uma investigação sobre alguém?"

Barr reagiu como se ela tivesse lhe pedido para calcular a velocidade da luz em nanômetros por segundo em base 8. Ele gaguejou um pouco, pediu que ela repetisse a pergunta, repetiu-a para si mesmo, então ficou olhando para o espaço, o que levou Harris a dizer: "Parece que o senhor se lembra de algo parecido", o que de fato parecia. Depois de pensar um pouco na natureza da palavra "sugerir", Barr não respondeu.

A senadora Kamala Harris faz uma pergunta em audiência na Comissão de Justiça do Senado - Reuters

O que sugere a grande possibilidade de que a verdadeira resposta seja "sim". E não teria sido a primeira vez. Como afirma o relatório de Mueller, em maio de 2017 o presidente Trump ligou para o então secretário de Justiça, Jeff Sessions, em sua casa para tentar convencê-lo não apenas a cancelar a investigação da Rússia, como a ir mais longe: "Segundo Sessions, o presidente lhe pediu para reverter sua recusa de modo que Sessions pudesse orientar o Departamento de Justiça a investigar e processar Hillary Clinton."

Sessions não aceitou. Mas você acha que Trump hesitaria por um instante antes de dizer a Barr para abrir uma investigação sobre o futuro candidato democrata à Presidência? E, diante de tudo o que já vimos de Barr, você acha que ele recusaria essa ordem?

Trump pode já estar se preparando para mobilizar os recursos do governo federal para destruir seu adversário, seja quem for. O The New York Times tem um novo artigo apresentando o que às vezes é chamado de "oppo drop": uma reportagem sobre um político iniciada por um opositor político que passa informação prejudicial aos repórteres. Acontece o tempo todo, e não é necessariamente ilegítimo como jornalismo, já que a informação em si pode ser relevante e o jornalista faz sua própria investigação para checar o que lhe disseram.

Mas neste caso o Times identifica a origem da história já no título: "Biden enfrenta questões de conflito de interesses que estão sendo promovidas por Trump e aliados."

Os leitores habituais sabem que não sou o maior fã de Biden, mas essa história parece especialmente fraca em sua implicação de que Biden fez alguma coisa remotamente errada. O resumo é que, quando ele era vice-presidente, promoveu a política do governo Obama pressionando a Ucrânia a combater a corrupção, um objetivo perfeitamente digno compartilhado por muitos países.

Na época, o filho de Biden, Hunter, trabalhava para uma empresa ucraniana chamada Burisma Holdings, que estava sendo investigada pelo promotor-chefe do país, que era considerado corrupto de modo geral. O que nos leva à parte mais crítica desta história, como Trump já está usando seu cargo para perseguir Biden:

"O esforço da equipe de Trump para chamar atenção para o trabalho de Biden na Ucrânia, que já está gerando cobertura na mídia conservadora, foi conduzido em parte por Rudolph Giuliani, que serviu como advogado de Trump na investigação do procurador-especial Robert S. Mueller 3º. O envolvimento de Giuliani levanta questões sobre se Trump está endossando uma iniciativa para forçar um governo estrangeiro a processar um caso que poderia prejudicar um adversário político em seu país.

"Giuliani discutiu a investigação da Burisma, e sua intersecção com os Biden, com o promotor-geral demitido da Ucrânia e o atual promotor. Ele se encontrou com o atual promotor diversas vezes em Nova York neste ano. O atual promotor-geral disse mais tarde a associados que durante uma das reuniões Giuliani telefonou para Trump entusiasmado para lhe informar sobre suas conclusões, segundo pessoas inteiradas das conversas.

"Giuliani não quis comentar o telefonema com Trump, mas reconheceu que ele discutiu a questão com o presidente em diversas ocasiões. Trump, por sua vez, sugeriu recentemente que gostaria que o secretário de Justiça, William Barr, examinasse material reunido pelos promotores ucranianos —repetindo diversos pedidos de Giuliani para que o Departamento de Justiça investigasse o trabalho de Biden na Ucrânia e outras conexões entre a Ucrânia e os Estados Unidos."

Joe Biden, democrata que lançou sua candidatura à presidência - AFP

​Então o que temos aqui é o advogado do presidente, com o envolvimento direto do próprio presidente, forçando uma autoridade estrangeira a abrir uma investigação com o objetivo óbvio de embaraçar um potencial adversário, enquanto o presidente pressiona o Departamento de Justiça a também agir de maneira que possa prejudicar o adversário.

Isso deveria ser um escândalo por si só. E não posso dizer isto com ênfase suficiente: é apenas o começo.

Toda vez que um presidente disputa a reeleição, há pequenas maneiras como ele usa o poder de seu cargo para promover a campanha, como fazer visitas "oficiais" a Estados indecisos com o dinheiro do contribuinte. Mas essas iniciativas geralmente são limitadas pelo potencial de polêmica e a norma acordada de que o presidente só deve ir até certo ponto ao usar os recursos do governo federal em seu benefício político. Mas, como sabemos, Donald Trump não se importa com regras, quanto menos com normas.

O secretário de Justiça, William Barr, escuta uma questão durante testemunho na Comissão de Justiça do Senado - Reuters

Então prepare-se. Trump vai ordenar que o Departamento de Justiça inicie uma investigação de seu adversário —provavelmente mais de uma—, e Barr provavelmente o fará com empenho. Não importa quão trivial seja a matéria, como aprendemos em 2016 quando o fato de Hillary Clinton ter usado o e-mail errado se tornou a questão dominante na campanha. Elizabeth Warren apertou a mão de um sujeito cujo primo tem uma vizinha que namorou um mafioso? O Departamento de Justiça vai investigar. Bernie Sanders teve um estagiário no Congresso cujo pai policial o livrou de uma multa de estacionamento? O FBI está atento. Kamala Harris processou alguém cuja advogada é casada com um homem que tem um contrato com o governo? Há investigações em andamento.

Os republicanos vão gritar que é o crime do século, seja o que for. As investigações federais lhe darão a pátina de legitimidade, e a mídia o cobrirá apropriadamente com toda a insinuação especulativa de que é capaz ("Perguntas estão sendo feitas", afinal.) E não será o Departamento de Justiça –fique tranquilo, neste momento estão trabalhando na Casa Branca para descobrir como todo o governo pode ser utilizado na tarefa de reeleger Trump.

Como eu disse, presidentes anteriores fizeram isso discretamente, com consequências limitadas. Mas a corrupção de Trump, seu desinteresse pelas leis e normas, seu desprezo pela própria ideia de que o governo federal existe para algum outro fim além de servi-lo –tudo isso já está mais que aparente. E ainda não vimos até onde ele pretende ir para manter o poder.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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