Ultradireita sofre reveses às vésperas de eleição europeia

Performance dessas siglas pode ser afetada por escândalo de governo da Áustria

Lucas Neves
Paris

Um terremoto que acaba de sacudir a política da Áustria pode ter repercussões bem além de seu epicentro e mudar o roteiro das eleições para o Parlamento Europeu, que acontecem nesta semana nos 28 países que integram a União Europeia (UE).

As pesquisas mais recentes de intenção de voto sugeriam um avanço dos partidos de direita radical e soberanistas, reunidos hoje, grosso modo, nos grupos Europa das Nações e da Liberdade e Europa da Liberdade e da Democracia Direta, respectivamente.

Na contramão, perderiam espaço a direita tradicional (abrigada sob o guarda-chuva elástico do Partido Popular Europeu) e a social-democracia (centro-esquerda).

Até que, na última sexta (17), estourou em Viena um escândalo que, em questão de horas, desmanchou a coalizão entre conservadores (Partido Popular da Áustria, ÖVP, na sigla original) e ultras (Partido da Liberdade, FPÖ) e levou à convocação de eleições antecipadas.

Em um vídeo divulgado pela imprensa alemã, o agora ex-líder do segundo e também ex-vice-chanceler austríaco, Heinz-Christian Strache, aparece se reunindo em 2017 com uma mulher que diz ser investidora e sobrinha de um oligarca russo, às vésperas da eleição nacional que selaria a entrada dele no governo.

Na conversa, que aconteceu em Ibiza, Strache a incentiva a comprar um jornal na Áustria e transformá-lo em um panfleto pró-FPÖ. Além disso, explica como ela poderia fazer doações não declaradas à legenda.

Em retribuição pela dupla generosidade, a interlocutora ganharia contratos públicos.

Não se sabe quem gravou as imagens nem por que elas só vieram a público agora.

Mas o fato é que, na manhã de sábado (18), Strache renunciou a seus dois cargos e, pouco depois, o chanceler (premiê) austríaco, Sebastian Kurz (ÖVP), anunciou o fim da aliança com o FPÖ e o adiantamento das eleições no país.

O FPÖ integra a frente ultranacionalista e anti-imigração que Matteo Salvini, ministro do Interior e vice-premiê da Itália, pretende liderar —e na qual estão também seu partido, a Liga, e o francês Reunião Nacional, de Marine Le Pen.

A debacle austríaca pode prejudicar o desempenho geral do que o italiano pretende que seja um novo bloco no Parlamento continental, a Aliança Europeia de Povos e Nações.

No vídeo, Strache menciona repetidamente o premiê da Hungria, Viktor Orbán, como modelo de governante que interveio no mercado de mídia para dobrar veículos a seus desígnios. Partido do líder húngaro, o Fidesz (hoje afiliado no plano europeu ao PPE) é um dos que Salvini pretende atrair para seu círculo. 

Além disso, a gravação dá materialidade a uma desconfiança longeva na UE sobre os elos (ideológicos e também financeiros) entre as legendas nacional-populistas e a Rússia.

Em 2014, o RN de Le Pen pediu um empréstimo de 9 milhões de euros a um banco russo a fim de financiar sua campanha para as eleições europeias. A líder alegou que ninguém mais queria bancá-la, daí a necessidade de apelar aos eslavos.

Já em fevereiro, a imprensa italiana noticiou que a Liga havia ao menos cogitado receber, via uma petroleira, um aporte de empresários do setor de energia ligados ao Kremlin. 

​Salvini negou com veemência que conversas nesse sentido tivessem acontecido. Uma assessora desqualificou as suspeitas como “fantasia”.

No caso austríaco, entretanto, não resta dúvida de que uma figura proeminente buscou ativamente financiamento ilegal russo.

“Não sei se vai haver um efeito dominó no curto prazo, a tempo de alterar a tendência eleitoral”, diz o especialista em populismos europeus Thibault Muzergues.

“Precisamos ver se e como a direita tradicional consegue aproveitar essa situação para se reposicionar como o movimento dos patriotas de verdade, enfatizando a ligação dos radicais com Moscou.”

O cientista político Bruno Cautrès, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, tem opinião parecida.

"Certamente não se trata de uma boa notícia para esta família política. Mas na França, por exemplo, o voto será muito influenciado por questões nacionais. As pessoas não acompanham tanto o noticiário da Áustria ou da Itália”, afirma ele.

“Estamos saindo de uma crise política de seis meses [dos coletes amarelos], a popularidade do presidente é baixa. O eleitor poderá simplesmente dizer: '[Emmanuel] Macron não é muito melhor do que isso [votar na Reunião Nacional].”

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