Descrição de chapéu Venezuela

Bachelet cumpriu missão na Venezuela, diz vítima de repressão

O jornalista Luis Carlos Díaz, 34, foi sequestrado e detido pelo regime em março

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Durante sua visita a Caracas, há dez dias, a ex-presidente do Chile e hoje chefe do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, reuniu-se com vítimas da repressão da ditadura de Nicolás Maduro.

Entre elas, estava o jornalista Luis Carlos Díaz, 34, sequestrado e detido pelo Sebin, o serviço de inteligência do regime venezuelano, em março.

Esposa segura retrato de Luis Carlos Díaz
Esposa segura retrato de Luis Carlos Díaz - Ronaldo Schemidt - 12.mar.19/AFP

Díaz estava percorrendo a cidade de bicicleta para observar e reportar o apagão que atingiu o país naquela época.

Foi preso sob a acusação de ser um dos instigadores de um suposto complô que teria causado o próprio apagão.

Depois de 30 horas, foi solto, mas com diversas restrições sobre como deveria atuar e a obrigação de comparecer a cada oito dias ao Sebin para reportar seu paradeiro e ações.

O jornalista trabalha de forma independente mas tem milhares de seguidores. Mantém, com a mulher, a também jornalista Naky Soto, um site.

Com ela, produz podcasts e colabora com diferentes meios. Trabalhava para uma rádio, mas foi obrigado a deixá-la. Sua prisão causou comoção internacional e vários pedidos de organizações de jornalistas para que fosse liberado.

Até hoje, Díaz está impedido de falar sobre o que ocorreu nas horas em que esteve preso e sobre o andamento do processo.

Também está impedido de deixar o país para dar palestras, o que fazia com frequência e o ajudava no orçamento de sua família —sua mulher tem câncer e ambos precisam de dinheiro para o tratamento dela.

Em entrevista à Folha, por telefone, Díaz disse que considera a visita de Bachelet positiva.

“Ela não veio aqui para se convencer de nada, para verificar se era verdade que havia abusos. Ela sabe muito bem o que está ocorrendo”, afirma.

Nesse sentido, o jornalista vê a visita como “um gesto internacional que aponta para um problema grave”. “Além disso, ela conseguiu colocar aqui duas pessoas que vão estar o tempo todo vendo o que ocorre e um escritório da ONU dedicado a isso.”

Para Díaz, o fato de Bachelet ter se reunido com Maduro e com a cúpula chavista não quer dizer que ela os respalda.

“Ocorreu porque é parte do protocolo. Ela foi muito clara com as vítimas em sua posição de dar projeção e vigiar o que está acontecendo”, diz.

“Muitos criticaram, dizendo que sua visita não tinha levado a nada, mas há que se considerar que não é sua função hoje em dia fazer política. Sua missão era com os abusos de direitos humanos, e essa, falo como vítima, creio que a cumpriu.”

Perguntado sobre o desânimo que parece estar tomando conta da Venezuela, com menos protestos de rua, altos e baixos do apoio ao líder da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, Díaz disse que isso é natural.

“Ninguém aguenta marchar todos os dias, especialmente se há repressão, mas não há resultados. Não significa que a situação melhorou. O povo com cada vez mais fome pensa no mais imediato, que é como vai alimentar sua família, e não em derrubar um governo que reprime”, conta.

Díaz afirma que vai continuar fazendo jornalismo, “porque é preciso contar o que está acontecendo. E, veja, Caracas não está em uma situação tão ruim. Maracaibo e Zulia não têm luz, não têm gasolina, não têm comida. Não podemos deixar de reportar.”

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