Descrição de chapéu The New York Times

Com jeito de prisão, centro mantém crianças imigrantes no Texas

Jornalistas entraram pela primeira vez no local denunciado por ativistas

Simon Romero
Clint (EUA) | The New York Times

Meninas, algumas das quais de apenas três anos de idade, apertavam os rostos contra as janelas de uma cela lotada que abrigava quase 20 crianças imigrantes —do lado de dentro, podia-se ver algumas delas deitadas no chão.

Já os meninos olhavam por entre as barras das cercas que delimitam uma zona de contenção a céu aberto, exposta a um calor de 38 °C.

As autoridades do Serviço Alfandegário e de Proteção de Fronteira dos Estados Unidos permitiram que um grupo de jornalistas realizasse uma visita breve e fortemente restrita ao centro de fronteira da cidade de Clint, perto de El Paso, no Texas, a fim de negar os relatos que apontam para condições precárias, sujeira e abusos contra as crianças detidas no local. 

Agentes de fronteira afirmaram que as crianças recebiam sabonetes e escovas de dentes, e mostraram prateleiras contendo esses produtos no almoxarifado do centro (outras prateleiras guardavam xampu repelente para piolhos e luvas de borracha para uso médico).

O centro onde estão as crianças em Clint, no Texas
O centro onde estão as crianças em Clint, no Texas - Mario Tama/Getty Images/AFP

Os agentes afirmaram que as crianças detidas em Clint não estão passando fome, e mostraram pilhas de caixas de macarrão instantâneo e de aveia empilhadas perto de uma sala de processamento.

Mas os agentes não permitiram que os jornalistas entrassem em qualquer das celas e proibiram conversações com as crianças detidas, invocando normas governamentais. A agência também proibiu que os jornalistas levassem câmeras ou celulares na visita e ameaçou expulsar os repórteres que o fizessem.

"Não fale com ela", um agente disse a um repórter quando este viu uma menina, que parecia ter 10 ou 11 anos de idade, chorando incontrolavelmente enquanto conversava ao telefone, em espanhol, em uma das salas de processamento. "Se fizer qualquer pergunta a ela, você será excluído da visita", o agente ameaçou.

A unidade de Clint é o local para onde os agentes do Serviço Alfandegário e de Proteção de Fronteira dos Estados Unidos conduzem as crianças não acompanhadas detidas ao atravessar a fronteira entre Estados Unidos e México no setor de El Paso, que se estende pelo sul do estado do Novo México e por parte da região oeste do Texas.

Nos últimos dias, reportagens sobre as condições prevalecentes em Clint causaram indignação, e John Sanders, comissário interino do Serviço Alfandegário e de Proteção de Fronteira dos Estados Unidos, anunciou que deixaria o posto no começo de julho.

As autoridades também transportaram 249 crianças que estavam detidas em Clinton para outras instalações, a fim de aliviar a lotação, mas terminaram devolvendo mais de 100 delas ao centro, que havia sido esvaziado dias antes.

Aaron Hull, o agente chefe da patrulha de fronteira no setor de El Paso, diz que seus comandados enfrentam falta de pessoal e de verbas e uma alta no número de imigrantes vindos da América Central.

"Quando apanhamos um número de estrangeiros maior do que somos capazes de processar, eles tendem a se acumular aqui no centro", disse Hull.

Outros agentes reconheceram que as condições relativamente limpas e de baixa lotação na central de Clint tinham surgido apenas nas últimas semanas, depois da transferência de centenas de crianças que antes estavam detidas no local. Matthew Harris, o agente encarregado do centro de Clint, disse que ela foi construída em 2012, para deter um máximo de 100 pessoas por períodos curtos.

Mas nos últimos meses, disse Harris, a instalação em determinados momentos chegou a deter mais de 700 crianças. Ela foi projetada para abrigar crianças por entre oito e 12 horas, mas ele disse que algumas delas chegaram a passar 30 dias detidas lá.

Um bebê de um ano está alojado em Clint com sua mãe, que também é menor de idade, disse Harris. Ele acrescentou que a criança mais nova detida no centro tem apenas 15 dias de idade, e está detida há uma semana em companhia de sua mãe.

Em termos gerais, o centro de fronteira em Clint se parece mais com uma prisão ou um acampamento improvisado do que com um centro de recepção para menores de idade. Em uma área de processamento contendo nove celas, crianças acompanhavam com o olhar a movimentação de agentes armados.

Não há livros, lápis de cor ou mesmo folhas de papel nas celas; não há desenhos decorando as paredes, como acontece nos abrigos em que famílias imigrantes são detidas por períodos prolongados.

Em um local usado para a detenção de meninos, uma área em forma de jaula que no passado era usada como ponto de entrada fortificado para o dentro, "Shrek" está em cartaz na TV; na parede um cartaz menciona alguns dos idiomas que crianças detidas falam: k'iche', poqoman, garifuna.

Os agentes conduziram os jornalistas em uma visita a apenas algumas áreas do centro, e mostraram vasos sanitários portáteis e uma cesta de basquete montada em uma área vazia, com piso de cascalho. As áreas ao ar livre em que crianças estiveram detidas não foram mostradas aos jornalistas pelos agentes.

Em uma mudança ante as normas que vigoravam em meses anteriores, monitores de uniforme azul, fornecidos por uma empresa de prestação de serviços, estavam visíveis monitorando algumas das crianças. Harris, encarregado do centro de Clint, disse que a quarta-feira, o dia da visita dos jornalistas, era também o primeiro dia de trabalho dos monitores.

Advogados que se queixaram publicamente de falta de acesso ao centro reportaram recentemente que foram informados de que havia crianças de oito anos de idade tomando conta de bebês; também disseram ter sido informados de que não havia fraldas para as crianças pequenas.

Mas Harris disse que os advogados não haviam sido autorizados a ver algumas partes do centro que foram abertas aos jornalistas na quarta-feira, e que só haviam sido autorizados a conversar com as crianças em uma sala de reunião.

Os advogados cujos relatos despertaram reações negativas às condições em Clint solicitaram uma liminar em regime de urgência na noite de quarta-feira solicitando autorização para inspecionar todas as instalações do Serviço Alfandegário e de Proteção de Fronteia dos Estados Unidos nas regiões de El Paso e no vale do rio Grande, no Texas.

A petição toma por base um acordo judicial federal que estabeleceu padrões para o tratamento de crianças imigrantes; também solicita que o Serviço Alfandegário e de Proteção de Fronteia dos Estados Unidos seja citado por violação do acordo, devido às suas "violações flagrantes e persistentes" dessas regras.

Os advogados solicitaram decisão imediata pela juíza Dolly Gee, do distrito central da justiça federal na Califórnia. As denúncias deles se beneficiaram de um rascunho de relatório do inspetor-geral do Departamento de Segurança Interna (DSI) americano, obtido pelo site BuzzFeed News na quinta-feira.

No texto, investigadores apontam para problemas de saúde e segurança muito semelhantes aos mencionados pelos advogados que visitaram Clint.

Perguntado sobre as condições muito negativas a que as crianças estavam sendo submetidas pelo seu departamento, Hull afirmou que algumas das queixas quanto ao comportamento da agência eram "dolorosas". Ele também disse que "explicamos repetidas vezes que precisamos de recursos para fazer o trabalho".

O Senado, controlado pelo Partido Republicano, na quarta-feira aprovou US$ 4,6 bilhões em verbas para assistência humanitária de emergência ao longo da fronteira com o México, desconsiderando um projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados um dia antes e que estabelecia condições mais severas para o dispêndio do dinheiro.

A votação criou mais um impasse quanto às verbas para a fronteira, e incerteza continuada sobre como os agentes encarregados das operações cotidianas poderão cuidar das crianças detidas que estão sob seus cuidados.

Tradução de Paulo Migliacci

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