Deslocados à força no mundo chegam a 70 milhões e batem novo recorde, diz ONU

Guerras, perseguições políticas e crises humanitárias são maiores causas para problema, aponta relatório

Flávia Mantovani Bruno Benevides
São Paulo

O número de pessoas em todo o mundo que deixaram suas casas para fugir de guerras, violência, perseguições políticas e crises humanitárias bateu um recorde em 2018, chegando a 70,8 milhões —o dobro do que era há 20 anos.  

Isso representou um aumento em relação às 68,5 milhões que estavam nesta situação em 2017. Os dados fazem parte de um novo relatório divulgado nesta quarta-feira (19) pelo Acnur (agência da ONU para refugiados).

Deslocados sírios chegam à passagem de Jlaighem, no leste da província de Homs, no centro da Síria
Deslocados sírios chegam à passagem de Jlaighem, no leste da província de Homs, no centro da Síria - Ammar Safarjalani - 12.jun.19/Xinhua

Segundo o documento, 13,6 milhões de pessoas foram deslocadas à força apenas em 2018, o que significa uma média diária de 37 mil. Em compensação, 11,3 milhões de pessoas conseguiram deixar essa situação —voltando para casa ou adquirindo uma nova nacionalidade, por exemplo. 

 

A maior parte (41,3 milhões) das pessoas obrigadas a deixar suas casas é de deslocados internos —ou seja, pessoas que permanecem em seus países de origem.

O restante inclui 25,9 milhões de refugiados (que buscaram abrigos em outros países) e 3,5 milhões de solicitantes de refúgio (que ainda aguardam uma definição de seu futuro).

Para Federico Martinez, representante-adjunto do Acnur no Brasil, essa situação deve continuar piorando. “É o sétimo ano seguido que vemos essa tendência de crescimento. As causas que levam a esse problema não estão sendo resolvidas”, afirmou à Folha.

A situação, disse ele, é especialmente preocupante na América Latina. Primeiro porque as décadas de conflito armado na Colômbia geraram 8 milhões de deslocados internos no país —só a Síria, com 13 milhões, tem mais.

Apesar do acordo de paz entre o governo e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), ainda deve demorar alguns anos até a questão começar a melhorar no país, segundo Martinez.

​​A isso se soma o grande fluxo de imigrantes gerado pela crise na Venezuela. No total são 4 milhões de pessoas, segundo os dados mais recentes —mas apenas 450 mil pediram refúgio.  

“É o maior deslocamento na história da região”, disse Martinez. Em um cenário tão pessimista, ele destaca o trabalho feito pelos países da América Latina para receber os refugiados venezuelanos, facilitando especialmente o acesso a documentos.

“A maior parte dos refugiados acaba procurando abrigo nos países vizinhos. É o que acontece, por exemplo, com venezuelanos indo para a Colômbia. E também com sírios indo para a Turquia”, afirmou.

Os números do relatório confirmam sua declaração. A cada cinco refugiados no mundo, quatro vivem em um país vizinho ao seu, e um terço mora em países pobres, contra 16% em nações ricas.

Por causa da guerra civil que assola a Síria desde 2011, 6,7 milhões de refugiados já deixaram o país, o maior contingente do planeta. O número fica bem acima dos 2,7 milhões que deixaram o Afeganistão, segundo no ranking.

A maior parte dos sírios, aliás, procurou abrigo exatamente na Turquia, o que fez o país se transformar no que mais recebe refugiados no mundo, com 3,7 milhões.

O segundo na lista, com 1,4 milhão, é o Paquistão, vizinho do Afeganistão, seguido de Uganda (1,2 milhão) e Sudão (1,1 milhão) —os dois últimos vizinhos do Sudão do Sul, de onde já saíram 2,3 milhões de refugiados.

O relatório do Acnur chama a atenção ainda pelo grande fluxo de crianças e jovens obrigados a fugirem de seus locais de origem.

Cerca de metade dos refugiados no planeta tem menos de 18 anos, dos quais 138 mil são crianças desacompanhadas.

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