Descrição de chapéu The New York Times

Investimento em Toronto liga alerta sobre aumento de poderes do Google da vida online para mundo físico

Críticos do projeto temem perda de privacidade dos cidadãos com coleta de dados

Ian Austen
The New York Times

Na segunda-feira (24), Toronto pôde presenciar pela primeira vez a visão criada por uma empresa irmã do Google para uma reforma high-tech de uma parte deteriorada da orla do lago Ontario. Críticos do plano apresentado encontraram pouca coisa que amenizasse seus receios.

Antes mesmo de o plano ser apresentado, organizações de cidadãos já estavam contestando o projeto de reforma da área, enquanto defensores da privacidade dos cidadãos se angustiavam. Alguns indagavam se Toronto não estava levando longe demais sua adesão à tecnologia ao dar a uma empresa do setor liberdade tão grande para criar uma comunidade.

A discussão só se intensificou na segunda, com a divulgação do primeiro plano detalhado feito pela Sidewalk Labs, subsidiária da Alphabet, a empresa mãe do Google, 18 meses depois de ser convidada a reformular a maior cidade do Canadá.

O skyline da parte central de Toronto e a torre CN na área da orla visada pela Sidewalk Labs
O skyline da parte central de Toronto e a torre CN na área da orla visada pela Sidewalk Labs - Chris Helgren/Reuters

Bianca Wylie, membro sênior do think tank Center for International Governance Innovation e uma das primeiras críticas do projeto, disse que o plano de 1.300 páginas da Sidewalk —que ela descreveu como longo demais para ser lido pelos cidadãos, mas mesmo assim carente de detalhes— “visa tirar as políticas públicas da alçada da democracia e colocá-las nas mãos de uma grande empresa”.

O plano se baseia numa gama enorme de coleta de dados, incluindo sensores para monitorar coisas como a rapidez com que as pessoas atravessam ruas e o índice de utilização de bancos em parques, além do uso de robôs para entregar pacotes e recolher o lixo.

Daniel L. Doctoroff, o presidente da Sidewalk, descreveu o plano como um manifesto para a cidade do amanhã. “É um manual de uma abordagem inteiramente nova ao urbanismo”, disse em entrevista na segunda-feira.

Embora haja indícios de que a empresa tenha levado em conta as críticas do público —o plano agora enfatiza unidades habitacionais de custo acessível e o uso de parceiras tecnológicas canadenses—, a agência Waterfront Toronto, criada para supervisionar o projeto de reconstrução, citou várias preocupações sobre a fase inicial do projeto, conhecido como Quayside.

A agência disse que, entre outros problemas, não ficou claro de imediato se os planos da Sidewalk de coleta e utilização de dados e de proteção da privacidade obedecem às leis canadenses ou a seus próprios padrões.

“Este projeto suscitou discussões acaloradas e, independentemente do resultado delas, levanta questões que precisam ser analisadas”, disse Stephen Diamond, presidente da Waterfront Toronto, que é financiada pelos governos federal, provincial e local. “Quer o projeto Quayside siga adiante ou não, a discussão que estamos tendo é importante para a cidade inteira.”

O plano de desenvolvimento é incomum em sua escala.

O projeto pode acabar envolvendo uma área de mais de 320 hectares, a maior parte dela num antigo porto a leste do centro da cidade e que foi construída na década de 1950 na expectativa, que não chegou a ser realizada, de que o Canal do St. Lawrence faria de Toronto um grande centro de transporte marítimo.

A Sidewalk propôs desenvolver apenas as duas primeiras fases do projeto. Ela estima o custo em 3,9 bilhões de dólares canadenses, ou US$ 2,96 milhões, e diz que pretende investir 900 milhões de dólares canadenses (cerca de US$ 680 mi). A empresa propôs oferecer sua tecnologia —e sua assessoria como consultora— aos governos para ser usada pelas construtoras que ficariam a cargo do restante do projeto.

Para seus defensores, o projeto Quayside promete ser um avanço tanto em termos de design urbano quanto para a comunidade tecnológica canadense, boa parte da qual hoje trabalha na região entre Toronto e as cidades gêmeas de Kitchener e Waterloo, a oeste desta.

Mas, numa época em que cresce o sentimento de desconfiança em relação às grandes empresas de tecnologia, os críticos da Sidewalk acham que o plano possibilitará ao Google utilizar seus amplos recursos financeiros para ampliar seus poderes de vigilância, passando da vida online das pessoas para o mundo físico também. Isso gera receios quanto à perda de privacidade e de controle democrático.

“Fiquei empolgado com o projeto e ainda acredito na visão de uma comunidade em que a tecnologia virá em primeiro lugar”, disse Milan Gokhale, profissional do setor de tecnologia e organizador da #BlockSidewalk, uma de várias organizações que se opõem ao plano, entrevistado antes do lançamento do plano. “Só não precisamos do Google para colocá-lo em prática.”

Boa parte da área do projeto pertence ao governo e hoje é usada principalmente para estacionar e armazenar estoques de revendedoras de carros.

Em 2017, o primeiro-ministro Justin Trudeau foi a Toronto para anunciar a decisão de encomendar o plano da Sidewalk e falou em tom elogioso sobre seu potencial. A proposta foi defendida com entusiasmo pela Câmara de Comércio de Toronto, entre outras entidades.

Mas alguns dos que o criticam são igualmente destacados e estão longe de ser tecnófobos. O crítico mais acirrado vem sendo Jim Balsillie, que foi co-executivo chefe da empresa hoje conhecida como BlackBerry na época em que ela lançou o primeiro smartphone bem-sucedido.

Foto de arquivo mostra a parte leste da orla do lago Ontário, em Toronto; região é visada pela Sidewalk Labs, empresa da Alphabet, dona do Google - Chris Helgren/Reuters

“Quero que esta farsa de consulta acabe logo. Trata-se de uma brincadeira psicológica desagradável de relações públicas que se arrasta há 18 meses e virou o aspecto que mais define este projeto”, escreveu Balsillie em e-mail.

“O Google usou intencionalmente da ambiguidade, subverteu o processo democrático, semeou incerteza sobre áreas cruciais, como a governança de dados, e revelou informações ao público apenas quando foi obrigado a fazê-lo devido a críticas agressivas ou a um vazamento de informações para a mídia”, escreveu.

Numa tentativa de frear esse tipo de crítica, no final do ano passado a Sidewalk divulgou um plano proposto de privacidade de dados.

A empresa disse que todos os dados gerados pelos sensores previstos em seu projeto serão encaminhados a um organismo independente, que a Câmara de Comércio sugeriu que seja o sistema de bibliotecas de Toronto.

O Google não terá acesso prioritário aos dados, que serão abertos a todos. Antes de qualquer informação ser colhida ou analisada, qualquer entidade que queira usá-la terá que informar ao organismo independente por que precisa dos dados e terá que detalhar proteções à privacidade.

“Quando divulgamos o plano, a grande maioria das pessoas entendeu como ele é surpreendente e diferente, especialmente quando comparado à espécie de Velho Oeste que existe hoje na área dos dados urbanos”, disse Doctoroff.

Na segunda-feira, questionado sobre as preocupações da Waterfront Toronto com seus planos de dados e privacidade, Doctoroff respondeu: “É uma proposta que com certeza precisará ser discutida mais a fundo e passar por mais modificações”.

Ele reconheceu que muitos aspectos do plano —especialmente a oferta de financiar a construção de uma linha ferroviária leve para a área— ultrapassam o que poderia ser aprovado pela Waterfront Toronto e precisariam ser revistos por vários níveis do governo, além de exigir modificações grandes e pequenas em vários regulamentos e leis.

Sempre que possível, disse Doctoroff, a Alphabet usará empresas canadenses para desenvolver e fornecer tecnologias e sistemas para o projeto.

Ele admitiu que a Sidewalk talvez precise desenvolver algumas coisas por conta própria.

Tradução de Clara Allain

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