Filme aborda abuso sexual de enteada por ditador da Nicarágua

Zoilamérica Murillo conta que começou a ser abusada por Daniel Ortega aos 11 anos

Flávia Mantovani
São Paulo

“Por que sua mãe não acreditou em você? Você não gritou alto o suficiente?”

A pergunta foi feita a Zoilamérica Murillo por seu filho mais novo, Giordano.

Zoilamérica Murillo em cena do documentário 'Exilada'.
Zoilamérica Murillo em cena do documentário 'Exilada' - Divulgação

A mãe dela, que não teria acreditado na filha, na visão do neto de oito anos, é a mulher mais poderosa da Nicarágua: Rosario Murillo, esposa do ditador Daniel Ortega e sua atual vice-presidente.

O acontecimento a que Giordano se refere marcou tanto a vida de Zoilamérica quanto a história da nação.  Segundo o relato, seu padrasto Ortega abusou sexualmente dela durante mais de uma década, começando quando ela tinha 11 anos e se mudou com a mãe para a casa dele.

Um documentário recém-lançado traz à tona a história de Zoilamérica, hoje com 52 anos, em um momento turbulento para a Nicarágua, que enfrenta desde abril de 2018 uma crise política com forte repressão de Ortega a opositores.

Em 1998, aos 31, Zoilamérica denunciou os abusos em um relato detalhado que incluía estupros em hotéis durante viagens oficiais para eventos como os das Nações Unidas. Ortega, então deputado, tinha imunidade parlamentar. Quando o caso chegou aos tribunais, em 2001, o juiz decretou que o crime tinha prescrito.

Desde 2013, ela vive na Costa Rica, destino da maioria dos conterrâneos que fogem da perseguição do regime. É essa condição que dá nome ao filme: “Exiliada” (exilada), dirigido pela nicaraguense Leonor Zuñiga, 34 —ela própria também no exílio.

“Saí para terminar o filme em segurança. Qualquer manifestação de dissenso ou crítica neste momento tem sido alvo de perseguição”, contou Zuñiga à Folha, por telefone.

“Exilada” acompanha a personagem a partir de 2016, em momentos-chave como o anúncio televisionado de que Ortega concorreria ao terceiro mandato seguido, desta vez com a esposa como vice. 

Cenas do seu dia a dia são alternadas com imagens de crianças em meio a manifestações sandinistas e de noticiários de TV na época da denúncia dos abusos.

Em uma cena, Rosario declara a jornalistas que se trata de “um assunto de família”. Em outra, aparece ao lado de Ortega enquanto ele discursa: “Rosario me dizia que queria pedir perdão ao povo por ter uma filha que traiu os princípios da Frente Sandinista”.

No filme, Zoilamérica descreve o padrasto como um homem considerado um deus para os seguidores. Conta que foi responsabilizada pela mãe pelos abusos e pressionada a ficar em silêncio.

Zuñiga afirma que fez duas promessas a ela antes de rodar o documentário: “Disse que não seria uma filme de ódio aos seus pais, mas sobre ela. Ela teria a voz, diria como aquilo tudo a afetou. Não queria dar mais protagonismo a vozes que já tiveram demais”, conta.

A outra promessa é que ela não perguntaria como tinham sido os abusos. “É só isso que perguntam a ela desde 1998. Eu quis evitar essa parte da fofoca.”

A diretora também contou a Zoilamérica que tinha sido abusada por um vizinho aos oito anos. Essa experiência pessoal ajudou a despertar seu interesse no assunto.

“Desde a adolescência, esse tema está muito presente para mim. Em uma mesa de dez amigas, sete diziam que tinham sofrido abuso sexual”, conta. “Vi um padrão em que a família pede à vítima para não falar para não destruir a unidade familiar.”

Rosario Murillo, vice-presidente da Nicarágua, e o ditador Daniel Ortega acenam para o publico
Rosario Murillo, vice-presidente da Nicarágua, e o ditador Daniel Ortega participam de inauguração de um viaduto em Managua - Oswaldo Rivas/Reuters

Decidiu focar o filme em Zoilamérica, “um caso extremo que funciona como um espelho disso, de até onde pode chegar a sociedade para proteger um homem que abusa de uma criança”. “É uma grande metáfora para o que acontece em muitas famílias e para o que acontece no país”, diz Zuñiga.

Apesar de não ser o foco do roteiro, o paralelo entre o abuso de poder do padrasto que estupra a enteada e do ditador que reprime cidadãos está o tempo todo nas entrelinhas.

A própria Zoilamérica já disse que vê muitas semelhanças entre seu caso e a situação política da Nicarágua, diz Zuñiga. A diretora lista algumas delas: “Assim como os abusadores sexuais costumam culpar a vítima, o presidente diz que as pessoas assassinadas ou presas são culpadas porque tentam promover um golpe de estado. O caso de estupro é tratado como assunto de família, e o mesmo é feito em relação aos crimes contra a humanidade: ‘vamos resolver entre nós, vamos seguir adiante em prol da estabilidade’”, diz.

“E existe a metáfora surreal de Zoilamérica ter tido que deixar o país, assim como 60 mil nicaraguenses”, completa.

Concebido durante o mestrado de Zuñiga na Universidade Stanford, o documentário de 25 minutos estreou em abril em um festival no Canadá. 

A diretora, casada com um filho de mãe nicaraguense e pai brasileiro, pretende inscrever-se no fim do ano em dois festivais no Brasil.

Após abril de 2018, ela decidiu acrescentar seis minutos ao filme, incluindo um trecho em que Zoilamérica conta que foi vista como uma ameaça à revolução após a denúncia.

“Queria lembrar que chegamos a essa situação porque, para salvar um projeto, muita gente apoiou esse homem, que deveria ter acabado sua carreira em 1998”, diz a diretora.

Também incluiu mais momentos de felicidade de Zoilamérica com seus filhos, em uma preocupação de mostrar a resiliência da personagem.

“Não queria transmitir a ideia de que não vale a pena denunciar”, diz Zuñiga. "Ela viveu coisas muito duras, mas ter ficado em silêncio teria sido pior do que tudo que ela teve que suportar depois.”

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