Descrição de chapéu Governo Trump

Irã ameaça violar acordo nuclear se Europa não frear Trump

Anúncio ocorre após EUA acusarem Teerã de ter atacado petroleiros no Golfo de Omã

Dubai e São Paulo | Reuters

O Irã anunciou nesta segunda (17) que vai aumentar seu estoque de urânio pouco enriquecido nos próximos dez dias, em uma violação do acordo nuclear firmado com outras potências em 2015 e do qual os EUA se retiraram no ano passado. 

O urânio pouco enriquecido é um tipo de combustível usado em reatores nucleares, mas, se passar por um processo de enriquecimento, pode servir como componente de armas nucleares. O Irã afirma que isso pode acontecer. 

Contudo, Teerã afirmou também que pode manter a expansão de seu programa nuclear dentro dos limites do pacto caso nações europeias ajudem o país a compensar perdas financeiras advindas de sanções impostas por Washington. 

O anúncio de Teerã vem em um momento de alta tensão nas relações do país com os Estados Unidos. O governo Trump acusa o Irã de ter atacado dois navios petroleiros no Golfo de Omã na quinta (13)o que o Irã nega. Pela região passam 20% de todo o petróleo consumido no mundo.

Vista da planta nuclear de Arak, sudoeste do Irã - Hamid Foroutan/AFP

"Nós quadruplicamos a taxa de enriquecimento de urânio e ainda a aumentamos mais recentemente, então em dez dias vamos ultrapassar o limite [estabelecido pelo acordo] de 300 kg", disse Behrouz Kamalvandi, porta-voz da agência iraniana para energia atômica. 

A agência ameaçou começar o processo de enriquecimento de urânio em até 20% a partir do dia 7 de julho, o que tornaria o elemento apto a ser usado em armamentos. 

O urânio pouco enriquecido serve para fins pacíficos, como a geração de energia nuclear, mas não é passível de ser utilizado para objetivos militares, explica o professor de Química da USP Fabio Rodrigues. Para fins bélicos, o urânio precisa ser altamente enriquecido. 

Por esaa razão, "o enriquecimento desae elemento químico é uma tecnologia sensível que precisa estar sujeita a um rígido controle internacional", diz a Associação Nuclear Internacional. O controle do enriquecimento de urânio é um dos pontos principais do acordo nuclear com o Irã.

A ameaça do Irã seria uma resposta ao fato de os EUA terem se retirado unilateralmente do acordo em 2018, e, em seguida, imposto sanções econômicas ao país, entre as quais proibir aliados de importar petróleo iraniano —a exportação da commodity é a principal fonte de renda do Irã.

Em paralelo, em entrevista coletiva na usina nuclear de Arak, no sudoeste do país, Kamalvandi disse que o Irã pode voltar a produzir plutônio, um combustível usado em ogivas nucleares.

Teerã, porém, acrescentou que vai cumprir os pontos do acordo se Inglaterra, França, Alemanha e Reino Unido —todos signatários do pacto—  derem ao país acesso ao sistema financeiro internacional, burlando as sanções impostas pelos EUA, além de compensarem as perdas causadas pelas diminuições das exportações de petróleo. 

"Ainda há tempo [de salvar o acordo] se os países europeus agirem", completou Kamalvandi.

"É um momento crucial, e a França ainda pode trabalhar com outros signatários do acordo e ter papel histórico em salvar o pacto em um curto período de tempo", acrescentou o presidente do Irã, Hassan Rouhani. Ele afirmou que o colapso do pacto não é do interesse da região e do mundo.

Em resposta, o presidente francês Emmanuel Macron disse lamentar a decisão iraniana. 

O acordo assinado em 2015 fixava limites para o enriquecimento de urânio, o que impediria o desenvolvimento de uma bomba nuclear pelo Irã. Em troca, sanções econômicas contra o país seriam afrouxadas. 

Também nesta segunda, o Irã afirmou que, se decidir bloquear o estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, tomaria tal atitude publicamente. O chefe das Forças Armadas do país, major general Mohammad Baqeri, disse que o país é "militarmente forte para bloquear o estreito integral e publicamente", de acordo com a agência de notícias iraniana Fars.

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, disse no domingo (16) que os EUA não querem entrar em guerra com o Irã, mas que tomariam todas as medidas necessárias para garantir uma navegação segura pelas rotas marítimas do Oriente Médio.

Nesta segunda, o governo americano criticou a decisão de Teerã. "O presidente Trump já deixou claro que nunca vai permitir que o Irã desenvolva armas nucleares. A chantagem nuclear do regime deve ser respondida com um aumento da pressão internacional", disse o porta-voz do Conselho Nacional de Segurança da Casa Branca, Garrett Marquis. 

O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, também defendeu um aumento das sanções contra o Irã caso o país viole o acordo. 

A Agência Internacional de Energia Atômica da ONU se recusou a comentar. O chefe do órgão, Yukiya Amano, afirmou na semana passada que estava preocupado com o aumento das tensões em torno do programa nuclear iraniano e que esperava que elas pudessem ser resolvidas por meio do diálogo.

O ministro holandês das Relações Exteriores, Stef ​Blok, comentou que a União Europeia quer manter o acordo nuclear com o Irã, mas que o país precisava fazer o mesmo.

O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que ainda há tempo de salvar o acordo nuclear e lamentou a decisão do Irã de enriquecer urânio. Macron afirmou estar disposto a "dissuadir" o país deste objetivo e querer encontrar "um caminho para um possível diálogo". 


Entenda o que está em jogo

O que significam as explosões nos petroleiros?

Um aumento de tensões na região. Há uma “Guerra Fria” entre a Arábia Saudita, a maior exportadora de petróleo do mundo, apoiada pelos EUA, e o Irã, rival dos americanos há 40 anos e que luta pela supremacia da região com os sauditas.

Quando tudo começou?

Os primeiros ataques a petroleiros foram em 12 de maio, na costa dos Emirados Árabes.

Quem está por trás dos ataques de maio e de junho?

Nos dois casos, não se sabe. Os EUA e a Arábia Saudita culpam o Irã, que nega.

O que o Irã ganharia atacando petroleiros?

O Irã pode ter conduzido os ataques numa tentativa de alavancar seu poder de negociação e fazer aumentar a pressão global para o retorno de conversas com os EUA, com quem é rompido. Além disso, as explosões seriam uma demonstração de que o Irã é capaz de afetar o comércio mundial de petróleo. Contudo, não há confirmação de que os ataques partiram do Irã.

Qual o papel do Irã na região?

O Irã era o maior aliado americano no Golfo Pérsico até 1979. Depois da Revolução Islâmica daquele ano e da invasão da embaixada americana em Teerã, a relação dos países foi rompida e os EUA passaram a apoiar a Arábia Saudita, que se tornaria a maior potência regional nas décadas seguintes.

O Irã volta a ter influência com a eleição de Mahmoud Ahmadinejad, em 2005. Também aumentou seu poder político com a queda de Saddam Hussein. Em paralelo, o Irã detém certo controle do Estreito de Hormuz, por possuir mísseis supersônicos capazes de atingir navios comerciais (petroleiros) e militares. O petróleo é a principal fonte de renda do país.

E o papel da Arábia Saudita?

O país é forte aliado americano —a Arábia Saudita foi a primeira nação visitada por Trump depois de assumir como presidente. Trump apoia os sauditas contra a influência do Irã na região.

O que os EUA querem?

EUA querem estrangular a economia do Irã, impedindo que o país exporte petróleo. O suprimento seria fornecido por outros países, entre eles a Arábia Saudita (que tem petróleo de altíssima qualidade, melhor que o do Irã e um pouco mais caro) e os Emirados Árabes.

O que os EUA vêm fazendo para bloquear o Irã?

O país se retirou, em 2018, de um acordo nuclear assinado em 2015 com o Irã e outras potências. No final do ano passado, impôs sanções econômicas ao país. Em 2019, proibiu aliados de importarem petróleo iraniano

Como o Irã está sendo afetado?

Com as sanções impostas pelos EUA, as exportações caíram de 2,5 milhões de barris/dia em abril de 2018 para 400 mil barris/dia em maio de 2019.

Como o Irã responde?

O país ameaça fechar o Estreito de Hormuz. Para isso, tem mísseis supersônicos capazes de atingir navios comerciais (petroleiros) e militares. Também ameaça expandir o enriquecimento de urânio, que pode ser usado em armas nucleares 

Como os ataques influenciam o preço do petróleo?

Ataques a petroleiros fazem o preço da commodity subir. Antes das explosões do dia 13 de junho, o barril valia US$ 59,97; no dia dos ataques, fechou em US$ 61,31; um dia depois, era vendido a US$ 62,08. Um confronto na região afetaria o escoamento para países do Ocidente, fazendo o preço disparar.

Fontes: Reuters, NY Times e Gunther Rudzit (coordenador do Núcleo de Estudos em Negócios do Oriente Médio da ESPM e doutor em Ciência Política pela USP)

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