Máfias da exploração ilegal de areia silenciam jornalistas na Índia

Investigação aponta morte e ataques a repórteres que apuravam atividade e seus danos ambientais

Marion Guégan Cécile Schilis-Gallego

O jornalista independente  Jagendra Singh vinha escrevendo havia semanas sobre o envolvimento de um político na exploração ilegal de areia em Shahjahanpur, no estado de Uttar Pradesh, na Índia.

Em 1º de junho de 2015, ele esperava uma visita sobre o caso —mas quem apareceu em sua casa foi a polícia. Segundo sua família, estava acompanhada de partidários de Rammurti Singh Verma, então ministro da Previdência estadual. Mais tarde, Singh foi levado ao hospital com queimaduras em mais de 50% do corpo.

“Que necessidade eles tinham de me matar?”, ele questiona em um vídeo gravado no hospital. “Se quisessem, poderiam ter me prendido.” Singh morreu sete dias depois.

A polícia concluiu que ele cometeu suicídio. A única testemunha ocular, uma amiga de Singh, confirmou a história do jornalista, mas depois mudou sua versão diversas vezes. 

 
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“No momento em que escreveu sobre o ministro, ele se colocou em uma situação complicada”, disse Suman, a viúva de Singh. “Disse que não devia escrever histórias como aquela, mas ele disse que tinha um trabalho a fazer.”

No dia do funeral de Singh, seu filho apresentou uma queixa contra Verma e cinco policiais por conspiração para cometer homicídio e pela imolação de seu pai. Não demorou para que o ex-ministro entrasse em contato com a família.

Depois da morte de Singh, a atenção da mídia manteve a família segura e esperançosa por algumas semanas. Mas os jornalistas deixaram de cobrir a situação, depois de algum tempo. A família começou a se sentir isolada e indefesa, no confronto com Verma.

Parentes e amigos começaram a pressioná-los para que aceitassem um acordo com o ex-ministro. A viúva de Singh disse que temia pela vida de seus filhos. "Muitos de nossos parentes de repente se voltaram contra nós", ela recorda. "Disseram que havia ameaças contra as vidas dos meus filhos."

A família afirma que Verma lhes deu o equivalente a três milhões de rúpias (R$ 170 mil), em dinheiro. Eles compreenderam que essa generosa doação estava condicionada a que a família divulgasse uma declaração confirmando que Singh se suicidou. Por fim, o filho de Singh retirou a queixa.

Um mês mais tarde, Verma depôs à polícia afirmando que a queixa apresentada contra ele pelo filho de Singh era "falsa". Verma também declarou que ninguém havia intimidado Singh, ou ateado fogo a ele. Em seu depoimento, Verma não falou sobre o acordo ou o pagamento à família.

De acordo com a família, Verma determinou que o dinheiro fosse gasto com a educação de Diksha, a filha de Singh. "Ela deve ser educada, estudar até quando quiser, e depois disso encontrem um marido para ela, usem o dinheiro para um casamento", o filho de Singh recorda ter ouvido de Verma.

Hoje, a família está dividida com relação a esse compromisso. A filha de Singh, determinada a ter o homicídio de seu pai reconhecido, se recusa a usar o dinheiro, contrariando os desejos da família, e também se recusou a casar.

 

Singh não foi o único jornalista supostamente atacado por escrever sobre as máfias da areia. Sandeep ​Kothari, que morreu duas semanas depois de Singh, Karun Misra (fevereiro de 2016) e Sandeep Sharma (março de 2018) investigavam a extração ilegal de areia quando foram assassinados.

“A máfia da areia é vista hoje como uma das entidades de crime organizado mais proeminentes, violentas e implacáveis da Índia”, disse Aunshul Rege, professor da Universidade Temple, na Filadélfia. 

A areia é uma mercadoria lucrativa, fonte de minerais valiosos como granada, ilmenita e zircônio —usados, por exemplo, para cortar e polir metais para a produção de aviões e de automóveis.

No estado de Tamil Nadu, a extração ilegal de areia cresce descontroladamente desde 2000. Em 2013, o governo proibiu a extração e iniciou inspeções sobre as atividades ilegais dos mineradores privados.

Porém, entre 2013 e 2016, eles continuaram a exportar mais de dois milhões de toneladas de minerais ao ano.

Sandhya Ravishankar, jornalista de Chennai, é um dos poucos que investigaram a questão. “Diria que entre 85% e 90% da extração de areia, legal e ilegal, é monopolizada por uma família.”

Assim que sua primeira reportagem foi publicada, em 2013, ela percebeu como a questão é delicada. “Em uma ou duas horas, o jornal se tornou alvo de um processo por difamação, com meu nome entre os dos acusados.”

Ela escreveu mais seis artigos, mas ninguém queria publicá-los. Em janeiro de 2017, o site The Wire publicou os resultados de sua investigação. A jornalista disse que começou a receber telefonemas ameaçadores e a ser seguida.

O nome de S. Vaikundarajan, dono do império local de extração de areia —a V.V. Mineral— surge mais de uma vez em investigações da Justiça.  

“Sandhya Ravishankar tem uma inimizade pessoal com nossa companhia”, disse um porta-voz de Vaikundarajan.

A V.V. Mineral está presente por toda a cidade de Thisayanvilai. O marco mais importante é o V.V. College of Engineering, cuja fachada imaculada se destaca em meio à aldeia rural pobre. Pouco mais adiante, um centro de saúde exibe o nome da operadora. Mas o impacto ambiental da extração de areia em longo prazo macula esse histórico.

“O volume crescente de agregados extraídos, muitas vezes ilegalmente, de ecossistemas ribeirinhos e marinhos, resulta em erosão fluvial e costeira, ameaça as fontes de água fresca, a vida marinha e a biodiversidade”, diz relatório do Programa Ambiental das Nações Unidas.

“Somos a única empresa que opera com licença ambiental válida. A degradação ambiental é uma história imaginária espalhada com motivos ulteriores”, disse um porta-voz de Vaikundarajan, atribuindo a erosão ao aquecimento global.

Um pescador da aldeia de Kovali diz que o mar devora porção cada vez maior da praia a cada ano, em um fenômeno conhecido como erosão, que os pescadores atribuem à mineração ilegal da área. Cerca de 300 pessoas perderam casas, disse.

Devido à perda da barreira natural de areia, suspeita-se de que a água salgada tenha se infiltrado no lençol freático.

O impacto pode ser duradouro. “A erosão costeira pode continuar décadas depois que a extração de areia pare”, disse Pascal Peduzzi, do Programa Ambiental da ONU.

Os jornalistas que tentam expor as máfias da areia sofrem ameaças constantes. Em maio, “seis indivíduos não identificados, armados de facões e outros objetos cortantes, atacaram o jornalista Patrap Patra” em Odesha, estado costeiro ao norte de Tamil Nadu, afirmou em maio o Comitê de Proteção aos Jornalistas.

Segundo o comitê, o jornalista acredita que a agressão tenha relação com o artigo no qual revelou que uma mineradora local de areia estava operando ilegalmente.

“Quando comecei, alguns jornalistas faziam esse tipo de trabalho, mas foram intimidados; suas famílias foram pressionadas e ameaçadas, e eles tiveram de desistir. Não tiveram escolha”, afirma Ravishankar.

Este artigo é parte da série “Sangue Verde”, publicada pelo consórcio internacional Forbidden Stories (Reportagens Proibidas), formado por 40 repórteres de 30 organizações de mídia de todo o mundo; tradução de Paulo Migliacci

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