Descrição de chapéu

Assim como no Dia D, fotógrafos ainda são usados como instrumentos de propaganda

Em 75 anos, regras impostas a fotojornalistas em zonas de conflito pouco mudaram

Yan Boechat
São Paulo

Poucas imagens são tão icônicas quanto a do soldado americano Huston Riley engatinhando com o corpo quase submerso na praia de Omaha, na Normandia, nas primeiras horas de 6 de junho de 1944

A foto, feita por Robert Capa com uma máquina Contax, transformou-se no símbolo da determinação americana na 2ª Guerra. 

Aquela imagem granulada, que mostra o rosto do combatente levemente desfocado, com fundo tremido, foi um dos 11 fotogramas que sobreviveram dos quatro rolos que Capa usou em 90 minutos.

Por anos a imagem tem sido usada pelos EUA para cristalizar a ideia no mundo ocidental de que, naquele dia, enfim, o império nazista começava a ruir e que os americanos foram os responsáveis por libertar o mundo de Adolf Hitler.

Tropas americanas se aproximam da praia de Omaha, na Normandia, no dia 6 de junho de 1944 - Army Signal Corps Collection/U.S. National Archives/Reuters

O que pouca gente se lembra hoje, porém, é que para conseguir essa foto não bastaram a Capa apenas talento e ímpeto quase suicida. Para estar lá, seu nome precisou ser aprovado tanto pelo Pentágono quanto pelo serviço de inteligência do Reino Unido. 

E, depois, as fotos só puderam ser publicadas na revista Life após censores americanos e britânicos as aprovarem.

Setenta e cinco anos depois, pouca coisa mudou na relação entre fotógrafos e protagonistas de conflitos. 

A tecnologia simplificou o processo, mas, assim como há sete décadas, fotógrafos ainda são usados como instrumentos de propaganda, seja por Estados, grupos rebeldes ou paramilitares mais interessados em poder e dinheiro do que movidos por ideias revolucionárias.

Após a foto do soldado, Capa se transformou em uma espécie de dândi do fotojornalismo. Seu estilo intenso e muitas vezes marqueteiro ajudou a galvanizar a ideia romântica de fotojornalistas indomáveis. 

A realidade, no entanto, é diferente. Fotógrafos dependem da boa vontade de um dos lados do conflito para trabalhar. Em quase todas as vezes em que você vê um fotógrafo em uma zona de guerra, tenha certeza de que ele está ali porque um dos lados do conflito permitiu que ele ali estivesse.

A relação é delicada e muitas vezes pode colocar em jogo a objetividade e a imparcialidade necessárias para que uma história seja contada. 

Nos quase 12 meses de combate entre forças iraquianas (apoiadas pelos EUA) e Estado Islâmico pela retomada de Mossul, só um fotojornalista produziu imagens que provavam o uso sistemático de tortura, assassinatos e estupros por parte de soldados aliados. Após publicá-las, precisou deixar o Iraque e foi banido de qualquer cobertura no país.

Para atuar em Mossul, como em qualquer outra guerra, fotógrafos precisavam seguir normas impostas tanto pelo Exército iraquiano quanto pelas forças americanas. Fotos de soldados feridos eram terminantemente proibidas. Imagens de americanos em áreas de combate eram punidas com o confisco da câmera. 

Ao longo de toda a guerra que dizimou milhares de civis na segunda maior cidade do Iraque, foram raras as imagens de soldados iraquianos feridos ou mortos ou das forças especiais dos EUA. Poucos foram os fotógrafos que desrespeitaram a censura.

A imensa maioria dos fotojornalistas que atua em guerras o faz por amor à profissão, por acreditar que momentos históricos precisam ser registrados de maneira independente. Mas, assim como Capa, seguimos sendo vistos como ferramentas de propaganda.

Há cinco anos (70 do Dia D), o editor de fotografia da revista Life, John Morris, deu uma longa entrevista à revista Vanity Fair em que rememorou sua relação com Capa.

Ao final, disse ter sido ele quem enviou Capa para sua última pauta, na Indochina, quando o fotógrafo morreu ao pisar em uma mina. “Lembro-me de ter ligado para ele e dito: ‘Bob, você não precisa fazer isso, essa nem é uma guerra nossa’."

Jornalista e fotógrafo, já cobriu conflitos no Iraque, no Afeganistão e na Síria

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