Série de TV americana 'Chernobyl' inflama debates e terá resposta putinista na Rússia

Acuidade da reprodução de época tem arrancado elogios de russos; veja o que é fato, ficção ou erro

Igor Gielow
São Paulo

“A primeira coisa que nos perguntamos foi: por que nunca fizemos nada parecido com isso?”, diz o cineasta e produtor russo Alexander Kessel sobre como ele e seus colegas da indústria de TV veem o sucesso da série “Chernobyl”, da HBO americana.

O desastre nuclear descrito no drama em cinco partes, afinal, ocorreu em 1986 na antiga União Soviética, precisamente ao lado da cidade ucraniana de Pripiat, mas a Rússia é o Estado sucessor do império comunista dissolvido em 1991.

Como em outros países, “Chernobyl” virou mania na Rússia de Vladimir Putin. “Ao estabelecer um padrão tão alto para falar de nós, é claro que nos desafia a fazer o mesmo sobre eles”, diz Kessel, 49.

Ele é o produtor da primeira série russa a ser comprada como uma “original do Netflix” pelo serviço de streaming —a ficção “Melhor que Humanos”, sobre a convivência entre gente e androides, está recebendo subtítulos em 25 línguas e deve ir ao ar neste ano.

“Chernobyl” vem sendo alvo de inflamados debates na mídia e redes sociais russas.

O jornal Komsomolskaia Pravda, alinhado ao governo de Vladimir Putin, acusou a série de fazer propaganda estrangeira contra a indústria nuclear russa, que tem forte participação no exterior.

A tentativa de abafar o escopo do maior acidente nuclear da história pelas autoridades soviéticas seria, para o jornal, uma forma de criticar práticas atuais do governo russo.

“A tradição russa é esconder a verdade do chefe e do povo. Ficamos enojados como aquilo acontecia e ainda acontece. É por isso que nada parecido foi feito antes aqui”, afirmou Kessel, judeu de origem ucraniana que morava em Moscou na época da catástrofe.

O criador da série, o americano Craig Mazin, disse ao podcast oficial de “Chernobyl” que pretendia correlacionar a tragédia com os dias de hoje. “O que aconteceu mostra que a verdade não se importa com a gente. Ela irrompe”, disse.

Coincidentemente ou não, uma resposta putinista a “Chernobyl” já está no forno. É uma minissérie homônima, dirigida por Alexei Muradov, a ser lançada no fim do ano pelo canal pró-Kremlin NTV.

Na sua sinopse fica claro para onde a história vai: o foco é uma  ficcional investigação da KGB sobre intenções da CIA de provocar o acidente.

A ideia de uma conspiração russofóbica é linha retórica do Kremlin desde a guerra da Crimeia, no século 19, tendo sobrevivido a sete décadas de comunismo e revivido com força sob Putin. E Tchernobil é um espinho atravessado na garganta do nacionalismo local.

Com efeito, apenas sete filmes ligados de alguma forma ao desastre foram feitos em países ex-soviéticos, segundo contagem feita neste ano em trabalho da pesquisadora sueca Johanna Lindbladh, da Universidade de Lund.

Os quatro primeiros na Ucrânia e Belarus ainda soviéticas, e os restantes na Rússia —o primeiro, “Sábado Inocente”, apenas em 2011. Neste ano, a lista será engrossada por uma ficção científica russa, “Zona de Exclusão”.

Mas não é só a dimensão política que tem causado sensação. A acuidade da reprodução de época tem arrancado elogios de um público usualmente acostumado com atores na maioria das vezes ingleses forçando sotaque russo.

“Eu volto no tempo ao ver os interiores, as pinturas nas paredes, os aparelhos domésticos. É a primeira vez que vejo algo tão real”, disse Vladimir Stepanenko, 45, um analista financeiro em Moscou.

Na imprensa russa, há críticas sobre imprecisões menores, como a posição de fuzis junto ao corpo de soldados —à americana, não soviética.

Para o colunista Leonid Berchidski, da Bloomberg, os interiores reforçam o estereótipo de uma União Soviética miserável e triste. “Parece que acharam os móveis num mercado de pulgas”, escreveu sobre a série, rodada na ex-república soviética da Lituânia.

Stepanenko discorda. “Era assim mesmo”, diz. Uma visita a qualquer casa mais antiga na antiga União Soviética tende a lhe dar razão.

De família ucraniana, ele morava em Kiev em 1986. “Não soubemos de nada até que, de repente, havia boatos de que todos teriam de ir embora”, relembra.

Seu pai, funcionário da estatal elétrica, integrou a força de 600 mil pessoas que trabalharam na contenção da radiação por algumas semanas após a explosão do reator 4 da usina de Tchernobil.

Ela fica 100 km a norte da capital ucraniana, e operadores turísticos cobram de US$ 90 a US$ 400 (entre R$ 354 e R$ 1.570) por visitas guiadas e controladas à área de exclusão em torno do prédio —sendo o passeio pela abandonada Pripiat, cuja evacuação está no centro dramático de “Chernobyl”, seu ponto alto.

É de se especular se o preço subirá com o renovado interesse pela região. Até agora, não aconteceu, talvez pelo trauma que o evento trouxe.

O pai de Stepanenko, morto há dois anos por infarto e não o câncer que temia pela exposição à radiação, não gostava de falar sobre seu trabalho. O mesmo relato foi colhido pelo site independente Meduza, que entrevistou um jornalista moldavo que mora nos EUA, Slava Malamud.

Ele conta que fez o padrasto, um ex-soldado do Exército Vermelho, assistir a série para checar a qualidade da descrição de uniformes da época. “Ele me disse: ‘Eu estava lá, não quero mais ver isso’. Eu não sabia”, contou.


O que é fato, ficção ou erro em ‘Chernobyl’

Relato
Ponto mais elogiado da produção, a reconstituição dos fatos é bastante acurada. Os dramas humanos são retirados de várias fontes, notadamente “Vozes de Tchernobil”, da escritora Svetlana Alexiévitch
 
Papel de Legasov
O cientista Valeri Legasov não soube do desastre em um telefonema, mas numa reunião. Também não foi o único a procurar a verdade. Se matou, mas não morava sozinho com um gato: tinha mulher e filha
 
Papel de Diatlov
Principal vilão da narrativa, o supervisor Anatoli Diatlov de fato foi sentenciado a dez anos de cadeia. Solto quatro anos depois, doente, ele defendeu até a morte, em 1995, que o problema foi o desenho do reator
 
Papel da cientista 
A cientista bielo-russa que busca descobrir a verdade, vivida por Emily Watson, não existiu. Ela é uma amálgama de vários cientistas que tiveram as mesmas preocupações, condensada para facilitar a narrativa
 
A ação do partido
O esforço soviético para acobertar a extensão da explosão é verdadeiro. Gorbatchov demorou dias para falar publicamente sobre o desastre 
 
Mergulhadores heróis 
Na série, uma segunda explosão foi evitada pela ação hollywoodiana de três mergulhadores voluntários. Na verdade, eles haviam sido convocados, e a ação foi rápida, porque o local não estava inundado como na TV
 
Mineiros obstinados 
O tratamento brusco dado pelo governo aos mineiros é fato, assim como a rudeza da categoria. Mas não há registro de que eles tenham sujado um ministro com as mãos ou trabalhado pelados
 
Reconstituição
A série é muito elogiada pela reconstituição de época. Críticos apontam que itens parecem originais, mas que havia mais qualidade nos interiores soviéticos
 
Imprecisões técnicas
​Soldados na tela não carregam fuzis à maneira soviética, junto ao peito. Em 1986, só se falava “camarada” em reuniões oficiais, nunca no trato diário. Legasov e o vice-premiê não foram de Moscou a Pripiat de helicóptero: voaram para Kiev e, de lá, pegaram um carro


A União Soviética só admitiu o desastre quando a radiação chegou à Suécia.

A série descreve magistralmente a cadeia de covardia subindo do responsável pelo turno na usina até o secretário-geral do Partido Comunista, Mikhail Gorbatchov.

A abertura política promovida pelo líder, que assumira no ano anterior, engatinhava.

Assim, a operação-abafa é crível, mas há alguns exageros: ninguém usava o termo “camarada” em conversas triviais em 1986, e havia razoável espaço para discussões públicas, ao menos maior do que o clima repressivo da série sugere, segundo relatos.

“Chernobyl” é veiculada no canal russo Amediateka e, até aqui, não provocou nenhuma reação negativa do governo Putin, como ocorreu no ano passado com o proscrito “A Morte de Stálin”. A comédia de humor negro de 2017 foi tirada de circulação com a desculpa de que vilipendiava símbolos pátrios, como o hino nacional, e heróis de guerra.

Mas são produções locais que sofrem mais com restrições por parte do Ministério da Cultura. O Kremlin condena o comunismo e o regime soviético como um todo, mas é cioso de qualquer herança que considere patriótica.

Há dois anos, o premiado “Matilda”, sobre a amante do último czar antes de ele assumir o trono, também foi alvo de campanha negativa, não menos porque Nicolau 2º é um santo da Igreja Ortodoxa.

Neste ano, a vítima foi “Irmandade”, filme de Pavel Lungin baseado nas memórias do ex-chefe de espionagem Nikolai Kovaliov sobre a retirada soviética do Afeganistão, após quase dez anos de ocupação, em 1989.

Uma espécie de “Platoon” sobre o Vietnã particular dos soviéticos, ele mostra um grupo de soldados divididos entre os aspectos comezinhos da guerra: a ingerência política, as brigas entre camaradas, os saques e a violência.

Sua estreia foi provocativamente marcada para a data mais sacra do calendário na Rússia de Putin, o dia da vitória sobre a Alemanha nazista em 1945, 9 de maio. O governo obrigou o adiamento por um dia, com o ministro Vladimir Medinski (Cultura) alegando risco de “tensões sociais”.

A retirada do Afeganistão foi outro prego no caixão da popularidade de Gorbatchov, que já havia lidado com Tchernobil anos antes. Exaltado no Ocidente, o último líder soviético é altamente impopular na Rússia, visto como o homem que levou ao “maior desastre geopolítico do século 20”, como Putin classifica o caótico fim da União Soviética.

Paradoxalmente, segundo institutos de pesquisa como o Centro Levada, os russos têm horror ao comunismo, mas lembranças afetuosas de um tempo de maior estabilidade.

“É um traço contraditório”, afirma Denis Volkov, diretor do Levada. Ele pode ajudar a explicar o entusiasmo que a precisa reconstituição de época de “Chernobyl” tem gerado, ainda que mostre um mundo atrasado e distante.

Chernobyl
disponível na HBO Go

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