Veteranos e turistas invadem Normandia nos 75 anos do Dia D

Região francesa foi palco do maior ataque da história, crucial para a derrota do nazismo na 2ª Guerra

Normandia (França)

Setenta e cinco anos depois do desembarque de 156 mil combatentes das tropas aliadas, a Normandia assiste a outra invasão vultosa.

A autarquia que promove o turismo nessa região do noroeste francês prevê igualar ou até superar o recorde registrado em 2014, no 70º aniversário do Dia D, quando quase 6 milhões de pessoas passaram pelos museus e monumentos dedicados ao episódio que redefiniu a Segunda Guerra (1939-45).

Um dos visitantes a engrossar a estatística é o militar reformado americano Fernando A. Torres, 97, que aportou na França em 7 de junho de 1944 —portanto, algumas horas depois do Dia D — e só conseguiu voltar ao país dias atrás, no fim de maio, a tempo das comemorações da efeméride.

Turistas visitam a praia de Arromanches, na Normandia - Joel Saget - 3.jun/AFP

“Logo depois da guerra, minha família quis me trazer, mas não aceitei”, diz, na entrada da prefeitura de Sainte-Mère Église, um dos primeiros vilarejos libertados na Normandia, onde ele recebeu uma homenagem ao lado de outros nove veteranos americanos.

Torres queria escapar da peregrinação turística por cemitérios e praias do desembarque.

“Em 1944, desembarcamos entre 4h30 e 5h da manhã na praia de Omaha. A primeira coisa que vi foram corpos de pessoas que haviam se afogado e sido levadas para a areia. Quase pisei em um deles. Tinha 22 anos, era a primeira vez que via um morto. Um não, muitos.”     

Além dos cadáveres, ele se lembra da névoa daquela manhã, tanto a concreta, meteorológica, quanto a abstrata. “Não sabia onde estávamos, apenas que iríamos desembarcar na França. Mas era jovem demais para ter medo. Estava eufórico, o sangue corria quente nas minhas veias.”

Na Inglaterra, onde Torres tinha passado oito meses na montagem da megaoperação, o rumor era de que a ofensiva aliada viria por Calais, no extremo norte da França (e ponto mais próximo das ilhas britânicas).

Era lá que as tropas nazistas concentravam seus esforços defensivos, ainda que a Muralha do Atlântico se estendesse bem além dos limites franceses.

A missão do soldado americano era garantir as linhas de comunicação com os militares britânicos –54 mil haviam chegado a duas praias um pouco a leste na véspera.  

Torres ficaria no front normando por três semanas, antes de ser mandado para outras batalhas na França, na Bélgica e na Holanda. Depois de voltar para casa, no Texas, engataria uma carreira de quatro décadas como professor, inicialmente de matemática, depois no primário.

“Com o passar dos anos, amoleci. Em 2018, fui a uma cerimônia em um cemitério na Holanda e decidi que era hora de voltar à Normandia”, conta.

O regresso nunca foi tabu para o paraquedista George Shenkle, 97, integrante da 82ª Divisão Aérea dos EUA, que saltou para a guerra por volta das 2h da manhã do Dia D, perto de Sainte-Mère Église, com a tarefa de brecar o acesso àquele perímetro de reforços alemães.

Hoje vivendo em um centro para veteranos nos arredores de Filadélfia (Pensilvânia), ele já esteve na Normandia mais de dez vezes desde o primeiro pouso. Forte, apesar de andar em cadeira de rodas, ele era dos mais falantes durante a cerimônia com o prefeito do vilarejo francês. No boné e na jaqueta, exibia medalhas e condecorações às dezenas.      

“É legal ter o esforço reconhecido. Quando você envelhece, aprecia isso ainda mais”, diz. “Penso no desembarque todo dia, lembro que as pessoas [franceses] não acreditavam que aquilo estivesse acontecendo, que a hora da libertação tivesse chegado. Mas não me sinto um herói. Só tive a sorte de sobreviver.”

Shenkle, aliás, questiona a fixação de seus conterrâneos por relatos de triunfo e heroísmo. “Os veteranos adoram falar de sangue e vísceras. Não foi minha experiência. Passei pela guerra com a sensação de não ter matado ninguém e tenho orgulho disso. Mas as pessoas não querem ouvir essas histórias. Sangue e vísceras vendem livros.”

Depois da guerra, o paraquedista trabalharia por quase 50 anos como contador.

Excepcional ou habitual, o retorno de Torres e Shenkle ao cenário de batalha é obra da associação francesa Veterans Back to Normandy (veteranos de volta à Normandia), fundada em 2012.

A entidade promove eventos ao longo do ano para arrecadar fundos que cubram passagens de avião para os militares, além de alistar voluntários na região para abrigá-los por alguns dias. Nos primeiros anos, vinham no máximo 2. Desta vez, são 13.

O roteiro do grupo inclui visitas a monumentos e ao cemitério americano de Colleville, no alto da falésia que se eleva sobre a praia de Omaha –o logradouro é o mais visitado do circuito do “turismo de memória”, como dizem os normandos, com 1,4 milhão de frequentadores anuais.

Mas a oferta vai muito além. O birô de turismo lista 56 endereços ligado à Batalha da Normandia. Há projeções em 360º, bunkers, trincheiras, simulador de voo, um museu só com destroços de aviões e tanques resgatados no mar.

Noves fora o oportunismo pontual, salta aos olhos o trabalho de sistematização da história, tão obstinado, em tempos de paz, quanto o esforço de guerra que o inspirou.


Pela diversão ou pela história, jornalistas indicam produções ocidentais que convergem para as melhores releituras do desembarque. 

Sandro Macedo, editor do Guia Folha

O resgate do Soldado Ryan (1998)

Os primeiros 25 minutos do longa são certamente os mais impressionantes e bem filmados sobre o desembarque na Normandia, cortesia de Steven Spielberg, que levou um Oscar pela direção. Depois, a trama se acalma, e gira em torno de um grupo liderado por um capitão boa-praça (Tom Hanks) que precisa resgatar um soldado... Ryan

O Mais Longo dos Dias (1962)

Esse está também entre os mais longos dos filmes sobre o Dia D, com quase três horas. Produzido por Darryl F. Zanuck, a superprodução conta detalhadamente o planejamento para a ação dos aliados. Para isso, conta com um elenco estrelado, incluindo John Wayne, Henry Fonda, Richard Burton e Sean Connery.

Agonia e Glória (1980)

Liderado por um veterano sargento (Lee Marvin), um grupo passa por vários perrengues na Segunda Guerra, da Sicília a Tchecoslováquia (na época era Tchecoslováquia), incluindo uma participação no desembarque na Normandia. O elenco inclui Robert Carradine e Mark Hamill, entre um treinamento jedi e outro.

Patton (1970)

Na grandiosa cinebiografia do general Patton, o Dia D tem passagem pequena, mas marcante. Por ser temperamental, o general foi colocado de lado e mandado para a Inglaterra. No entanto, isso confundiu os alemães, que achavam que podia partir dali a principal ofensiva. Venceu sete Oscars, incluindo melhor filme.

Operação Overlord (2018)

Provando que os zumbis já estiveram em todos os lugares, esta produção de J.J. Abrams mostra um grupo de militares que desembarca na França com a missão de destruir uma torre de rádio, em poder dos alemães. Acabam se deparando com um laboratório nazista que tenta ressuscitar soldados mortos em combate. O Dia Z.


Igor Gielow, repórter especial

O resgate do Soldado Ryan (1998)

Filme de Steven Spielberg estrelado por Tom Hanks que relançou o Dia D no imaginário ocidental, com a imbatível e cruel cena da invasão. A narrativa não raro deriva para a patriotada, com a compra do conceito dos “soldados cidadãos” do historiador Steven Ambrose sem questionamentos

O Mais Longo dos Dias (1962)

Produzido por Darryl F. Zanuck com quatro diretores e 42 estrelas da época no elenco, é um raro épico em que há equilíbrio narrativo dos dois lados do combate. Com efeito, os diálogos são em inglês, alemão e francês, uma raridade. Baseado no livro de Cornelius Ryan de mesmo nome.

Agonia e Glória (1980)

Dirigido por Samuel Fuller, o filme tem na invasão da Europa seu ápice, mas relata o caminho de um sargento desiludido e durão vivido por Lee Marvin e sua companhia pelas batalhas americanas anteriores na guerra (Norte da África, Itália). Desolador e sangrento, como os combates que mostra.

Band of Brothers (2001)

Minissérie da HBO produzida por Spielberg e Hanks, após a colaboração em "Soldado Ryan", trouxe realismo e emoção em altas doses, ainda que às expensas do equilíbrio. Como no filme, o conceito dos "soldados cidadãos" domina a narrativa, de resto tecnicamente brilhante

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