Descrição de chapéu The Washington Post

Além de Merkel, Kennedy, Hillary e outros políticos minimizaram problemas de saúde

Presidentes de EUA, França e Nigéria buscaram ocultar do público real condição física

Siobhán O'Grady Rick Noack
The Washington Post

Quando a chanceler alemã Angela Merkel foi apanhada em vídeo sofrendo um ataque de tremores, em cerimônia oficial no começo de junho, sua equipe descartou o acontecido como um episódio de desidratação. Mas os tremores aconteceram de novo. E de novo.

E, na quarta-feira, quando optou por ouvir os hinos nacionais sentada, durante uma visita da primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen, Merkel foi apanhada pelas câmeras tremendo na cadeira.

A chanceler alemã Angela Merkel, durante a parada do Dia da Bastilha, em Paris - Charles Platiau/Reuters

Depois do evento, ela disse a jornalistas que estava bem, mas que "terei de viver com isso por algum tempo".

"Estou muito bem, e vocês não precisam se preocupar comigo", disse. "Da mesma maneira que isso chegou, um dia irá embora."

Os episódios despertaram questões na Alemanha, onde Merkel há mais de uma década merece o respeito de seus compatriotas pelo vigor que sempre demonstrou.

Ela costuma ser elogiada por negociar com líderes de todo o mundo madrugada adentro, muitas vezes levando-os à beira da exaustão. Mas Merkel sempre aparece com ar de repousada na manhã seguinte.

Muitos alemães se incomodaram com os tremores recentes, porque as imagens que viram são muito diferentes da maneira pela qual a chanceler se apresenta desde sua eleição, em 2005.

Para eles, os incidentes mostraram a fraqueza de uma "mulher forte", como escreveu a revista conservadora alemã Focus, e reavivaram a questão de quem irá sucedê-la. Merkel já declarou que não voltará a disputar a chefia do governo, quando seu atual mandato se encerrar, em 2021.

Depois de um desempenho fraco na eleição de 2017, Merkel se viu sob pressão crescente para que deixe o posto. Entre os eleitores, ela continua a ser a líder política mais popular da Alemanha.

Mas os críticos estão explorando os incidentes quanto aos tremores, e a decisão da equipe de Merkel de não revelar outros detalhes sobre sua situação médica como nova oportunidade de atacar uma líder que eles já haviam acusado de falta de franqueza sobre sua posição política e sua biografia.

Continua a não estar claro qual foi a importância dos tremores de Merkel, em termos médicos, mas no cenário mundial ela e sua equipe estão longe de serem os primeiros a ocultar o histórico médico de um líder, muitas vezes para evitar rumores de que a pessoa não está apta para o cargo ou a percepção de que o líder é fraco e sua posição é vulnerável.

Diversos líderes e políticos importantes dos Estados Unidos optaram por ocultar do público seus problemas médicos. Na campanha presidencial de 2016, a candidata democrata Hillary Clinton adoeceu durante um evento que honrava as vítimas dos atentados do 11 de setembro e teve de deixar o local antes do planejado.

Um espectador capturou a cena em um vídeo que parece mostrá-la perdendo a força nas pernas, e sendo arrastada por agentes do serviço secreto para uma van. A direção da campanha de Hillary informou que ela estava desidratada, e mais tarde deu mais informações, afirmando que ela tinha passado por uma pneumonia, depois de um acesso de tosse causado por alergias.

O problema de saúde relativamente ameno de Hillary surgiu depois de meses de acusações de seus rivais republicanos de que ela sofria de uma doença não revelada.

Como reportou o Washington Post na época, o instinto inicial de Hillary de manter segredo sobre o diagnóstico de pneumonia talvez tenha deflagrado a pior sucessão de eventos em sua campanha, oferecendo munição nova ao desafiante republicano Donald Trump, que estava em desvantagem nas pesquisas, e estragando os planos de Hillary para uma ofensiva de duas semanas antes do primeiro debate televisivo da campanha.

Ela mais tarde disse à rede de notícias CNN que tinha decidido manter o sigilo sobre o diagnóstico e levar a campanha adiante porque "não fazia ideia de que isso se tornaria um assunto tão importante".

E é fato que outros líderes ocultaram do público problemas médicos muito mais graves —às vezes por anos.

Décadas depois que o presidente John Kennedy foi assassinado, arquivos médicos inéditos revelaram que ele usava uma ampla gama de remédios, o que o público não sabia, entre os quais hormônios e analgésicos.

Era de conhecimento comum que Kennedy sofria de dores nas costas, mas os arquivos mostraram que ele também era portador de Mal de Addison, um distúrbio sob o qual as glândulas não produzem hormônios suficientes, revelaram os arquivos.

É comum que a doença surja depois de um surto de tuberculose, de modo que quando surgiram especulações públicas, quando Kennedy ainda era vivo, de que ele era paciente de Mal de Addison, seus assessores cuidadosamente negaram que ele tivesse Mal de Addison causado por tuberculose.

Mas isso não negava que pudesse ter desenvolvido a doença de outras maneiras.

Oito meses depois que François Mitterrand deixou a presidência da França, ele morreu de câncer da próstata, em 1996. O médico de Mitterrand, Claude Gubler, revelou que Mitterrand havia ocultado a doença do público por anos.

As revelações causaram indignação na França, entre aqueles que viam a publicação de detalhes sobre a saúde de Mitterrand por seu médico como violação das severas leis francesas de privacidade.

Mas as reportagens foram especialmente dramáticas porque Mitterrand, em campanha, havia prometido divulgar relatórios médicos honestos a cada seis meses, para evitar surpresas como a da morte do presidente Georges Pompidou, que morreu no cargo em 1974 sem ter revelado ao público que sofria de câncer terminal.

Outros líderes franceses mantiveram sigilo sobre suas doenças. Em 2013, o presidente François Hollande admitiu ter passado por uma cirurgia de próstata em 2011, pouco antes de anunciar sua candidatura presidencial.

Ele não revelou seu problema médico, descrito como um inchaço benigno da próstata, até depois de ser eleito.

Mais recentemente, questões de saúde se tornaram problema na campanha presidencial da Nigéria, onde a saúde do presidente Muhammadu Buhari era vista como precária, antes da eleição de 2019.

Ao longo de seu primeiro mandato, ele passou longos períodos em tratamento no Reino Unido, mas as autoridades nigerianas jamais revelaram de que tratamento ele necessitava e por quê.

Até o começo de maio de 2018, Buhari já tinha passado ao menos 170 dias de licença médica em Londres, desde assumir a presidência em 2015. A saga inspirou teorias de conspiração na Nigéria, como a de que o presidente era representado por um dublê, na capital Abuja.

Buhari foi reeleito mesmo assim.

Tradução de Paulo Migliacci

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