Descrição de chapéu Venezuela

Antecipar eleições parlamentares na Venezuela seria cruzar 'linha vermelha', diz chanceler argentino

Fala ocorreu em reunião do Grupo de Lima em Buenos Aires, que também teve críticas ao Foro de São Paulo

Sylvia Colombo
Buenos Aires

O chanceler argentino, Jorge Faurie, disse nesta terça (23) que uma antecipação das eleições parlamentares na Venezuela seria uma "linha vermelha" que, se cruzada, deveria levar a um novo posicionamento do Grupo de Lima

A declaração foi dada após reunião no Palácio San Martín, em Buenos Aires, de representantes dos países que compõem o Grupo de Lima —colegiado de 14 nações que discute a crise na Venezuela— e de representantes da União Europeia.

A antecipação das eleições foi sugerida nesta terça pelo homem-forte do chavismo, Diosdado Cabello, líder do partido chavista PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela). Em evento da sigla, ele disse que "não haverá eleições presidenciais, e sim legislativas, já no ano que vem".​

O chanceler argentino, Jorge Faurie (ao centro), com representantes do Grupo de Lima, em Buenos Aires - Argentine Foreign Ministry/Reuters

Se confirmada essa intenção, será diminuído em um ano o mandato da Assembleia Nacional, de maioria opositora e liderada por Juan Guaidó.

Eleito em 2015, o atual Parlamento tem mandato até 2021, e é com esse prazo que Guaidó e seus apoiadores trabalham para atingir seus propósitos: fim do que chamam de "usurpação" do poder por Nicolás Maduro, instalação de um governo de transição, estabelecimento de um novo Conselho Nacional Eleitoral e eleições livres após a saída do ditador.

Na reunião desta terça, o Grupo de Lima fez declarações mais firmes do que em encontros anteriores. Anunciou que os países-membros iniciarão investigações dos negócios e das contas de testas-de-ferro de Maduro no exterior, assim como de seus vínculos com o narcotráfico. 

Os países também afirmaram que as denúncias contra o regime de Maduro contidas em recente relatório da ONU serão levadas para o Tribunal Internacional de Haia. O documento, divulgado no início de julho após visita a Caracas da Alta Comissária para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, afirma que a Venezuela usa esquadrões da morte e tortura contra opositores de Maduro.

Também foram discutidas medidas para conter a expansão de grupos criminosos e guerrilheiros, como o ELN (Exército de Libertação Nacional), colombiano, que atuam na fronteira com a Venezuela.

Além disso, voltou-se a mencionar a presença do Hizbullah na América Latina, como alertou na semana passada o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo. Porém, não foi especificado onde integrantes da milícia libanesa estariam localizados, mesmo após perguntas de jornalistas.

Finalmente, houve uma forte rejeição ao Foro de São Paulo, organização que reúne partidos de esquerda na América Latina. "Rejeitamos foros e movimentos, como o Foro de São Paulo, que apoiam o regime ditatorial", afirmou Faurie.

Em entrevista a jornalistas brasileiros, o chanceler Ernesto Araújo afirmou que "a crise da Venezuela é parte de algo que já existe há 30 anos, que é um esforço de uma determinada corrente, de um grupo encabeçado pelo Foro de São Paulo de atingir o poder na região, e esse é o sentimento também dos países do Grupo de Lima". Nós achamos que o Foro de São Paulo trabalha pela ditadura, pelo totalitarismo."

A reunião teve como um dos principais temas a acolhida do fluxo de refugiados a outros países da região, que vem aumentando. Já são 4 milhões os que saíram da Venezuela. Segundo projeção da OEA (Organização dos Estados Americanos), este número poderá chegar ao dobro até o final de 2020. Os países a que mais recorrem são, nesta ordem, Colômbia, Peru, Chile e Brasil.

Faurie anunciou que a Argentina está implementando uma linha direta de denúncias de abusos de direitos humanos, destinada a ouvir depoimentos dos venezuelanos instalados no país. O projeto é comandado pelo ministério da Justiça local. O chanceler disse que as denúncias reunidas serão enviadas à equipe de Guaidó para que, "num futuro próximo, se faça Justiça".

Ernesto Araújo considerou boa a ideia da linha direta, afirmando que "o Brasil pode vir a adotar essa medida".

Guaidó falou por videoconferência com os chanceleres e representantes dos países. Ele agradeceu a Faurie pela acolhida argentina a mais de 130 mil venezuelanos, e, aos outros países, pelo apoio e o reconhecimento dele como presidente interino da Venezuela.

A próxima reunião do Grupo de Lima ocorrerá no Brasil, com data ainda a confirmar.

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